quarta-feira, 26 de setembro de 2018

Cristiano Romero: Estabilidade e eleição

- Valor Econômico

Depois de 33 anos, estabilidade econômica e política é questionada

A mais desafiadora transição política enfrentada pelo Brasil, desde a redemocratização, mostra que o país precisa amadurecer suas instituições. A democracia deve ser encarada como um bem absoluto, inalienável, mas sua construção, especialmente em nações que experimentaram interrupções históricas (no caso brasileiro, em 1937, com o Estado Novo, e, em 1964, com o golpe militar), é cotidiana. Em geral, quanto mais antiga uma democracia, mais forte ela é e mais arraigados são os valores democráticos.

Democracias frágeis têm instituições frágeis. É por isso que algumas transições são marcadas por turbulências. Quando os militares perceberam, em meados da década de 1970, que ficou difícil esticar a ditadura depois dos anos de chumbo - cujo marco inicial foi a edição do Ato Institucional número 5 (AI-5), no fim de 1968 -, a ideia de distensão e abertura tomou lugar. Mas quem detém poder, principalmente num regime autoritário, resiste a entregá-lo.

Entre 1975 e 1985, período em que se deu a transição "lenta, gradual e segura" arquitetada pela cúpula militar, grupos resistentes ao retorno da democracia tentaram promover golpes dentro do golpe e, por muito pouco, a redemocratização não foi abortada. No fim, uma "surpresa" desagradável para os brasileiros que não votavam para presidente desde 1961: coube ao Congresso eleger o primeiro presidente depois de três décadas.

Este é o Brasil: no papel, o regime de exceção vigorou de abril de 1964 a março de 1985, sendo que a transição para a democracia consumiu quase metade desse tempo. Muito comum na história do país, o acordo de transição conciliou interesses do grupo que perdeu a hegemonia e do grupo de oposição que assumiu em seu lugar. No acerto, o presidente seria Tancredo Neves, um dos expoentes da oposição "consentida", e o vice, José Sarney, um dos próceres do regime autoritário - a derrota no Congresso, em 1984, da emenda constitucional que restabelecia a eleição direta foi parte do acordo.

Rosângela Bittar: Promessa de confusão

- Valor Econômico

Com rasteira bem dada nos primeiros, 3ª via tem chance

O país vai às eleições de 7 de outubro partido, pelo que revela o quadro de hoje, a menos de duas semanas de abertura das urnas. E, pior, não há perspectiva de felicidade a partir de qualquer resultado que se venha apresentar ao segundo turno. O governo que vai começar em 1º de janeiro de 2019 é uma promessa de confusão, de aprofundamento das crises, de radicalização. Se for o PT, com o projeto Fernando Haddad vocalizando Lula, impedido de disputar, chegará com a faca nos dentes, pronto para cumprir as ameaças que seu timoneiro vinha fazendo antes mesmo de ser preso, a começar pelo controle da imprensa, pela anulação de medidas de ajuste fiscal, pelo risco de volta da política econômica de matriz não tão nova mais. Se for o projeto Jair Bolsonaro, será a tensão permanente que cerca um mundo desconhecido, pois ele ainda não disse a que virá. Com certeza impregnada do temor de novo golpe militar e de autoritarismo igual à expectativa com o PT.

É uma eleição ruim para o Brasil, embora desde que começaram a se definir as candidaturas já se soubesse que o eleitor não teria, desta vez, muita chance de boa escolha. O surgimento de um novo, alguém que arejasse a política, ficou no desejo. Chegou-se à opção mais dramática que se poderia prever pois a promessa é de confusão até o próximo encontro eleitoral.

No plebiscito entre PT e anti-PT, pois é disso que se trata, perde a população. Bolsonaro é o escuro, Haddad é o breu, um desconhecido, inclusive no próprio partido. O que fará, fora das previsões indicadas pelo líder que representará, não se sabe tanto quanto não se conhece nada do seu adversário.

Portanto, a partir de janeiro, para evitar sustos e não dizer que a cigana o enganou, o eleitor deve esperar muito ressentimento. Ruirá a promessa de pacificação, de reunificação do país. A radicalização ficará mais acirrada. Um grupo acusando o outro e o Congresso sob ameaça de qualquer coisa se não der governabilidade ao governo, a qualquer dos dois.

Maria Herminia Tavares de Almeida: Onde mora o perigo

- Folha de S. Paulo

A democracia brasileira corre risco e a ameaça nas eleições vem da extrema direita

A centro-direita se despedaçou. O PSDB perdeu a capacidade de reunir em torno de seu candidato a grande parcela do eleitorado dessa vertente. A cada dia fica mais provável que a disputa se dará entre Fernando Haddad e Jair Bolsonaro.

A migração dos eleitores rumo aos dois candidatos vem dando embalo à interpretação de que caminhamos para um enfrentamento entre forças políticas extremistas, nenhuma delas comprometida com instituições e valores democráticos. Há quem descreva a situação como um embate catastrófico entre duas formas de populismo.

Haddad e Bolsonaro, para além de suas abissais diferenças, seriam igualmente nefastos para a estabilidade e a permanência de democracia. Ela estaria ameaçada qualquer que fosse o resultado das urnas, pois seriam grandes as chances de que sucumbisse a uma variante de chavismo ou a um governo de extrema direita sob permanente tutela militar.

Essa versão do dilema político que nos aflige rende imagens fortes para o horário eleitoral e muita fúria no Facebook. Mas é difícil sustentá-la à luz da experiência dos últimos 30 anos de democracia plena.

Cabe debitar ao PT muitos dos malfeitos que levaram o país à crise presente: a cegueira diante das condições externas que nos permitiram passar quase ilesos pela crise mundial de 2008; o descompromisso com o controle da inflação e com a responsabilidade fiscal; o desenho canhestro e o descontrole na execução de programas sociais em si positivos –como o Fies, o Ciência sem Fronteiras, entre outros.

Elio Gaspari: O centro, como se chega ao centro?

- Folha de S. Paulo

Haddad e Bolsonaro devem se afastar dos extremos para convencer eleitores

Tudo indica que Jair Bolsonaro e Fernando Haddad disputarão o segundo turno. Na última pesquisa do Ibope, um tem 28% das preferências e o outro ficou com 22%. Ciro Gomes, Geraldo Alckmin, Marina Silva, Alvaro Dias, Henrique Meirelles e João Amoêdo têm juntos 31%. Esse percentual, somado ao total dos que não responderam e aos que preferem o voto nulo ou em branco, vai a 49%. Portanto, perto da metade do eleitorado ainda estaria potencialmente disponível num segundo turno.

Os candidatos dos partidos de Lula e de Levy Fidelix (o do Aerotrem) deverão buscar a diferença no mar dos disponíveis, ambos procurando afastar a imagem de radicais. O centro não foi à campanha, mas Bolsonaro, com 46% de rejeição e Haddad, com 30%, tentarão buscá-lo. Será um exercício de acrobacia política, e a responsabilidade final ficará para os eleitores que vierem a acreditar na versão light do PT ou na de Bolsonaro.

