sexta-feira, 31 de janeiro de 2020

Monica de Bolle* - Coronavírus

- Revista Época

Penso no que uma epidemia é capaz de fazer com o discurso nacionalista e identitário mundo afora

Confesso que sempre tive fascínio por epidemias — a não linearidade dos processos de transmissão, o que revelam sobre a interconectividade entre as pessoas, o que ilustram sobre nossa ignorância coletiva. Lembro de um estudo publicado em 2009 em que dois físicos tentaram modelar a progressão das epidemias a partir de um website americano que rastreava notas de US$ 1 (para os interessados, o site chama-se WheresGeorge.com). As notas eram carimbadas e quem as recebia era convidado a visitar o site para registrar o número da cédula. A partir das informações coletadas, era possível saber exatamente como determinada cédula havia circulado, quanto viajara desde seu primeiro registro. Como as notas de US$ 1 circulavam por meio do contato entre pessoas, usar seu rastreamento para formular um modelo para a transmissão de doenças contagiosas me pareceu genial. Tão genial que, logo após a publicação do paper científico, escrevi um artigo sobre o tema para o extinto O Globo a Mais. Hoje, o paper original integra a lista de leituras de meu curso sobre crises financeiras na Escola de Estudos Internacionais Avançados (Sais, na sigla em inglês) da Universidade Johns Hopkins.

Mas, voltando ao fascínio por epidemias, parece realmente incrível que com todo o progresso da medicina e da tecnologia possa aparecer um novo vírus capaz de gerar as mais severas consequências, ainda que venha a se revelar futuramente menos grave do que o vírus da gripe. A consequência perversa mais presente no momento — afora os temores de cada um — é a intensidade do risco para a economia mundial. Ainda que a China consiga conter a propagação global em larga escala do coronavírus, as quarentenas, a paralisação do transporte doméstico e internacional, além de outros efeitos e medidas, deverão afetar a economia do país. O problema é que hoje a China é três vezes mais importante para o PIB mundial do que em 2002 e 2003, o pico da epidemia causada pelo vírus da Sars. Se em 2002 o PIB chinês representava cerca de 5% do PIB global em termos nominais, hoje ele responde por uns 15%. Portanto, o abalo de uma paralisação chinesa seria potencialmente enorme, algo que o Brasil, com sua recuperação mambembe, não pode se dar ao luxo de ignorar.

Para além dessa perspectiva nada auspiciosa, há outras consequências. Após as primeiras notícias sobre o novo vírus, não foram poucos os comentários que li demonstrando alívio por a doença ter surgido em um país autoritário com arsenal tecnológico de monitoramento da população sem equivalente no mundo. E assim uma epidemia justifica e legitima de súbito o Estado totalitário em seu desdobramento mais moderno. Eis uma reflexão potencialmente mais perturbadora do que tudo que não sabemos sobre o coronavírus, sobretudo se a China for capaz de contê-lo. Em tempos de flertes antidemocráticos de matizes diversos, a constatação aflige mais do que o agente infeccioso que parece um sol desenhado por uma criança.

Mas não é só isso. Além de estarmos testemunhando a ascensão de regimes e partidos com inclinações antidemocráticas mundo afora, vivemos com a crescente xenofobia e o pânico de tudo aquilo que nos parece alheio. Não por acaso já começam a aparecer as primeiras notícias de discriminação e preconceito contra asiáticos no Ocidente. Fico imaginando o que pode acontecer aqui nos Estados Unidos de Trump, onde a animosidade em relação à China é explícita, onde há centenas de milhões de imigrantes e estudantes chineses, onde o governo já namorou — e implantou modestamente — a ideia de reduzir drasticamente o número de vistos para esses imigrantes e estudantes. A postura hostil em relação à imigração não está, evidentemente, circunscrita aos EUA.

Sabemos que o coronavírus causa sintomas respiratórios de grande variabilidade, de leves a extremamente severos. Também sabemos que há muita coisa que não sabemos sobre essa epidemia — do grau de contágio à real letalidade do agente infeccioso. Contudo, como ocorre com toda epidemia, para além da saúde pública há as repercussões econômicas, políticas, sociais. Em 2002, a economia mundial estava bem, países pareciam solidamente democráticos e a aceitação de outras culturas e identidades era, digamos, a norma. Hoje, nada disso é verdade. Nada.

*Monica de Bolle é Pesquisadora Sênior do Peterson Institute for International Economics e professora da Universidade Johns Hopkins

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