sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

Arranjos pré-eleitorais ampliam a desorganização partidária: Editoria/Valor Econômico

Os primeiros ensaios de arranjos eleitorais estão ampliando a desorganização partidária. A possível ausência da polarização entre PT e PSDB, que dominou a disputa pelo Planalto por mais de duas décadas, deixou um enorme vácuo, chamado por falta de termo melhor, no "centro". A Operação Lava-Jato contribuiu para jogar ao seu ponto mais baixo a já péssima fama dos políticos - sem distinção de legendas. O agudo déficit de representação abriu falsamente a perspectiva redentora de salvação pelo "novo".

A maior mudança está sendo propiciada pela falência do principal partido que aglutinava a esquerda, o PT. O ex-presidente Lula é o único que poderia, de alguma forma, garantir cacife eleitoral para ao menos evitar que a surra que a legenda levou nas eleições municipais não se repita na Câmara e no Senado. Abatido por uma condenação em segunda instância de 12 anos e um mês, Lula dificilmente terá seu nome nas cédulas. Como todo líder carismático, não tem sucessor no partido e as alternativas são eleitoralmente fracas. Além disso, o poder de transferência de votos de Lula se desgastou com o fracasso da gestão de Dilma Rousseff e com o avanço de sua rejeição nas pesquisas.

O PSDB perdeu o espaço que naturalmente poderia ocupar com a bancarrota do PT. Legenda de caciques, basicamente paulistas, perdeu o rumo faz tempo e está perto da implosão. O ex-presidente Fernando Henrique, desnorteado, prega em praça pública uma alternativa externa à legenda e ao candidato mais forte que ela pode hoje apresentar, o governador Geraldo Alckmin. Alckmin nunca foi do grupo político de José Serra e de Fernando Henrique e terá de se virar sozinho e sem apoio dos manda-chuvas tucanos.

A perspectiva de poder tampouco levou Alckmin a privilegiar o partido. Ao contrário, ele ameaçou entregar o feudo mais importante dos tucanos há 22 anos, o Estado mais rico do país, a Marcio França, do PSB, apenas para pavimentar alianças para sua candidatura ao Planalto. Provocou uma revolta na tribo tucana e em especial no prefeito paulistano João Doria, que não esconde a vontade de se mudar para o Palácio dos Bandeirantes.

A sucessão tucana em São Paulo é um capítulo a parte na disputa eleitoral maior. Assim como Alckmin mirou o PSB e agora quer a muleta de transferir seu vice para o PSDB, enquanto busca o PSD de Gilberto Kassab para a vice-governança paulista, Doria, guindado à prefeitura por Alckmin, busca o apoio do DEM para uma empreitada na qual espera ser bem-sucedido, contra os interesses do governador. Lances maquiavélicos se sucedem. Se vingar, a proposta de realizar as prévias da legenda em maio, após o vencimento do prazo de desincompatibilização dos candidatos que ocupam cargos no Executivo, é cruel para as ambições de Doria. O prefeito se arrisca a ficar sem cargo e sem nada.

Se as duas legendas com programas políticos definidos estão se decompondo ou em baixa, o resto do espectro político é o deserto de ideias de sempre. O DEM, que já esteve ameaçado de extinção, espera a janela partidária de março para arregimentar trânsfugas de outros partidos. O MDB, cuja cúpula está preocupada com a Justiça, continuará a ser o fiel na balança de qualquer governo e o grande promotor do atraso político. Seu compromisso com as reformas necessárias é provisório, condicional e sem convicção.

DEM e MDB procuravam juntos um candidato de "centro", mas a busca pode ter chegado ao fim depois de o presidente Michel Temer ter se convencido de que pode, sim, ser candidato. Rodrigo Maia, líder do DEM, ensaia disputar esse espaço, no qual, sem a ameaça da esquerda, cabe mais de um candidato. Todos esperam chegar a dois dígitos nas pesquisas para se lançar de vez. Em uma eleição pulverizada, com enorme fatia de votos em branco e nulos, um candidato com menos de 20% ainda tem chances.

Enquanto perscrutam o horizonte, os líderes partidários aguardam o "novo". O candidato mais vistoso a esse figurino era o apresentador de TV Luciano Huck. Parte do PSDB poderia jogar Alckmin ao mar por ele, os medebistas em princípio não o hostilizariam, assim como o DEM, que chegou a cogitá-lo como candidato. Huck negou que vá se candidatar. O "novo" só faria diferença se apoiado em partidos com princípios e alguma coesão. Está acontecendo o contrário. Não há atalhos para consertar a política. A última "novidade" no Planalto, Fernando Collor, arruinou o país.

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