O capitão reformado dizendo que nada tem contra as mulheres poderá até ser verdade, mas nesse caso, não se deve acreditar nele, pelo que disse através dos tempos. O mesmo pode ser dito de Haddad quando ele repete que acredita nos mecanismos de combate contra a corrupção, apesar de nunca ter concordado com a prisão de um só petista condenado por corrupção.

Uma coisa é certa: por mais que se deteste o PT, ele tem um comprovante factual de respeito à democracia: governou o país durante 14 anos respeitando a Constituição. Ocorreram alguns incidentes de violência, mas eles não afetam essa constatação. Petistas quebraram o nariz de um manifestante nos primeiros meses do mandato de Lula e em abril passado um cidadão que protestava em frente ao Instituto Lula foi espancado por companheiros do ex-presidente.

Bruno Boghossian: O centrão já ganhou

- Folha de S. Paulo

Aspecto gelatinoso do bloco permitirá adesão tanto a Haddad quanto a Bolsonaro

Os movimentos da quinzena final de campanha dão uma certeza a esta eleição imprevisível: o centrão já ganhou. No dia 1º de janeiro, parlamentares do bloco estarão no plenário da Câmara para aplaudir o presidente empossado. Por ora, tudo indica que esse cidadão não será Geraldo Alckmin, candidato apoiado pelo grupo. Os sorrisos dos deputados estarão largos mesmo assim.

O desempenho fraco do tucano ao longo de toda a disputa precipitou as deserções e os flertes públicos de muitos políticos de sua chapa com Jair Bolsonaro (PSL) e Fernando Haddad (PT). Alckmin foi confrontado com articulações constrangedoras, feitas à luz do dia, por alguns de seus aliados com os adversários.

Dirigentes do centrão passaram a discutir internamente o caminho que deverão seguir no segundo turno entre o PT e o PSL. O formato gelatinoso do bloco, sem orientação ideológica clara, permite que as siglas se alinhem a qualquer um dos lados.

Merval Pereira: Uma decisão difícil

- O Globo

Quanto mais votos inválidos, menor a quantidade de votos que um candidato precisa para vencer a eleição

A perplexidade que toma conta dos eleitores que não querem nem Bolsonaro nem Haddad pode produzir consequências no resultado final da eleição. O clima de protesto com votos nulos, em branco e abstenção pode voltar, mudando o cálculo para a eleição já no primeiro turno, pois só contam os votos válidos. Fica mais fácil ter votos suficientes para ir ao segundo turno, ou até mesmo ganhar logo.

Já houve época em que o voto em branco era interpretado como um voto de conformismo do eleitor, enquanto o nulo era o voto de protesto. Não há como dizer se essa interpretação é correta nos dias de hoje, pois a urna eletrônica facilita o voto em branco, tem uma tecla só para ela, e dificulta o voto nulo.

O Tribunal Superior Eleitoral (TSE), numa jurisprudência do século passado, considera que votos nulos não existem, “é como se nunca tivessem sido dados”. Ignorar o recado que as urnas enviaram aos nossos políticos nas recentes eleições, considerando que os votos nulos nunca existiram, é um reflexo da leniência com que tratamos nossas mazelas político-partidárias.

Os votos em branco eram considerados válidos até a Constituição de 1988, quando também entraram na lista dos não votos. Na eleição municipal de 2016 houve o maior índice de votos brancos e nulos no Rio de Janeiro desde a implantação das urnas eletrônicas, em 1996.

Na verdade, quanto mais votos inválidos, menor a quantidade de votos que um candidato precisa para vencer a eleição. É o que fez Freixo chegar ao segundo turno com apenas 16% dos votos válidos (o que representa muito menos do total de votos), e Marcelo Crivella chegar em primeiro com menos votos que os nulos, em branco e as abstenções. O eleitor que escolhe esse tipo de protesto, portanto, está facilitando a vida de quem está na frente das pesquisas.

Roberto DaMatta: A polaridade como problema

- O Globo

No Brasil ainda dominado pela ‘turma do deixa disso’, como dizia o Millôr, passamos pela prova do um ou outro

Para um olhar distanciado — se isso é possível quando vivemos a primeira Lei de Murphy, segundo a qual, “se algo pode dar errado, dará” —, um dos fatos mais notáveis desta eleição é a polaridade lida como uma indesejável “polarização”. Como prenúncio de crise e violência. Como o lado negativo da concorrência eleitoral inevitável no “estado democrático de direito”.

Competição sem a qual não haveria senso de realismo e de renovação como algo central da democracia, tal como a conhecemos nos seus dilemas, riscos e qualidades. A menos que se pense em novas regras para o regime democrático — e tais formulações têm surgido tanto nos seus feitios fascistas quanto nos liberais (no sentido preciso de articular de modo franco e possível individualismo, liberdade e igualdade) —, toda derradeira fase de um processo eleitoral ou de substituição de atores em papéis exclusivos só pode terminar num dualismo. Numa oposição final que — diferentemente dos sistemas fechados, nos quais os governantes são substituídos por assassinatos incestuosos, como ocorria na Roma Antiga — é um belo exemplo disso; e os nossos “golpes de Estado” são assassinatos políticos nos quais uma polaridade tida como irreversível é resolvida pela eliminação do adversário. Todos conhecemos esse caso que, como uma compulsão, teima em retornar. Nele, a discordância transforma-se em hierarquia pela submissão ou eliminação do outro.

A pergunta de fundo, portanto, é como ter Política (com “p” maiúsculo) sem polaridades? Sobretudo quando sabemos que as democracias se fundam na paradoxal adversidade destinada a resolver os clamores da maioria pelo voto desta mesma maioria. Nelas nada é perfeito, exceto o ditador ou a Nomenclatura que está acima da lei e na raiz da manutenção de privilégios garantidos e irremovíveis.

Míriam Leitão: Perdas e ganhos com o petróleo

- O Globo

Alta do petróleo aumenta a atratividade do pré-sal, mas tornará mais complexo para o próximo governo resolvera questão do diesel

O petróleo tem subido de forma constante. Quando atinge um novo patamar, a cotação oscila um pouco, mas não volta ao ponto anterior e, segundo executivos do setor, vai continuar assim. A alta do petróleo e do dólar, por causa da eleição, aumentará o custo do subsídio ao diesel. Além disso, há outros problemas no setor de óleo e gás que exigirão um entendimento da questão maior do que demonstram ter alguns dos candidatos à frente nas intenções de votos.

A produção do Irã está em queda e a dos dois maiores fornecedores, Arábia Saudita e Rússia, não está aumentando. Por isso, o cenário mais provável é de preços elevados, talvez indo em direção aos US$ 100. Esse é um bom momento para atrair mais investidores para o pré-sal brasileiro, área que tem sido considerada uma das fronteiras mais competitivas de exploração e produção do mundo. Se o Brasil tiver uma política de hostilidade aos investidores, perderá de novo a chance, como aconteceu entre 2008 e 2013, quando o PT suspendeu por cinco anos os leilões para mudar as regras para o regime de partilha.

