sexta-feira, 14 de dezembro de 2018

José de Souza Martins: Crise na cultura do livro

- Valor Econômico / Eu & Fim de Semana

O livro vem se defrontando com mudanças nos costumes relativos ao modo e à forma como entra na vida das pessoas. A crise que agora se menciona é a do livro-mercadoria e não a do livro enquanto instrumento de difusão da cultura, embora este dependa daquela. Justamente por isso, seu fulcro está nas grandes livrarias, as que mais se afastam das tradições relativas ao seu lugar na disseminação social da cultura letrada. O que se dá na medida em que se distanciam da sociabilidade comunitária em que o livro floresceu entre nós.

Os impasses desses estabelecimentos, tudo indica, estão de algum modo relacionados com uma fratura cultural no que é e no que significa o livro para a imensa maioria dos seus leitores. Apostam mais no comprador do que no leitor.

As grandes livrarias procuram criar uma nova cultura do livro e da leitura. Mudanças culturais, porém, tendem a ser lentas, seu ritmo descompassado com as noções de investimento e de lucro. O lucro tem pressa, e essa tem sido a função desagregadora que desempenha em todos os âmbitos que captura. Quase sempre, desorganiza depressa o que é tradicional e costumeiro e menos depressa dá sentido a condutas substitutivas.

Com características de supermercado, essas livrarias eliminaram aspectos importantes e arraigados da sociabilidade do livro. É claro que o surgimento de outros meios e instrumentos de difusão do livro tem seu papel na crise atual. Caso dos livros acessados eletronicamente, lidos em tablets. É o caso das livrarias virtuais, por meio das quais o leitor pode encontrar facilmente o livro que busca e recebê-lo em casa. Um elo importante da cultura do livro está sendo enfraquecido, a livraria.

Aparentemente, as inovações na difusão e no comércio de livros os reduziram a equivalentes de bem de consumo. Quando o livro é, na verdade, bem de uso, com uma durabilidade que não se confunde com a do que é consumível. Não é simplesmente produto, é obra, que com o sociólogo Henri Lefebvre, podemos assim definir para diferençá-lo enquanto meio de expressão da dimensão monumental da vida social, a do saber.

Escolher um livro numa livraria não é a mesma coisa que escolher um pacote de bolachas num supermercado. Quem compra um livro tem acesso ao seu conteúdo imaterial e não apenas acesso a mera embalagem do saber, com volume e preço. Leitores por seu meio conversam em silêncio com os autores. Muitos, como eu, anotam à margem do livro ou sublinham trechos do diálogo imaginário entre leitor e autor.

Esse tipo de relação pede o tempo lento da reflexão, antes da aquisição do livro, o exame cuidadoso da quarta capa, da orelha, do índice, até do confronto das diferentes edições do livro disponíveis na livraria. Filas, afobações, barulho, congestionamento de pessoas diante de uma estante ou do caixa não são componentes dessa cultura do livro. Em nome do primado do lucro, na nova cultura das grandes livrarias, há excesso de economia e falta de poesia e de antropologia.

Em vários países do mundo, livrarias imensas deixam de ser interessantes para os aficionados ou mesmo carentes da leitura. Não que não haja lugar para as grandes livrarias. A Foyles, de Londres, uma das maiores livrarias do mundo, conseguiu manter a sociabilidade de pequena livraria na imensidão de seus vários andares. Aqui mesmo, em São Paulo, a Cultura da Paulista não tem o encanto da Cultura do Villa-Lobos, que é uma livraria sem congestionamentos, com um ar intimista e atendentes cultos, capazes de trocar ideias sobre livros, sem pressa, com os clientes-leitores. O mesmo se dá na Livraria da Vila, da alameda Lorena, em São Paulo.

A livraria, enquanto lugar de encontro do leitor com o livro e não simplesmente como lugar de compra de livros, ainda sobrevive nas livrarias de nossas editoras universitárias, como um convite à leitura e ao saber. Em São Paulo, na Livraria da Edusp, na Cidade Universitária, uma extensão da casa e da sala de aula; na Livraria da Unesp, na praça da Sé, no mesmo prédio que foi da editora de Monteiro Lobato.

Nesse sentido, não se pode deixar de valorizar livrarias como a Francesa, na rua Barão de Itapetininga, o recanto culto que Paul Montéil criou para a difusão do livro francês, como uma extensão da casa do leitor e da universidade.

Do mesmo gênero, é a Livraria Alpharrabio, da poetisa Dalila Telles Veras, na rua Eduardo Monteiro, em Santo André. Lugar de encontro de autores e leitores, uma sala de estar para conversas literárias, um cafezinho. Até mesmo um pequeno auditório em que sempre há lançamentos, palestras e debates. Ali, mora o espírito do livro. Onde Zélia Gattai, cuja família era de São Caetano, falou e inaugurou um monumento a Jorge Amado.
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José de Souza Martins é sociólogo. Professor Emérito da Faculdade de Filosofia da USP. Membro da Academia Paulista de Letras. Entre outros livros, autor de “Desavessos - Crônicas de Poucas Palavras” (Com-Arte).

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