sexta-feira, 23 de novembro de 2018

José de Souza Martins: O general tem razão

Eu & Fim de Semana | Valor Econômico

Na entrevista não programada que o futuro ministro do Gabinete de Segurança Institucional, general Augusto Heleno, concedeu ao jornalista Fabio Murakawa, do Valor, no dia 8 de novembro, fez ele uma afirmação que pede a reflexão de todos: "O problema da América do Sul é que sempre as elites ignoraram os mais pobres. (...) As elites sempre viveram para si e sempre ignoraram a desigualdade social".

A afirmação do general não pode ser mais clara. É a do bom senso de quem comandou a força da ONU no Haiti, um dos países mais pobres do mundo, e que, em diferentes lugares do Brasil, viu a pobreza de perto.

O general tem razão. Agora mesmo, na composição do novo governo, que expressa o domínio dos interesses privados sobre o que é propriamente social e público, fica claro quanto as elites respondem pelo beco sem saída da pobreza.

No período neopopulista do presidente Luiz Inácio, ele próprio disse que nunca os ricos neste país ganharam tanto quanto no seu governo. No entanto, os problemas sociais se multiplicaram. Reformas sociais preventivas da pobreza tornaram-se secundárias. Embora não houvesse e não haja por que não fazê-las. Nos países de capitalismo sério não oneram as elites nem lhes tiram o que entendem ser de seu direito. Asseguram justiça social e estabilidade.

Seria injusto não reconhecer as muitas e exemplares exceções que são as de membros das elites brasileiras que sabem que devem ao país os ganhos de sua prosperidade. A sociedade não é constituída apenas de pessoas espertas. É constituída de todos. Todos somos o outro. As elites também.

O Brasil tem uma história de ações de setores minoritários das elites contra a pobreza e o desvalimento, em relação aos que carecem do pão nosso de cada dia, de alternativas de vida, de instrução. Na perspectiva correta de que a pobreza só pode ser combatida com ações de oportunidades aos pobres para superação do que os minimiza e abate. As que os integrem na sociedade. O Bolsa Família é necessário como socorro de sobrevivência. Mas não soluciona o problema da pobreza. Não toca em suas causas. Serve apenas para ir levando a vida.

Para enfrentar a pobreza, é preciso reconhecer que os mais importantes instrumentos de correção das desigualdades sociais, os ministérios da área econômica, são no Brasil capturados pelos interesses das elites. Suas políticas enriquecem uns e empobrecem outros ao mesmo tempo.

Pobreza, no Brasil, é muito mais do que não ter dinheiro no bolso. Pobreza é também o da situação daquele cujo capital cultural é jogado no lixo pelos presunçosos e ignorantes que acham que só existe futuro na tecnologia que dispensa mão de obra. E não nas preciosas tradições técnicas do povo, cuja agricultura e cujo artesanato, produtivos e lucrativos, ainda dão emprego a muitos.

É claro que as elites podem tomar iniciativas privadas de superação da pobreza e de suas sequelas. E as tem tomado, com impactos decisivos no próprio destino da nação. Destaco o melhor exemplo de uma intervenção social de altas consequências, a criação da Universidade de São Paulo, em 1934. Júlio de Mesquita Filho, o inventor da USP, estabeleceu como premissa que ela teria que ser pública, laica e gratuita. Seria, portanto, uma universidade democrática, aberta a todos, também aos pobres. Coisa de elite inteligente e culta.

A universidade e o país recrutariam inteligências e não apenas alunos, de que o Brasil carecia e ainda carece. Inteligências que existem também entre os pobres, entre as mulheres, então discriminadas, entre os estigmatizados devido à origem cultural e étnica, como pardos e pretos.

Nessa concepção da elite, a USP se tornou a mais importante e mais verdadeira universidade brasileira e uma das três mais importantes universidades da América Latina. Ela é o nosso mais poderoso instrumento e símbolo da modernidade. E foi criada menos de meio século após a tardia abolição da escravatura.

Foi o nosso salto da escuridão da ignorância absoluta para o tempo das luzes e da ciência. Ali, não só os filhos da elite e da classe média, mas também filhos de trabalhadores têm obtido formação superior e se tornado artífices da possibilidade de um Brasil econômica e socialmente desenvolvido.

Não se pode esquecer poderosas iniciativas de emancipação social do povo, como a dos irmãos Moreira Salles, de Milu Villela (do Banco Itaú), das escolas do Bradesco, da Orquestra Sinfônica que o maestro Silvio Baccarelli criou na favela de Heliópolis (SP). Antigos industriais, como Jorge Street e Roberto Cochrane Simonsen, anteciparam-se ao governo na implantação, em suas empresas, de relações de trabalho baseadas no reconhecimento de direitos que só mais tarde seriam reconhecidos.
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José de Souza Martins é sociólogo. Professor Emérito da Faculdade de Filosofia da USP. Membro da Academia Paulista de Letras. Entre outros livros, autor de “Desavessos - Crônicas de Poucas Palavras” (Com-Arte).

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