Vera Magalhães: Todos contra 2

- O Estado de S.Paulo

O debate de hoje, no SBT, deverá levar de forma mais acentuada que os anteriores à tentativa dos demais candidatos de tentar quebrar a polarização entre Jair Bolsonaro e Fernando Haddad. Para isso, devem ser vistas alianças estratégicas entre adversários e divisão de tarefas entre eles para definir quem bate em quem.

Geraldo Alckmin deverá se concentrar em Jair Bolsonaro, mas pelo caminho que tem explorado nos últimos dias: sem agredir o capitão, uma vez que o que ele pretende é conseguir lhe tirar eleitores, mas batendo na tecla de que sua passagem ao segundo turno levaria à vitória de Haddad e à volta do PT ao poder.

Em reunião ontem com aliados e estrategistas, Alckmin ouviu o pedido para que seja mais incisivo. Dizem que ele não poderá ignorar Bolsonaro, como fez nos encontros da Gazeta e da TV Aparecida. Mas também terá de se mostrar um opositor do PT, o que o forçará a chamar Haddad para o embate direto.

Já Ciro Gomes passará a noite no hospital e sua assessoria não sabe se ele irá ao debate. Até terça-feira, sua estratégia era atingir o candidato petista e se mostrar como a terceira via ainda no jogo. Pretendia ressaltar os pontos em que tem fustigado o ex-prefeito de São Paulo: sua inexperiência e o fato de ter sido rejeitado pelo eleitor paulistano, com derrota no primeiro turno, e o “beija-mão” a Lula que ele tem praticado.

Ciro avalia que Bolsonaro é um problema mais imediato para Alckmin e que a tarefa de desconstruí-lo cabe ao tucano e conterrâneo de Pindamonhangaba.

Fábio Alves: A batalha dos extremos

- O Estado de S.Paulo

De uma forma simplista, parte do mercado joga sua esperança em Bolsonaro

Um eventual segundo turno na eleição presidencial entre os extremos ideológicos representados por Jair Bolsonaro (PSL), à direita, e Fernando Haddad (PT), à esquerda, será um grande risco à aprovação de reformas necessárias para a recuperação da economia brasileira.

Esse alerta não foi feito por apoiadores das candidaturas de centro, ainda distante dos líderes Bolsonaro e Haddad nas mais recentes pesquisas de intenção de voto, mas pelo banco americano JP Morgan em relatório enviado a seus clientes.

“Esses resultados das pesquisas confirmaram nossa visão de que esta eleição será uma batalha dos extremos à esquerda e à direita, o que reduz as chances de que o candidato vencedor adotará reformas favoráveis ao mercado (‘market friendly’)”, escrevem os analistas do banco ao comentarem em relatório as pesquisas Ibope e Datafolha da semana passada.

Os analistas do JP Morgan ressaltam que Haddad tem enviado sinais de uma possível moderação da retórica de esquerda de seu partido para a economia, com o intuito de provavelmente aumentar o seu apoio político num eventual segundo turno.

“Contudo, ainda é preciso ver se os candidatos terão não apenas a disposição de adotar as reformas, mas também conseguirão convencer o mercado da sua capacidade política de fazer isso”, afirmam os analistas do banco americano.

Monica De Bolle: O dilema do prisioneiro

- O Estado de S.Paulo

Vença Haddad ou Bolsonaro, o mais provável é que o Brasil fique ingovernável, dada a profunda rejeição a ambos

Apesar do título, esse artigo não é sobre o prisioneiro mais famoso do País, aquele que está enclausurado em Curitiba. Quem conhece um pouquinho de teoria dos jogos, ou quem assistiu ao filme sobre a vida do matemático John Nash (“Uma Mente Brilhante”), talvez se lembre do também famoso dilema dos prisioneiros.

Imaginem a situação: dois suspeitos de um crime são presos e colocados em celas separadas. A cada um é dada a seguinte opção: caso um confesse e o outro não, aquele que escolher cooperar com a polícia receberá pena de apenas 1 ano de prisão, enquanto o companheiro silencioso cumprirá 5 anos de cadeia. Portanto, se ambos confessarem, ficarão presos por 1 ano. Se ambos escolherem manter o silêncio, os dois podem ser soltos. Contudo, como não podem se falar, não há como coordenarem o silêncio. Cada um tem de tomar a decisão sobre cooperar com a polícia ou não de forma independente. O silêncio é, portanto, a mais arriscada das opções, pois se o parceiro decidir confessar, são 5 anos de cana. A estratégia dominante – o chamado equilíbrio de Nash desse jogo – é cada preso confessar o crime, ambos recebendo, portanto, pena de 1 ano na cadeia.

O dilema dos prisioneiros mostra que na ausência da possibilidade de cooperação, as escolhas individuais acabam determinando resultado pior do que o alcançado fosse a colaboração dos presos possível: em vez de serem soltos, ambos são encarcerados por um ano. O que isso tem a ver com as escolhas que se apresentam para os eleitores brasileiros? Consideremos os votos anti-Bolsonaro e anti-Haddad.

Luiz Carlos Azedo: O eleitor de Bolsonaro

- Correio Braziliense

“Bolsonaro vence nas regiões Norte/Centro-Oeste (33%) e Sudeste (31%), mas começa a perder influencia no Sul do país, onde caiu de 38% para 30%. Perde feio no Nordeste para Haddad”

Qualquer que seja o resultado das eleições, a candidatura de Jair Bolsonaro é um fenômeno a ser estudado, por romper velhos paradigmas e afrontar o “politicamente correto”. Apesar do seu caráter disruptivo, do ponto de vista ideológico, frustra o surgimento de uma “nova direita” liberal-conservadora e assinala a recidiva da “velha direita” intervencionista e nacionalista, inspirada no antigo regime militar. Se quisermos traçar um paralelo histórico, somente dois militares governaram o país constitucionalmente: Floriano Peixoto (1891-1894) e Eurico Gaspar Dutra (1946-1950). Eram marechais e chegaram ao poder depois de uma longa carreira militar, ao contrário do ex-capitão do Exército, que trocou a caserna pelo parlamento.

Alagoano de Ipioca, Floriano Peixoto (1839-1895), o Marechal de Ferro, foi o segundo presidente da República, sucedendo Deodoro da Fonseca (1827-1892). Durante o governo provisório, em 1890, foi ministro da Guerra; no ano seguinte, foi eleito vice-presidente. Com a renúncia de Deodoro, assumiu a presidência em 23 de novembro de 1891. No poder, diminuiu os impostos, os preços dos produtos e dos aluguéis, o que lhe garantiu apoio popular, mas governou a maior parte do tempo com o país em “estado de sítio” e descontentou a elite política e econômica, principalmente os liberais e a elite cafeeira. Derrotou a Revolução Federalista (1893-1895), no Rio Grande do Sul, e a Revolta da Armada (1893), rebelião liderada pela Marinha, no Rio de Janeiro, que reprimiu duramente. Ao final de seu mandato, em 15 de novembro de 1894, se afastou da vida pública e passou o poder para o presidente eleito, Prudente de Moraes (1841-1902).

