quinta-feira, 24 de maio de 2018

Almir Pazzianotto Pinto: A maldição de Adhemar de Barros

- Diário do Poder

Apesar da ser a unidade líder da Federação, o último governador do Estado de São Paulo eleito diretamente à presidência da República foi Jânio Quadros, que não era paulista, mas natural de Campo Grande, hoje capital do Mato Grosso do Sul. O instável político, após vencer o pleito de 3/10/1960 com mais de 5,6 milhões de votos e assumir o governo em 31/1/1961, deixou a Nação atônita e perplexa ao renunciar no dia 25/8. Em lacônica mensagem encaminhada ao Congresso Nacional disse sentir-se esmagado por forças terríveis que “levantam-se contra mim e me intrigam ou difamam, até com a desculpa da colaboração”.

Na Velha República (1889-1930) três ilustres paulistas foram governadores do Estado e presidentes da República: Prudente de Moraes, nascido em Piracicaba (15.11.1894-15.11.1898); Campos Sales, natural de Campinas (15.11.1898-15.11.1902); Rodrigues Alves, filho de Guaratinguetá (15.11.1902-15.11.1906).

Desde 1906 governador algum, nascido em solo paulista, assumiu a presidência pela força do voto. Jânio Quadros foi governador, mas era mato-grossense. Ulysses Guimarães candidatou-se em 1970, foi derrotado e não havia sido governador. Franco Montoro exerceu o governo, mas não disputou a presidência. Adhemar de Barros, Paulo Maluf, Orestes Quércia, Mário Covas, José Serra, Geraldo Alckmin foram governadores e tentaram ostentar a faixa presidencial. Apesar de experientes e poderosos não conseguiram a popularidade necessária para ocuparem o Palácio do Planalto. Lula é pernambucano de Garanhuns, foi presidente, mas não foi governador. Michel Temer jamais ocupou o Palácio dos Bandeirantes. Atingiu a presidência por caminhos transversais. Foi vice-presidente de Dilma Roussef, deposta por crime de responsabilidade.

Afirmam os antigos recair sobre o Palácio dos Bandeirantes anátema lançado por Adhemar de Barros. Atribuindo a derrota nas urnas à ingratidão dos aliados, teria lançado, sobre os futuros governadores, a maldição de que jamais alcançariam sucesso na disputa em que fracassou.

Afastada a suposição do sobrenatural, cabe indagar porque governadores paulistas, após longa e vitoriosa carreira não conseguem superar o último desafio e conquistar o maior galardão que o político brasileiro pode almejar. Várias hipóteses podem ser aventadas para fato incapaz de ser explicado e impossível de ser entendido. Uma das muitas alude à rejeição entre eleitores do norte-nordeste.

O mato-grossense Jânio Quadros foi vereador, governador, e presidente, graças à popularidade granjeada no combate à corrupção. O homem da vassoura fez de Adhemar de Barros, cujo lema seria “rouba, mas faz”, o alvo predileto. Não teria, contudo, suportado o isolamento na recém-inaugurada Brasília, e enfrentava dificuldades de diálogo com a imprensa e o Poder Legislativo. O carioca Fernando Henrique Cardoso teve a campanha pavimentada pelo Plano Real do presidente Itamar Franco. Não conseguiu, todavia, fazer de José Serra o sucessor.

Nas disputas de 7 e 28 de outubro a hipótese da maldição será novamente testada. Geraldo Alckmin busca, pela segunda vez, eleger-se presidente da República. Com a ausência compulsória de Lula, as candidaturas encontram-se niveladas. Alckmin não aparece, até o momento, entre os mais fortes candidatos. Conseguirá o ex-governador do Estado de São Paulo desmentir a lenda e concretizar antigo projeto político, ou o imaginário anátema atribuído ao Dr. Adhemar terá o poder necessário para derrotar o político de Pindamonhangaba?

As eleições se aproximam. As pesquisas indicam disputa acirrada na conquista da preferência do eleitorado. Prevalecerá a razão ou se confirmará a superstição? Seria o caso de se convocar algum exorcista? É aguardar e ver.
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Almir Pazzianotto Pinto, advogado, foi ministro do Trabalhoe presidente do Tribunal Superior do Trabalho.

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