domingo, 31 de março de 2019

Ricardo Noblat: Meninos, eu vi!

- Blog do Noblat / Veja

Resistir é preciso

Sem entender direito o significado da cena, vi uma tropa do Exército cercar o Palácio do Campo das Princesas, no Recife, para depor e prender o governador Miguel Arraes na tarde do dia 31 de março de 1964. Eu tinha apenas 15 anos de idade e era aluno do Colégio Salesiano.

Quatro anos depois, vi 300 soldados da Força Pública de São Paulo prenderem pouco mais de setecentos jovens reunidos em um sítio ermo de Ibiúna durante mais um congresso da proscrita União Nacional dos Estudantes. Eu estava entre eles na condição de aluno do curso de jornalismo da Universidade Católica de Pernambuco. Chovia muito e fazia frio.

Como repórter da revista “Manchete”, vi o líder comunista Gregório Bezerra ser libertado no Recife no dia seis de setembro de 1969 para ser trocado pelo embaixador norte-americano sequestrado no Rio de Janeiro. Gregório e mais 15 presos políticos foram deportados para o México. No mesmo dia fui preso. O embaixador foi solto no dia seguinte.

Vi ser preso em 1981 o líder metalúrgico Luiz Inácio Lula da Silva. Ele foi trancafiado em uma sala do DOPS paulista onde 13 anos antes eu fora interrogado e fichado como subversivo. Escrevi sobre a prisão de Lula já como editor assistente da revista “Veja”. E um ano mais tarde, cobri seu julgamento na Auditoria Militar.

Ainda estava na “Veja” quando o último general-presidente do ciclo de 64, João Figueiredo, acovardou-se diante do terrorismo de direita que tentava minar o processo de abertura política do país. Mas foi como chefe de Redação do “Jornal do Brasil” em Brasília que o vi abandonar o Palácio do Planalto pelas portas dos fundos.

Assustei-me ao saber na noite de 14 de março de 1985 que o primeiro presidente civil eleito pelo Congresso, Tancredo Neves, baixara ao hospital a doze horas de tomar posse. Sete vezes operado em menos de um mês, morreu sem ter governado um único dia. Velei seu corpo na madrugada mais triste da história do Palácio do Planalto. E no dia seguinte o segui para o enterro em São João Del Rey.

No final de fevereiro de 1986, testemunhei o entusiasmo das pessoas convocadas por um político de direita, o presidente José Sarney, para vigiar o congelamento de preços lacrando, se necessário fosse, supermercados, e dando voz de prisão a gerentes. Estava no Rio um ano depois no dia em que Sarney foi ali vaiado e apedrejado porque seu plano econômico fracassara.

Assisti ao espetáculo do crescimento de Fernando Collor nos corações e mentes dos brasileiros. Escrevi algumas dezenas de vezes no “Jornal do Brasil” que ele era uma fraude e um perigo para a incipiente democracia do país. Não vi seu governo agonizar e morrer porque trabalhava em Angola no intervalo de uma das mais cruéis guerras do mundo. Fora demitido do jornal cinco dias depois que Collor se elegeu.

Em 1994, vi uma preciosa fonte de informações que sempre cultivara virar presidente da República e deixar de ser fonte. Nem por isso Fernando Henrique Cardoso se tornou refratário a jornalistas. Meus oito anos como Diretor de Redação do “Correio Braziliense” coincidiram com os oito dele como presidente. Ele perdeu o emprego dois meses depois que perdi o meu.

Da Bahia, como Diretor de Redação do jornal “A Tarde”, acompanhei à distância a estreia na função de presidente da República do ex-líder metalúrgico que um dia eu vira preso no DOPS a fumar, nervoso, um cigarro atrás do outro. Voltei a Brasília depois de 11 meses interessado em não perder um único lance da experiência de um governo eleito pela esquerda governar pela direita. E eu que pensava que já vira tudo!

Ainda veria Lula eleger e reeleger sua sucessora, Dilma Rousseff; Dilma acabar cassada pelo Congresso antes de concluir o segundo mandato; seu vice, Michel Temer, assumir o cargo e escapar de duas denúncias de corrupção para só mais tarde ser preso e solto quatro dias depois; Lula mofar numa cela de Curitiba condenado por corrupção e impedido de se candidatar a presidente pela sexta vez; e por fim, ou por ora, um capitão tosco chegar à presidência da República cercado por militares.

Vi o eclipse da liberdade que durou 21 anos. Vi a democracia ser finalmente restaurada. Faço votos para que ela resista aos anos que estão por vir.

A verdade de cada um

Fatos são fatos
A verdade do deputado Eduardo Bolsonaro ensina que não houve golpe militar em março de 1964. E que a ascensão ao poder do marechal Castelo Branco, o primeiro presidente da ditadura, equivale à eleição 21 anos depois do presidente Tancredo Neves.

A verdade do embaixador Ernesto Araújo, ministro das Relações Exteriores indicado pelo autoproclamado filósofo Olavo de Carvalho, dá conta de que o nazismo na Alemanha de Hitler foi um movimento que nasceu na esquerda e que por ela alimentado.

Não percamos tempo com a idiotice de Araújo. Centenas de livros já foram publicados sobre o nazismo, e eles são unânimes em afirmar que o regime responsável pela dizimação de 6 milhões de judeus nasceu do ventre da direita. Fatos são fatos, goste-se deles ou não.

O que escreveu, ontem, no Twitter o garoto Bolsonaro é Fake News. Salvo publicações sob o selo das Forças Armadas, não há um único livro digno de respeito que defenda a ideia de que o golpe de 64 não foi golpe, mas uma revolução democrática.

Quando compara as eleições pelo Congresso de Castelo Branco e de Tancredo Neves, Eduardo o faz para dizer que ambos chegaram ao poder pelo mesmo meio legítimo, o consentimento dos parlamentares. E nas mesmas condições. Mentira!

O Congresso que elegeu Castelo estava sob a ameaça de sofrer uma intervenção militar. Àquela altura, adversários do novo regime haviam sido presos e até mortos. Foi um Congresso emasculado que elegeu Castelo na esperança de livrar-se em breve da tutela militar.

Em janeiro de 1985, com a ditadura fazendo água por todos os lados e comandada por um general que sairia do Palácio do Planalto pelas portas dos fundos, foi um Congresso rebelado que elegeu Tancredo para restaurar a democracia no país.

A tarefa coube a José Sarney, o vice de Tancredo, porque o presidente eleito não tomou posse. Operado sete vezes, morreu. Foi vítima de sua própria falta de cuidado com a saúde e de sucessivos erros médicos. Seu corpo subiu dentro do caixão a rampa do Palácio do Planalto.

Eduardo não sabe de nada, só o que aprendeu com seu pai, com o guru Olavo e nas rodas da direita. Por ignorância, o mais provável é que de fato acredite no que escreveu para delírio de devotos do capitão igualmente ignorantes e pouco afeitos ao estudo.

Parte dos devotos ainda imagina que a Terra é plana e que o Sol só nasce para os eleitos por Deus.

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