Natural de Cuiabá (MT), Eurico Gaspar Dutra (1883-1974) governou o país em 1946-1951. Pautado pela Guerra Fria, seu governo foi caracterizado pela perseguição aos comunistas, pela proibição dos jogos de azar e pela aproximação com os EUA. Era ministro da Guerra de Vargas, em 1936. Apesar de defender o apoio às potências do Eixo, Dutra foi o organizador da Força Expedicionária Brasileira (FEB), enviada para lutar na Itália, ao lado dos Aliados, na Segunda Guerra Mundial. Acabou escolhido pela oposição para ser o candidato à Presidência. A deposição de Vargas por um golpe militar assegurou a eleição de Dutra. Foi sucedido por Getúlio Vargas (PTB), que derrotou o brigadeiro Eduardo Gomes (UDN), outro líder militar da época, e Cristiano Machado (PSD), e voltou ao poder consagrado pelas urnas. Até morrer, Dutra manteve influência no Exército, fazendo parte da Arena durante o regime militar.

Ricardo Noblat: Bolsonaro e o PT

Blog do Noblat | Veja

Feitos um para o outro

Feche os olhos e imagine a eleição presidencial sem candidato do PT. De fato, para ser coerente o partido não deveria ter lançado candidato. Não dizia que eleição sem Lula seria fraude?
Muito bem. Haveria Jair Bolsonaro (PSL) com chances de se eleger presidente se não existisse Fernando Haddad ou outro nome qualquer como candidato do PT?

Bolsonaro não teria votos sequer para se eleger governador do Rio, quanto mais presidente. Só tem porque enxergou a tempo o sentimento contra o PT da maioria dos brasileiros.

De acordo até aqui? Adiante, pois. Se na próxima semana Haddad assumir a liderança nas pesquisas de intenção de voto, Bolsonaro poderá perder parte do apoio que tem hoje. Certo?

(Já não estamos de acordo, imagino.)

Cabe a pergunta: a ser assim, em quem votariam os eleitores perdidos por Bolsonaro? Não sei. Só sei que iriam para quem pudesse derrotar Haddad.

Eleição só acaba quando acaba. A história está repleta de surpresas que escaparam aos faros mais sensíveis dos institutos de pesquisa. Até lá, pois!

Por quem bate o coração de ACM Neto
A deputados do seu partido, o presidente do DEM, ACM Neto, prefeito de Salvador, admite viver um dilema: a quem apoiar no segundo turno se Geraldo Alckmin (PSDB) ficar de fora dele?

– Não posso ser oposição aqui e oposição em Brasília – repete ele.

Na Bahia, ACM Neto se opõe ao governador Rui Costa (PT) que deverá se reeleger no primeiro turno. Em Brasília, apoia discretamente o presidente Michel Temer (PMDB).

Mas se Jair Bolsonaro (PSL) e Fernando Haddad (PT) se enfrentarem no segundo turno, o que fazer? Por ele, não apoiaria nenhum dos dois. Apoiaria Ciro Gomes (PDT) sem pestanejar.

A responsabilidade dos omissos: Editorial | O Estado de S. Paulo

Não se chega sem esforço à situação em que os grandes favoritos de uma eleição presidencial são um deputado do baixo clero e o preposto de um presidiário. Tal cenário é fruto, antes de mais nada, do estado semifalimentar da política, cujo exercício democrático se presta justamente a manter os liberticidas e os arruaceiros longe do poder. Muitos colaboraram para que se chegasse a esse tenebroso estado de coisas.

Já é sobejamente conhecido o papel do lulopetismo nessa tragédia. Décadas de um comportamento arrogante e excludente, que circunscreveu o debate nacional à surrada luta de classes e alimentou a cisão social, empobreceram a política e, como dano colateral, criaram o caldo de cultura no qual medrou o movimento que desembocou em Jair Bolsonaro – não por suas qualidades, mas justamente pela total ausência delas. Bolsonaro, por não ter nenhuma importância política ou intelectual, apresentou-se como veículo ideal para dar existência pública ao que antes ficava circunscrito a murmúrios constrangidos no terreno privado – a aversão visceral a tudo o que o PT representa.

Bolsonaro vicejou porque os que deveriam fazer oposição política real ao PT quando este se esbaldava no poder preferiram se omitir. Enquanto Lula da Silva montava a formidável estrutura corrupta que lhe garantiu quatro eleições seguidas, cooptando todo tipo de agremiação venal, o PSDB, a quem cabia liderar a contestação à degradação dos costumes políticos e dos padrões administrativos, tomou o caminho da autodestruição.

Envolveu-se em lutas fratricidas que desfiguraram uma legenda nascida do desejo de modernizar a política. Quando perdeu o poder para o PT, em 2002, quedou-se paralisado diante do carismático ex-metalúrgico. Renunciou a seu papel de opositor de Lula, aceitando de cabeça baixa a pecha de “herança maldita” que o PT atribuiu ao governo de Fernando Henrique Cardoso. Não soube lidar com o fenômeno lulopetista, que à luz do dia arruinava tudo o que era mais caro aos tucanos, especialmente o respeito ao pluralismo político. Como resultado, o PSDB foi perdendo cada vez mais o seu natural protagonismo de oposição, abrindo espaço para um movimento espontâneo, mas crescentemente radical, de contestação ao PT. Foi deixando de se apresentar, de fato, como alternativa ao PT, à disposição do eleitorado.

Como elas votam: Editorial | Folha de S. Paulo

Eleitorado feminino mostra comportamento diverso do masculino e pode ser decisivo neste ano

Em 1988, os brasileiros aptos a votar somavam 75 milhões. Três décadas depois, esse contingente quase dobrou de tamanho, atingindo 147 milhões de pessoas. A velocidade de expansão, típica de um país em acelerado amadurecimento demográfico, não é o único fato notável dessa metamorfose.

Com o passar do tempo, o peso eleitoral das mulheres foi sobressaindo de maneira marcante.

Para cada grupo de 100 eleitores homens hoje equivale um conjunto de 113 brasileiras habilitadas ao voto. Há 30 anos, essa relação era de 100 para 97. Ou seja, o que era uma pequena vantagem numérica para eles transformou-se numa distância bem maior a favor delas.

Há 7.436.882 mais mulheres que homens no eleitorado. Com margem que correspondia a pouco menos da metade dessa cifra, a título de comparação, foi decidido o segundo turno presidencial em 2014.

Como explicação para esse descasamento entre sexos concorrem um fator natural —como mulheres vivem mais, sua proporção aumenta conforme a população envelhece— e um trágico —o altíssimo volume de homicídios no Brasil vitima sobretudo homens jovens.

Defesa da CLT não ecoa junto a todos os eleitores: Editorial | O Globo

Pesquisa comprova que salário maior é mais importante do que os chamados ‘direitos trabalhistas’

Depois de um longo debate sobre a necessidade de a Consolidação das Leis Trabalhistas (CLT) ser revista, afinal em novembro do ano passado o Congresso aprovou a reforma. A oposição dos sindicatos foi enorme, até porque nesta onda de modernização veio o fim do imposto sindical, sendo ele convertido, como deveria ser, em contribuição espontânea. Uma forma de contribuir para o próprio fortalecimento dos sindicatos, pela proximidade que eles precisam ter das bases. Sem prestar bons serviços às categorias, terão dificuldades para se manter financeiramente.

