segunda-feira, 25 de setembro de 2017

A massas, Lula e Bolsonaro | Gaudêncio Torquato

- Blog do Noblat

A mais de um ano do pleito presidencial, pesquisas mostram que Luiz Inácio continua a liderar o ranking de pré-candidatos ao pleito de 5 de outubro de 2018. Mais: um perfil radical, o deputado Jair Bolsonaro, faz contraponto a ele, obtendo o segundo lugar na aferição das opiniões.

Em pesquisa recente do DataPoder 360, sob o comando de Fernando Rodrigues, Lula lidera com 27% a 28%, enquanto Bolsonaro, a depender do cenário, registra 24% 20% e até 26%, quando o nome do PT é Fernando Haddad.

Que motivações estariam por trás dessa colocação? Por que os dois perfis têm, hoje, a maior aceitação do eleitorado? São razões que partem do contexto, com a teia de circunstâncias que cobrem os protagonistas da política, do MP, do Judiciário, da PF e integrantes de setores produtivos, entre eles, importantes nomes do empresariado nacional.

O ambiente social, portanto, está impregnado de fatores de natureza política e jurídica, a exprimir o estado de tensões e conflitos que têm como pilastra central a Operação Lava Jato, considerada a maior investigação sobre corrupção já ocorrida por estas plagas. A imagem que se tem é a de que o Brasil, nos últimos tempos, se assemelha a uma gigantesca delegacia de polícia.

Ações voltadas para a busca e apreensão de documentos, mandados de prisão, descobertas de grande impacto, como malas cheias de dinheiro, tudo sob intensa cobertura midiática, criam no sistema cognitivo das massas a sensação de que os atores políticos estão atolados na lama.

A sociedade se indigna contra “essa política que aí está” e passa a execrar seus discursos e símbolos. A rejeição ao status quo emerge com força.

Dentre os entes mais envolvidos nos escândalos estão quadros com proeminência nos comandos da política e do país, dirigentes partidários, empresários, assessores, ministros, que são alvo de denúncias, alguns se tornando réus em processos que tramitam na Justiça. Lula é um deles. Portanto, não poderia passar bem no teste de avaliação das massas.

Ele, porém, é aprovado com um índice que, mesmo não batendo seu teto tradicional, 30%, está perto dele, fato que merece análise acurada. Vamos tentar. Lula é um líder carismático. Continua a atrair a atenção das massas pelo carisma inato. Respira política o tempo todo. Cultiva uma linguagem interativa com seu vasto público.

Usa o palanque como nenhum outro político, se movimentando de um lado para outro, gesticulando, acusando adversários, expressando verbetes recheados de símbolos, como se estivesse conversando numa mesa de bar com amigos.

A história do retirante
Esse é um lado da questão. O outro se refere à história de homem do povo. Veio lá de baixo, da última camada da plebe, um retirante que passou fome e conseguiu o milagre de alçar voo, chegando ao posto mais alto da República. Por duas vezes.

A história de uma trajetória de sucesso, principalmente de uma figura de origem modesta, impacta. Com ela as massas se identificam. Há outro aspecto que também está gravado no sistema cognitivo das massas: a política de distribuição de renda do governo Lula.

O Bolsa Família, que ele juntou a outros programas da administração FHC, teve o dom de elevar a autoestima das massas carentes. Essa é a cola que liga Lula a imensos contingentes, principalmente as camadas pobres do Nordeste, que enxergam Lula como “Salvação do Povo”, “Pai da Pátria”, símbolos guardados em seus corações.

Nesse ponto, cabe a pergunta: mas ele não está no meio da confusão da corrupção? Não é um dos alvos prediletos da mídia? Réu em sete processos? Por que continua aparecendo em primeiro lugar nas pesquisas?

O argumento é simples: “se todos os políticos são iguais, se a roubalheira é geral, Lula pelo menos tem feitos para mostrar e tem a cara do povão”. É o que se ouve. Há uma blindagem sobre ele, que deriva do carisma e de sua história.

Além disso, parcela razoável do eleitorado não acredita que ele seja corrupto, tendendo a acreditar que recaem sobre ele acusações mentirosas. Essa é a base sobre a qual se assenta a hipótese que lhe confere liderança na intenção de voto. O que não implica imunidade total.

Estamos longe do processo eleitoral. E quando o discurso competitivo aparecer, Lula deverá ser objeto de intenso tiroteio, vindo a cair no ranking de avaliação. Claro, se vier a ser candidato, hipótese que, a cada dia, se mostra menos provável

O radical
Jair Bolsonaro é o reverso da moeda. Sua língua ferina, a postura conservadora, o estilo rompante ganham ampla visibilidade, funcionando como a expressão de um país que baterá duro na bandidagem, desfraldando a bandeira dos valores tradicionais da família, dos gêneros e dos comportamentos sociais. Um Trump à brasileira, com um discurso agregando grupos de direita e de uma classe média que clama por mais ordem na casa e menos bagunça. Lei e ordem é o lema que o acolhe.

Bolsonaro cresce na onda nacionalista-conservadora que toma corpo no seio das democracias contemporâneas. Os extremos ganham volume nas crises. Conta ele com o reforço de núcleos do sistema produtivo e agentes que multiplicam seu discurso nas redes sociais.

A questão é: sustentará o índice competitivo quando o processo eleitoral estiver em curso? Se garantir 20% candidata-se a entrar no 2º turno.

Não se pode esquecer, ainda, que um monumental sistema emissor de informações e opinião multiplicará vasos comunicantes por espaços sociais, esboçando os valores que comporão os perfis adequados para o ciclo a ser aberto em 2018.

A desconfiança, muito comum em época de eleição, voltará com força na mente do eleitor. Certamente o conceito de mudança também será envelopado no discurso político. Mudar significa alterar, romper situações tradicionais, avançar.

A mudança traduzirá promessa de melhoria de vida, de bem-estar, de maior taxa de felicidade pessoal e grupal. Será o fator a disparar o sentimento de adesão, pela recompensa que traz. O contraponto seria a continuidade das coisas. Passado limpo, vida decente, pode ser o refrão do momento.

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Gaudêncio Torquato é jornalista, professor titular da USP, consultor político e de comunicação

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