sábado, 8 de fevereiro de 2020

Distanciado do governo, Doria pede ‘tratamento republicano’

Rompido com Bolsonaro, tucano foi desautorizado por ministro sobre obra em SP

Silvia Amorim | O Globo

As palavras do presidente Jair Bolsonaro, que disse anteontem não querer ouvir falar no nome de João Doria (PSDB), deixaram explícito o rompimento político do Planalto com o governador de São Paulo. Não é somente com Bolsonaro, porém, que as relações do paulista esfriaram no governo federal. O tucano andou levando rasteiras recentemente até de ministros com quem ele mantinha proximidade. A última delas foi registrada na semana passada. O ministro da Infraestrutura, Tarcísio Freitas, desautorizou Doria em público sobre um projeto para a Baixada Santista, litoral paulista, que o tucano promete desde que tomou posse — a construção de uma ponte para interligar os municípios de Santos e Guarujá.

Em visita à região, o ministro disse no último dia 29 que o governo federal não concorda com o projeto, porque ele prejudicaria a futura expansão do Porto de Santos. O minstro defende a construção de um túnel no local. A manifestação de Tarcísio Freitas aconteceu dois dias depois de Doria ter visitado a região e reafirmado a promessa de construção da ponte. Em 2019, o governador levou a proposta ao governo Bolsonaro. A estrutura passaria pela região sob gestão do Porto de Santos e precisaria de autorização federal, o que, segundo o ministro, não virá. Uma solução definitiva para a circulação de veículos e moradores é uma reivindicação antiga dos dois municípios. A travessia é feita hoje por balsa e a espera pelo transporte pode chegar a quatro horas.

Outra decisão do governo Bolsonaro que inviabilizou uma promessa de Doria aconteceu no fim do ano passado. O Banco Nacional de Desenvolvimento Social (BNDES) não autorizou a liberação de um empréstimo para a montadora Caoa comprar a fábrica da Ford em São Bernardo do Campo (SP). Doria havia anunciado que tinha conseguido impedir o fechamento da fábrica, garantindo milhares de empregos na região, com a sua compra pelo grupo Caoa. O assunto foi tratado por meses com o ministro da Economia, Paulo Guedes. O BNDES, no entanto, afirma que fez uma reunião com a Caoa, como qualquer outro cliente, mas não foi feito pedido oficial: “Não houve formalização de nenhuma proposta de financiamento e a empresa não possui operação com o banco”, informa a nota do banco.

OBRAS DO METRÔ
Ontem, Doria afirmou esperar do presidente Jair Bolsonaro um tratamento “republicano” em relação ao governo paulista, durante entrevista coletiva para anunciar que, daqui 45 dias, será assinado um novo contrato para retomar a construção da Linha 6 do metrô, parada desde 2016. O governo paulista conta com um empréstimo junto ao BNDES de R$ 1,7 bilhão para a obra.

— Temos a convicção de que o presidente Jair Bolsonaro agirá de forma republicana. Não pode agir de forma eleitoral, partidária ou ideológica. Isso não se espera de um presidente da República. Ele deve governar para todos —disse Doria. O governador negou que o rompimento com Bolsonaro fez piorar sua relação com ministros importantes, como Tarcísio Freitas e Guedes. 

—Temos diversas iniciativas conjuntas com o governo federal nas áreas ferroviária e rodoviária, sem nenhuma interrupção, e esperemos que continue assim — disse Doria, acrescentando que, até o fim de fevereiro, vai se reunir com o ministro da Infraestrutura para tratar de obras no estado. Entre aliados de Doria os dois reveses sofridos pelo governo paulista são apontados como resultado do rompimento político com Bolsonaro. Do lado bolsonarista, a leitura é que Doria se antecipa nos anúncios sem ter garantias de que seus projetos serão aprovados.

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