A grita contra a reforma trabalhista chegou à campanha eleitoral, em que candidatos prometem revê-la. Mas o Datafolha, na semana passada, aproveitou a pesquisa eleitoral e perguntou também se as pessoas preferiam trabalhar como autônomos, sem benefícios da CLT, porém ganhando mais e pagando menos impostos, ou terem os benefícios da carteira assinada, com salário menor.

Quem promete revogara reforma precisa se acautelar, porque 50% dos eleitores preferem trabalhar à margem da CLT, com salário maior e menos impostos. Aparcela de 43% pensa o contrário.

O fato é que a sondagem desmente o senso comum de que haveria maciça oposição à reforma entre os trabalhadores. Os eleitores entrevistados têm razão. A reforma da CLT também produziu efeitos positivos na Justiça Trabalhista, onde o número de reclamações começou a cair.

Petróleo tem maior cotação em 4 anos e fôlego para subir mais: Editorial | Valor Econômico

As cotações do petróleo voltaram a subir e atingiram os maiores valores desde 2014, em uma escalada que vários analistas acreditam que o tipo Brent vá chegar a US$ 100 o barril até o fim do ano, durante o inverno no Hemisfério Norte. O aumento dos preços e a valorização do dólar configuram, caso persistam, uma combinação perversa para países como o Brasil, onde a gasolina já subiu a dois dígitos e, ao lado de energia, tem pressionado um ainda confortável índice de preços.

Há muitas dúvidas sobre se as cotações podem ir além dos US$ 100 a partir de 2019. A demanda oscila hoje em torno de 100 milhões de barris por dia e deve crescer mais 1,4 milhão de barris diários este ano e 1,5 milhão no ano que vem, estima a Agência Internacional de Energia (AIE). Os estoques dos países da OCDE estão abaixo de sua média de 5 anos, o que têm impulsionado os preços. A oferta manteve-se em crescimento desigual, mas vinha dando conta do recado até o segundo trimestre do ano. O aumento da produção do "shale oil" americano, da ordem de 1,5 milhão de barris por dia nos doze meses encerrados em junho, contribuiu para amortecer preços.

O cartel da Organização dos Países Produtores de Petróleo (Opep) foi, no entanto, bem-sucedido em sua meta de defender os preços e em estabelecer para isso um acordo com outros grandes produtores de fora da organização, como a Rússia, para retirar, em 2016, 1,8 milhão de barris por dia do mercado. Estudo da consultoria Oxford aponta que o acordo foi integralmente cumprido por todos e que, sem ele, o preço do óleo estaria ao redor de U$ 56 o barril, e não dos US$ 70, no primeiro trimestre do ano. Reunidos na Argélia nesta semana, o grupo decidiu não elevar a oferta agora, dando a partir daí firmeza para que as cotações fizessem novo movimento altista.

Voto antipetista em Bolsonaro ainda pode mudar na reta final, dizem analistas

Cientistas políticos consideram que crescimento de 18 pontos entre críticos do PT mostra que rejeição ao campo lulista é maior do que voto programático no candidato do PSL

Adriana Ferraz e Luiz Raatz | O Estado de S.Paulo

O crescimento do candidato do PSL à Presidência nas eleições 2018, Jair Bolsonaro, no terço do eleitorado que se declara antipetista – como mostra a última pesquisa Ibope, na qual o deputado tem 59% da preferência nesse grupo específico – é movido mais pelo antagonismo desse eleitor ao que representa o PT e o legado do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva do que por uma identificação explícita com o "bolsonarismo". A avaliação é de cientistas políticos ouvidos pelo Estado. Para esses analistas, na reta final da eleição, esse voto antipetista pode migrar caso fique claro que Bolsonaro não conseguirá derrotar o PT. Geraldo Alckmin, do PSDB, pode ser um dos beneficiados caso esse fenômeno se concretize.

Entre os brasileiros que não votariam no PT de jeito nenhum – grupo formado por três em cada 10 eleitores –, Bolsonaro cresceu 18 pontos porcentuais desde o começo do mês. O candidato do PSL tem agora 59% das intenções de voto entre os antipetistas – a taxa era de 41% no dia 5 e de 53% no dia 11.

Os analistas consideram que esse crescimento de 18 pontos entre críticos do PT mostra que a rejeição ao campo lulista é maior do que o voto programático no candidato do PSL.

"Esse dado mostra que não há um bolsonarismo no Brasil, mas um antilulismo que, no momento, está identificado na figura do Bolsonaro", diz Emerson Cervi, da Universidade Federal do Paraná. "O fato de ele estacionar no eleitorado geral e crescer nesses 30% que não votam no PT mostra que ele não consegue se representar por si mesmo, ele se representa pela negação do outro."

Kléber Carrilho, professor de comunicação política da Universidade Metodista, concorda com a avaliação. "Neste momento, o Bolsonaro consegue reunir a imagem do antipetista ideal", diz. "A paixão antipetista é maior que a decisão de voto no Bolsonaro. É um voto mais antipetista que um voto no Bolsonaro."

O PSDB, que por mais de 25 anos polarizou a política nacional com o PT, foi o maior afetado pelo crescimento de Bolsonaro entre os antipetistas. Nessa faixa do eleitorado, Alckmin tem apenas 10% dos votos, o equivalente a um sexto da taxa do candidato do PSL. Agora, o tucano conta com o crescimento do petista Fernando Haddad contra Bolsonaro no segundo turno - 43% a 37%, segundo o levantamento de ontem - para tentar tirar votos do capitão reformado.

Encontro de candidaturas de centro é cancelado após desistências de Marina e Meirelles

Reunião, organizada pelo jurista Miguel Reale, seria realizada na terça-feira

Dimitrius Dantas | O Globo

SÃO PAULO - Uma reunião entre representantes de candidatos de centro não aconteceu após Marina Silva, da Rede, e Henrique Meirelles, do MDB, desistirem na noite desta segunda-feira. Além deles, era esperada a participação de enviados de Álvaro Dias, do Podemos, e Geraldo Alckmin, do PSDB.

Um dos organizadores do encontro foi o jurista Miguel Reale Junior, ex-ministro da Justiça e um dos autores do pedido de impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff.

Segundo ele, representantes dos candidatos foram procurados na última semana e se mostraram dispostos a participar de uma conversa. Reale destaca que a tentativa não tem relação direta com o manifesto assinado por Fernando Henrique Cardoso e que também cobrava uma união contra o que classificou de extremos. Ele afirma que, embora tenha publicado o documento, FH não chamou qualquer reunião.

Miguel Reale afirmou que a ideia do encontro era montar não apenas uma candidatura única, mas o que chamou de "governo de concertação", que reunisse todas as forças políticas que iriam se reunir.

