quinta-feira, 4 de julho de 2019

*Fernando Schüler: Quem detém o monopólio da virtude?

- Folha de S. Paulo

Sociedades plurais supõem um arranjo no qual diferentes verdades morais possam coexistir: a democracia liberal

Dias atrás, Ciro Gomes confirmou seu ataque ao vereador Fernando Holiday, com um adendo: capitãozinho do mato “e nazista”. Ok, o mundo anda forrado de palavrões. Imagino que a palavra nazista apareça milhares de vezes, todos os dias, na selva digital. Mas este caso é diferente. Ele toca em questões sensíveis. O tema racial, por óbvio, e uma pergunta hoje surpreendentemente incômoda: até onde podemos divergir, com alguma civilidade?

Não julgo as escolhas políticas de Holiday nem as de Ciro. Meu ponto é perguntar o que autoriza, em nossa sociedade, um líder poderoso, estudado, não importando a cor da sua pele ou sua condição social, a chamar um jovem vereador negro de São Paulo, com altivez e ares de virtude, de capitãozinho do mato.

Não foi a primeira vez que isso aconteceu com o vereador. Em uma refrega, tempos atrás, na Câmara de São Paulo, ele foi chamado de “negro falso”. O grito ficou no ar, anônimo. Diria que pairava na cabeça de muita gente boa. Agora ganhou um porta-voz de carne e osso. Ele fala em nome de muita gente e pegou o vereadorzinho de jeito: se comporta, rapaz, se comporta como um negro de verdade!

O que impressiona nisso tudo não é a agressão reiterada, mas a aceitação social. Há uma enorme quantidade de pessoas, no Brasil, disposta a relativizar uma injúria racial em nome da ideologia. É o mesmo em questões de gênero. Temos nojo desses homens brancos que debocham das mulheres, mas se for um político que a gente gosta, que anda do lado certo, a gente faz de conta que era só uma brincadeira.

Este é o Brasil. Estranho país em que você pode desferir uma ofensa racial em nome de uma “boa causa”. Dizer que ela foi um acerto, não um erro, e posar de virtuoso. Tudo desde que seu alvo seja alguém desprezível, pelo pior de todos os motivos: andar do lado errado na política.

Vem daí muito da lógica da difamação que virou praga na democracia atual. Não faz muito vimos nosso ministro da Educação comparar Lula e Dilma a cocaína, e um pouco antes Lula sugerir que Bolsonaro pura e simplesmente inventou aquela história da facada. É tudo brincadeira, não é mesmo?

Não há nada propriamente novo nisso tudo. A novidade é a escala em que tudo acontece. A política pautada a partir de uma estrutura de crença, moralidade de última instância, feita do falso e do verdadeiro e de amigos e inimigos da verdade. Do sujeito que defende não apenas as suas ideias (que eventualmente podem estar erradas), mas algo muito maior.

Mesmo a democracia, com sua parafernália de regras do jogo e direitos iguais, vira um negócio meio ingênuo. Para que tantos direitos para alguém que representa simplesmente o oposto da virtude? É preciso denunciar, e é moralmente aceitável agredir, se der na telha. O que não pode é legitimar, tratar essa gente como se fosse normal como nós, que andamos no lado certo.

Outro dia fui criticado por fazer análise política de um governo que só merecia ser agredido. No mesmo dia, fui criticado por tratar a oposição, no Congresso, como oposição política, quando não passava de um bando de criminosos. Em ambos os casos, algum dono da verdade resmungava: para que tantos cuidados, tanta conversa sobre o “outro”, sobre diálogo, essas coisas. Diálogo em nome do quê, mesmo?

Com um negro que é contra as cotas raciais? Com essa gente que quer destruir a família ou desmatar inteirinha a Amazônia?

De minha parte, vou na contramão disso tudo. Sociedades plurais supõem um arranjo no qual diferentes verdades morais possam coexistir. Esse arranjo é precisamente a democracia liberal. Também não acho que um certo tipo de identidade deva determinar a forma como as pessoas pensam. Identidades importam e acima de tudo merecem respeito, mas não aprisionam a liberdade humana. É isso que nos ensinou a grande tradição iluminista.

Por fim, há o problema da falibilidade humana. Todo agressor serial me parece, afinal das contas, um sujeito que se considera infalível. E não é, podem ter certeza. É apenas mais alguém jogando pedras no caminho deste longo aprendizado humano que é a democracia. Um sistema em que, respeitadas as regras do jogo, ninguém detém o monopólio da virtude.

*Fernando Schüler, professor do Insper e curador do projeto Fronteiras do Pensamento. Foi diretor da Fundação Iberê Camargo.

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