sexta-feira, 20 de abril de 2018

Barbosa: ‘Ainda falta muito para candidatura’

Na primeira reunião com o PSB como possível candidato a presidente, Joaquim Barbosa disse que ainda não convenceu a si mesmo e admitiu que há dificuldades com o partido.

O ser ou não ser de Joaquim

Em encontro na sede do PSB, ex-ministro diz ter ‘dúvida muito grande’ sobre candidatura

Bruno Góes, Catarina Alencastro e Carolina Brígido | O Globo

-BRASÍLIA- Terceiro colocado na última pesquisa Datafolha — com até 10% das intenções de voto —, o ex-ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Joaquim Barbosa fez ontem, em Brasília, sua primeira aparição no papel de possível presidenciável pelo PSB. Ao assumir o centro das atenções na arena política montada pelo seu partido, Barbosa mostrou que ainda cultiva o temperamento forte e o estilo enigmático. Em meio a pressões para apresentar-se como pré-candidato, ele flertou com a possibilidade, falou sobre seu bom desempenho nas pesquisas, mas, no final, acabou deixando a sede do PSB com mais perguntas do que respostas.

A jornalistas, Barbosa revelou ter dúvidas pessoais sobre a candidatura, citou a contrariedade da família, destacou que “ainda falta muita coisa” para tomar sua decisão e citou dificuldades na construção do projeto no PSB.

— Estou conhecendo o partido. O PSB tem a sua história, tem as suas dificuldades regionais, as dificuldades de alianças regionais. E eu, do meu lado, tenho as minhas dificuldades de ordem pessoal. Eu ainda não consegui convencer a mim mesmo de ser candidato. Então, persiste essa dúvida muito grande da minha parte. Isso afeta a minha família e várias pessoas do meu entorno — declarou o ex-presidente do STF.

A conversa de Barbosa com a cúpula do PSB foi sigilosa e durou duas horas. Entre outros integrantes do partido, participaram da reunião o presidente nacional da legenda, Carlos Siqueira, os governadores Paulo Câmara (Pernambuco), Márcio França (São Paulo), Ricardo Coutinho (Paraíba) e Renata Campos, a viúva do exgovernador Eduardo Campos. Em meio a tantos políticos tradicionais, o ex-ministro mostrou-se confortável no novo ambiente e chegou a comemorar o desempenho nas pesquisas.

— Para quem não frequenta ambiente político, não dá entrevista, tem uma vida pacata, está muito bom — disse o ex-ministro.

SIQUEIRA: VICE FORA DOS PLANOS
Apesar de parecer à vontade, esquivou-se de questões espinhosas. Perseguido por jornalistas, só reagiu quando foi questionado se não temia perder apoio nas pesquisas, diante da demora em anunciar a candidatura.

— Who cares? — respondeu o ex-ministro, em inglês, lançando mão de uma expressão que pode ser traduzida por “Quem se importa?”.

Um dos principais entusiastas da candidatura, Carlos Siqueira disse que estava apostando no “sim” de Barbosa e fez questão de deixar claro que o partido só considera a candidatura própria.

— Nós não convidamos Joaquim para ser vice de ninguém. Quem tiver essa esperança pode desistir — disse o presidente do partido.

Apesar da empolgação de Siqueira, os governadores do partido saíram da reunião evitando apoiar Barbosa. Rodrigo Rollemberg (Distrito Federal) foi o único a dizer sim para o novo colega.

Márcio França, por exemplo, que deixou o encontro antes do fim, disse que a candidatura do tucano Geraldo Alckmin, de quem herdou o governo de São Paulo, ainda é a melhor opção para o Brasil. Segundo integrantes do partido, há ainda oposição interna ao nome de Barbosa em estados do Nordeste, como Pernambuco.

DO MENSALÃO ÀS CAMINHADAS NO LEBLON
Ao encarar uma candidatura a presidente, Barbosa abdicaria de aspectos da vida que lhe são caros atualmente: a privacidade e a saúde. No auge da notoriedade, quando era ministro do STF e relator do maior processo já aberto na Corte, o mensalão, Barbosa não tinha sossego. Era assediado pela mídia e vivia sob os olhos da opinião pública. Quando se aposentou precocemente, em 2014, conquistou uma rotina mais próxima à de um cidadão comum — embora ainda seja reconhecido nas ruas com frequência e abordado.

Quando estava sob a tensão do julgamento do mensalão, o então ministro sofria de dores fortes nos quadris, que muitas vezes o impediam de sentar-se durante as sessões em plenário. Agora, com mais tempo para se cuidar e menos estresse, praticamente livrou-se do mal. Outro fato que poderia impedir Barbosa de voltar à vida pública é a falta de unidade do PSB em torno de seu nome. O ex-ministro estaria menos relutante em assumir a candidatura se, internamente, a legenda não levantasse tantas objeções.

A família de Barbosa não costuma dar opinião sobre o assunto. Mas o ex-ministro ouve de alguns amigos que não seria interessante se candidatar. Eles conhecem o perfil de Barbosa, inclinado a dizer o que pensa sem cerimônias. Esse estilo, muitas vezes, causou desavenças e inimizades no STF. Ao mesmo tempo que essas questões o afastam do palanque, Barbosa se sente compelido a assumir o papel. Preocupado com o nível de corrupção do país, ele acredita que pode ser uma alternativa de renovação. Nos últimos dois anos, foi procurado pela Rede de Marina Silva e até sondado por um cacique do PT — o partido que saiu mais prejudicado do mensalão. Mas acabou fisgado pelo PSB.

Barbosa mora no Rio, em um apartamento no Leblon, perto da praia, comprado em 1998, quando ainda era integrante do Ministério Público. Em São Paulo, mantém um imóvel nos Jardins e um escritório no Itaim. Quando vai a Brasília, fica hospedado na Asa Sul, no apartamento da mãe, e mantém um escritório no Lago Sul. Um parecer de Barbosa não vale menos que R$ 250 mil. E a agenda está cheia de clientes.

Quando se aposentou, Barbosa vendeu o apartamento que tinha em Miami, mas não abandonou o hábito de ir com frequência aos Estados Unidos. No ano passado, passou dois meses na Califórnia a passeio. No Rio, o ex-ministro faz exercícios físicos e gosta de caminhar pelo calçadão. Às vezes, toma chope com os amigos perto da praia. Também vai ao cinema, bares, restaurantes, concertos, óperas e exposições. Ouve música em casa e assiste a seriados na Netflix. O meio de transporte é o metrô. Parte desses hábitos seriam incompatíveis com a Presidência.

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