- Seria um governo de concertação, com um plano de ação e que todos seriam governo. Chegaríamos a um nome, mas com vários candidatos governando junto em torno de um plano de ação - disse.

De acordo com o jurista, foi realizada nesta segunda-feira uma reunião prévia, feita a pedido da campanha de Marina. O encontro de assessores teria sido uma condição apresentada pela campanha.

Essa reunião, segundo Reale, aconteceu na noite desta segunda-feira, disse Reale, de forma virtual.

Alckmin enviou o coordenador de seu programa de governo, Luiz Felipe D'Ávila. Marina, por sua vez, enviou o pastor Caio Fábio. Os outros dois candidatos enviaram assessores. João Amoêdo (Novo) foi convidado mas recusou o convite antes da reunião virtual. Ciro Gomes não foi convidado.

A organização do encontro foi revelada pelo jornal "Folha de S. Paulo" e confirmada ao GLOBO por Reale. Ao jornal, a campanha de Marina negou ter sido convidada e que nunca pensou em ir à reunião. A campanha da ambientalista afirmou mais cedo de que a informação da desistência de última hora não procedia.

- Foi convidada - disse Reale, que completou: - É uma mentira deslavada. A reunião prévia foi realizada por conta de um pedido da Marina.

Após a divulgação do encontro, a campanha da ex-senadora publicou uma nova nota, em que afirma que "declinou do convite". Segundo ela, a campanha foi procurada por pessoas ligadas ao jurista Miguel Reale Júnior para um encontro com os candidatos Álvaro Dias e João Amoêdo.

"Os contatos entre assessores prosseguiram até o domingo, quando foi informado que os candidatos Geraldo Alckmin e Henrique Meirelles também participariam. Diante do novo contexto, ainda no domingo a assessoria de Marina Silva declinou do convite e sequer participou da reunião de segunda-feira", disse.

Procurado, Miguel Reale reafirmou a presença de um representante de Marina na reunião prévia, o pastor Caio Fábio.

Nos útlimos dias, quando questionados sobre a possibilidade de uma união na reta final da campanha, auxiliares de Marina garantem que a candidata não irá desistir.

Nesta terça-feira, Marina cumpriu apenas uma agenda, em São Paulo, onde participou de uma sabatina no Twitter.

Em agenda nesta terça-feira, Henrique Meirelles afirmou que um assessor seu foi consultado sobre a reunião. Segundo ele, a unificação das candidaturas de centro só ocorreria se Alckmin desistisse e o apoiasse.

- Não precisa de reunião, a solução é muito simples: basta um candidato do PSDB e de vários partidos do Centrão, Geraldo Alckmin, que está estagnado ou caindo nas pesquisas, renuncie a sua candidatura e me apoie porque eu sou o candidato do centro democrático que está crescendo - disse.

Reunião entre candidatos de centro fracassa em São Paulo

Marina Silva (Rede) e Henrique Meirelles (MDB) desistiram na última hora de participar

Rogério Gentile | Folha de S. Paulo

SÃO PAULO - Marina Silva (Rede) e Henrique Meirelles (MDB) desistiram na última hora de participar de uma reunião nesta terça (25) em São Paulo com Geraldo Alckmin (PSDB) e Alvaro Dias (Podemos) a fim de tratar da possibilidade de se unirem em torno de uma candidatura presidencial única de centro na reta final do primeiro turno.

A reunião, que teve entre os articuladores o advogado Miguel Reale Júnior, ex-ministro da Justiça e um dos autores do pedido de impeachment de Dilma Rousseff (PT), ocorreria às 9h no Instituto dos Advogados de São Paulo. Fora confirmada em uma reunião virtual na manhã de segunda com assessores dos candidatos.

No início da noite desta segunda (24), Marina e Meirelles avisaram que não iriam mais participar, após a divulgação da pesquisa Ibope mostrando a estagnação da candidatura de Geraldo Alckmin (PSDB).

A pesquisa mostrou que a disputa está polarizada entre Jair Bolsonaro (PSL), com 28%, e Fernando Haddad (PT), com 22%. "Hoje poderia ter sido um grande dia. A ideia era discutir uma candidatura única de centro e um governo único", afirma Reale.

O advogado passou a última semana costurando o encontro em nome de um grupo que é favorável ao voto útil por meio da união dos candidatos do chamado centro democrático. Formado por cientistas políticos e membros da sociedade civil, o movimento criou em uma rede social o grupo #ExtremosNão, que tem quase 9.000 membros.

"Espero que tenhamos uma nova chance", afirmou Reale à Folha. "A gente quer que esses candidatos tenham a disponibilidade de sentar e conversar. Não queremos indicar um caminho ou formato, mas propor que eles dialoguem em busca de uma solução", disse o cientista político Miguel Nicacio, outro organizador.

Acho difícil alguém desistir de candidatura, afirma Alckmin

Por Fernando Taquari | Valor Econômico

SÃO PAULO - O candidato do PSDB a presidente da República, Geraldo Alckmin, disse na tarde desta terça-feira que nunca esteve em sua agenda qualquer encontro com outros postulantes para discutir a união do centro na disputa pelo Planalto antes do primeiro turno, no dia 7 de outubro. "Acho difícil que alguém abra mão da sua candidatura. São aspirações legítimas. Então, acho difícil", afirmou o tucano após caminhada pelo bairro da Liberdade, na capital paulista.

Um encontro foi articulado pelo advogado Miguel Reale Júnior para reunir Alckmin, Marina Silva (Rede), Alvaro Dias (Podemos), Henrique Meirelles (MDB) e João Amoêdo (Novo). A ideia original, conduzida com discrição, seria colocá-los juntos na manhã de hoje, mas naufragou ante as recusas ou desistências de Amoêdo, Marina e Meirelles.

Alckmin observou que, apesar de não estar ciente da articulação do advogado, já houve diversas iniciativas para unir as candidaturas de centro. "Surgiram várias ideias, de vários partidos, tendo em vista a proximidade das eleições de buscar um denominador comum, mas essas coisas não são fáceis", afirmou.

O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso foi uma das autoridades políticas que defendeu em carta uma união para evitar a vitória de Jair Bolsonaro (PSL) ou Fernando Haddad (PT).

"Quem vai acabar fazendo na prática é o eleitor, que vai acabar fazendo voto útil", concluiu Alckmin. No entorno da candidatura tucana, há percepção de que o encontro foi uma iniciativa isolada de Reale, estimulada pela carta de FHC. Ao Valor, o advogado afirmou que sua iniciativa não tinha relação com a carta do ex-presidente.

A menos de duas semanas da eleição, Alckmin deve concentrar os esforços nesta reta final em São Paulo, onde foi governador.

Intenção de voto nunca foi tão baixa nesta altura da disputa

Número de indecisos ou que pretendem anular é recorde na série do Ibope

Marco Grillo e Miguel Caballero | O Globo

Faltando 11 dias para a eleição, os líderes em intenção de voto nunca estiveram em um patamar tão baixo —a pesquisa Ibope divulgada na noite de segunda-feira mostrou Jair Bolsonaro (PSL) na ponta com 28% e Fernando Haddad (PT) em segundo, com 22%. Ao mesmo tempo, nunca foi tão alta a soma dos eleitores que se declaram indecisos com os que pretendem anular ou votar branco: está em 18%. A comparação é feita com as pesquisas do Ibope divulgadas a duas semanas da eleição nos pleitos de 2002, 2006, 2010 e 2014.

Em geral, os líderes costumavam aparecer na casa dos 40%. Somados, Bolsonaro e Haddad conquistaram até agora a preferência de 50% dos eleitores, bem abaixo do que ocorreu nas vezes anteriores. Em 2002, Lula (41%) e José Serra (18%) eram escolhidos por 59%; em 2006, Lula (47%) e Alckmin (36%) dominavam 83% do eleitorado; em 2010, Dilma Rousseff (50%) e Serra (28%) somavam 78%; e, em 2014, Dilma (38%) e Marina (29%) aglutinavam 67%.

Se as últimas pesquisas vêm consolidando a polarização entre Bolsonaro e Haddad, o fato de seus patamares ainda não serem tão altos dá alguma esperança aos candidatos que estão bem atrás. Ainda há uma quantidade de votos a se buscar entre os que vão anular ou estão indecisos, que hoje somam 18%. Nos pleitos anteriores, a essa altura, esse índice era de 12% (2014); 10% (2010); 9% (2006) e 14% (2002).

TEMPO CURTO
Por diversos fatores, analistas políticos têm destacado que a eleição deste ano tem sido atípica. Depois do impedimento do ex-presidente Lula, que liderava as pesquisas mas foi barrado pela Justiça com base na Lei da Ficha Limpa, o novo primeiro colocado, Bolsonaro, sofreu um inédito atentado em pleno ato de campanha. Tudo isso no ano em que o calendário eleitoral foi reduzido à metade, de 90 para 45 dias.

Líderes: alta rejeição e baixo patamar de votos

Bolsonaro e Haddad têm a maior rejeição desde 1994 e o menor patamar de votos de líderes em pesquisas desde 2002.


A ELEIÇÃO DOS REJEITADOS

Aversão aos líderes é a mais alta desde 94

Marco Grillo, Miguel Caballero e Daniel Biasetto | O Globo

A análise da série histórica das pesquisas de intenção de voto revela uma situação incomum na eleição presidencial deste ano: o recorde das taxas de rejeição dos candidatos mais bem colocados. Uma pesquisa feita pelo GLOBO nos levantamentos do Ibope entre 2002 e 2014 mostra que o patamar do líder, faltando duas semanas para o primeiro turno, costuma oscilar na faixa entre 20% e 30%.

A sondagem divulgada anteontem pelo Ibope mostra que Jair Bolsonaro (PSL), que está em primeiro lugar com 28% das intenções, é rejeitado por 46% dos eleitores. Já o candidato em segundo lugar, em média, é rejeitado por 23% dos eleitores neste período da campanha eleitoral. Fernando Haddad (PT) chegou a 30%, mas teve exposição menor ao eleitorado, já que só foi oficializado candidato há duas semanas.

Nas entrevistas que medem as intenções de voto, os pesquisadores também perguntam em quais candidatos os eleitores não votariam “de jeito nenhum”. Os entrevistados podem responder mais de um nome.

Para a diretora-executiva do Ibope, Márcia Cavallari, a campanha de “desconstrução” que tem sido direcionada a Bolsonaro é um dos fatores que explicam a rejeição recorde do candidato:

Adversários tentam pegar carona em ato anti-Bolsonaro

Com candidato do PSL consolidado nas pesquisas, opositores aderem a movimentos de mulheres contra ele

Adriana Ferraz, Gilberto Amendola, Marianna Holanda e Pedro Venceslau | O Estado de S. Paulo

Com o candidato do PSL a presidente, Jair Bolsonaro, consolidado na liderança da mais recente pesquisa Ibope/Estado/TV Globo, seus principais adversários enxergam no ato apartidário das mulheres contra ele uma última oportunidade de desgastar sua candidatura antes do primeiro turno. Desde ontem, eles tentam pegar carona no movimento #EleNão, liderado por mulheres e contrário ao deputado do PSL. A campanha de Geraldo Alckmin (PSDB) usou a hashtag no programa eleitoral de ontem na TV. Fernando Haddad (PT), Ciro Gomes (PDT), Marina Silva (Rede) e Guilherme Boulos (PSOL) avaliam participar dos atos agendados para o fim de semana. Haverá manifestações em 24 Estados brasileiros e em cidades como Nova York, Londres e Buenos Aires. Criado no início do mês, o grupo “Mulheres unidas contra Bolsonaro” já conta com 3,2 milhões de participantes. Nesse período, ganhou notoriedade e, há 10 dias, foi hackeado e transformado em “Mulheres com Bolsonaro”.

Em mais uma estratégia para tentar desgastar a candidatura de Jair Bolsonaro (PSL), líder isolado das pesquisas de intenção de voto para a Presidência da República, seus principais adversários aderiram nos últimos dias ao movimento #Elenão, liderado por mulheres e contrário ao deputado.

A campanha de Geraldo Alckmin (PSDB) usou a hashtag no seu programa eleitoral veiculado na noite de ontem, para “alertar” as mulheres sobre em quem votar. Marina Silva (Rede), Fernando Haddad (PT), Ciro Gomes (PDT) e Guilherme Boulos (PSOL) avaliam participar de atos agendados para o fim de semana no País.

O eleitorado feminino – que representa 52% do total de eleitores – se tornou uma barreira a Bolsonaro. O índice de rejeição ao capitão da reserva entre as mulheres chegou a 54% na mais recente pesquisa Ibope/Estado/TV Globo – entre os homens este índice é de 37%.

O candidato do PSL é réu de uma ação penal por incitação ao estupro e já fez declarações polêmicas envolvendo mulheres. Disse, por exemplo, que não vê problema no fato de mulheres ganharem salários menores do que os dos homens.

No sábado, estarão presentes no ato programado no Largo da Batata, na capital paulista, Boulos e a candidata a vice na chapa do PT, Manuela d’Ávila (PCdoB). Os demais estudam participar ou enviar representantes.

Criado no início do mês, o grupo “Mulheres unidas contra Bolsonaro”, o principal desse movimento nas redes sociais, soma 3,2 milhões de participantes. De lá para cá, ganhou notoriedade progressiva e chegou a ser hackeado no dia 16 – foi transformado em “Mulheres com Bolsonaro”. No fim de semana estão previstos atos em 24 Estados e em outros dez países.

Congresso: Diap prevê pouca mudança e PT como maior bancada

Por Raphael Di Cunto | Valor Econômico

BRASÍLIA - O Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (Diap) estima que o PT continuará a maior bancada da Câmara dos Deputados em 2019, o PSL de Jair Bolsonaro dobrará de tamanho e o número de siglas no Congresso pode subir de 26 para 32. O estudo divulgado ontem aponta que o Legislativo "não será muito diferente do atual, com pequeno crescimento da direta e da esquerda e encolhimento discreto do centro".

O "prognóstico preliminar" feito com base em análise dos principais candidatos e coligações estaduais diz que o PT elegerá de 55 e 65 deputados federais. O partido fez 68 parlamentares em 2014 e está, hoje, com 61.

Segundo a estimativa, o MDB do presidente Michel Temer disputará com PSDB e PP o posto de segunda maior bancada. Os emedebistas, que elegeram 65 deputados há quatro anos, estão com 51 e devem perder ainda mais espaço: farão entre 44 e 50 parlamentares. Os tucanos, que hoje são 49, elegerão de 42 a 50. O PP tem 50 deputados e deve fazer de 40 a 48.

Outros partidos do "Centrão", como PSD e PRB, devem ampliar suas bancadas (ver tabela). O PR ficará parecido: tem 40 deputados e perspectiva de eleger de 36 a 40. Já o DEM, do presidente da Câmara, Rodrigo Maia (RJ), é um dos poucos partidos que o Diap estima que voltará menor das urnas. A sigla elegeu 21 deputados, mas cresceu com filiações e chegou a 43. A estimativa é que ele- ja entre 28 a 36 parlamentares.

Outros partidos que devem voltar menores, prevê o Diap, são o Podemos, do presidenciável Alvaro Dias, que tem 17 deputados e deve ficar com 10 a 13, e o Patriota, que disputa a Presidência com o deputado Cabo Daciolo (RJ) e deve fazer uma bancada de um a três deputados. O PSL, que abrigou a candidatura de Bolsonaro, tende a crescer de oito deputados para entre 15 e 18.

O estudo indica que a Câmara deve sair das urnas ainda mais fragmentada. Há quatro anos, 28 partidos elegeram representantes. Hoje 26 siglas têm cadeiras no Congresso, número que pode aumentar para 32. Legendas que disputam a eleição nacional pela primeira vez, como o Rede, da presidenciável Marina Silva, e o Novo, de João Amoêdo, agravariam o problema. Ambos têm podem eleger até 10 deputados.

A cláusula de desempenho, contudo, deve reduzir o número de partidos com as quais o futuro presidente da República terá que lidar. Quem não eleger pelo menos 9 deputados ou receber 1,5% dos votos para a Câmara ficará sem direito ao fundo partidário e a propaganda na TV e os eleitos poderão trocar de partido sem perder o mandato. Pelo estudo, 14 legendas podem ficar abaixo dos nove parlamentares.

Para Antônio Queiroz, diretor do Diap, haverá elevado índice de reeleição e muita "circulação no poder": deputados estaduais, senadores, ex-ministros, ex-deputados, suplentes bem votados, ex-prefeitos e ex-secretários se elegerão para a maioria das vagas de deputados que desistiram de concorrer ou que não terão sucesso nesta eleição. "Os poucos efetivamente novos serão policiais linha dura, evangélicos fundamentalistas, celebridades ou em razão da força do dinheiro e da relação de parentesco com oligarquias estaduais", diz.

Reforma Política: As mudanças propostas por Alckmin no sistema

(Com informações da assessoria do candidato/Danilo Queiroz)

O caminho para tirar o Brasil da crise passa por uma profunda reforma no sistema político e Geraldo Alckmin (PSDB), candidato à Presidência da República, sabe bem como implantar as mudanças benéficas para o País. A principal meta de governo do presidenciável tucano é implantar, em regime de urgência, as diversas reformas estruturantes que o Brasil necessita, entre elas a política.

Diminuir a quantidade de siglas políticas – atualmente são 35 partidos no País e apenas 25 deles têm representação no Congresso Nacional -, fim do voto obrigatório nas eleições, aplicação de cláusula de desempenho para obtenção de recursos públicos por parte dos partidos e implantação de voto distrital misto são os principais caminhos apontados pelo tucano para fortalecer a democracia brasileira.

Com as mudanças, o sistema político brasileiro colheria diversos benefícios, como o respeito ao voto da maioria dos eleitores, a manutenção da representatividade das minorias no Congresso Nacional e a aproximação entre eleitores e eleitos. O índice de abstenções e votos brancos e nulos também cairia drasticamente com as medidas propostas por Geraldo Alckmin.

“Não conheço nenhuma reforma estrutural como as que eu pretendo fazer no Brasil. A primeira a ser feita é a política. Ninguém vai votar em partido político, vão votar nas pessoas. Essa é a mãe das reformas”, ressaltou o candidato tucano.

“A reforma política é essencial. Defendo voto distrital misto. O vizinho fiscaliza, sabe onde você vive, acompanha e participa do mandato. Defendo o voto facultativo. Voto é direito, precisa conquistar”, afirmou ((veja aqui o programa de governo do candidato).

O PPS integra a coligação “Para Unir o Brasil” (PSDB, PTB, PP, PR, DEM, SOLIDARIEDADE, PPS, PRB e PSD) que apoia à candidatura do ex-governador de São Paulo.

Principais pontos da Reforma Política proposta por Geraldo Alckmin

Álvaro Moreyra: As sete sombras

Saudade,
— velha torre erguida
nevoentamente
na paisagem de outono da minha alma.
Torre de onde se vê tudo tão longe...
Saudade...
Na distância, a perder-se, a voz de um sino
salma.
A luz no poente
é o pálido eco dessa voz perdida.
A alma da tarde envolve a velha torre.
E na velha torre
erguida
nevoentamente,
ondulam sete sombras silenciosas,
tecendo o sonho da minha vida...
Fico a senti-las. Lembro...
As sete sombras silenciosas...
Uma, quando chegou era novembro,
loura de sol, trazia
as mãos cheias de rosas:
— Deixa-me entrar, sou a Alegria. —
E eu lhe disse: — Bem-vinda sejas, Alegria. —
Outra, tênue, de espuma,
olhos azuis de criança,
lentos gestos de pluma,
surgiu mais tarde a mendigar pousada:
— O meu nome é Esperança.
Venho de muito além. Estou cansada. —
E eu lhe disse: — Descansa.
Bem-vinda sejas, Esperança. —
Veio depois a Felicidade,
tão linda sombra, toda em ouro acesa.
E veio a Dor, veio a Beleza,
veio a Bondade.
Uma noite, bateste. A velha torre
abriu-te as longas portas vagarosas.
E desde então, na velha torre,
tu ficaste, também, serena, inesquecida,
sombra das sombras silenciosas,
tecendo o sonho da minha vida...

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Álvaro Moreyra nasceu no dia 23 de novembro de 1888, em Porto Alegre, Rio Grande do Sul. Foi para o Rio de Janeiro em 1910, onde concluiu o curso de Direito. Depois de uma estadia na Europa encetou a carreira jornalística no Rio, tendo sido redator de publicações como Fon-Fon, Bahia Ilustrada, A Hora, Boa Nova, Ilustração Brasileira, Dom Casmurro, Diretrizes e Para Todos. Da sua obra, destacam-se os títulos: Degenerada, Elegia da bruma, O outro lado da vida e Cocaína. Álvaro Moreyra morreu no Rio de Janeiro no dia 12 de setembro de 1964.