sexta-feira, 24 de julho de 2020

José de Souza Martins* - Florestan Fernandes e o Brasil

- Valor Econômico / Eu &Fim de Semana

Obra do maior nome das ciências sociais do país trata da complicada trama de contradições e bloqueios de uma sociedade marcada por possibilidades não realizadas

O dia 22 de julho, centenário do nascimento de Florestan Fernandes, o maior nome de nossas ciências sociais, é ocasião de justas homenagens a um dos grandes e inovadores intérpretes do Brasil. Sua obra trata da nossa rica diversidade social e cultural, da complicada trama de suas contradições e bloqueios, os de uma sociedade marcada por possibilidades históricas e sociais não realizadas.

Núcleo de uma sociologia crítica, não conformista, a de busca dos enigmas da realidade, derivada do confronto investigativo e científico entre o que somos e o que se oculta nas profundezas de nossa história social inconclusa. A de um país que carece mais do que recebe daqueles que dele se aproveitam.

Filho de uma lavadeira pobre, órfão de pai, começou a trabalhar aos 7 anos de idade. Chegou à idade adulta com insuficiente escolaridade. Trabalhava no Bar Bidu, na rua Líbero Badaró, em São Paulo. Um bar frequentado por intelectuais, gente da universidade, que notaram seu interesse por livro, sempre lendo um no intervalo de atendimento dos clientes.

Estimularam-no a fazer um curso supletivo e os exames para obtenção do diploma do curso secundário e médio. Aprovado, fez o vestibular de ciências sociais e ingressou na USP. Florestan não foi apenas expressão do milagre da superação que decorre do esforço pessoal, mas também um dos melhores frutos da universidade pública.

A obra sociológica de Florestan cobre um extenso campo da realidade social brasileira e constitui um dos mais densos retratos do Brasil, a decisiva contribuição para formação de uma autoconsciência científica de nossa sociedade, como ele definia o conhecimento sociológico, nesse caso inspirado em Hans Freyer (1887-1969), sociólogo alemão.

Uma consciência objetiva, substitutiva do senso comum reles e vulgar que caracteriza nossos despistamentos e equívocos, nosso perdimento em face do que podemos.

Até então, o conhecimento que se tinha do país inspirava-se em narrativas no geral impressionistas e autoindulgentes, no estilo do clássico do gênero, o livro do Conde de Afonso Celso (1860-1938) “Porque Me Ufano de Meu País”. Uma digressão que expressa o autorretrato de um país ainda inconstituído e fragmentado em categorias sociais estamentais que não reconhecem umas às outras enquanto partes de um mesmo todo.

Ou, quando reconhecem essa diversidade inconvergente, fantasiam-na por meio de categorias anticientíficas, como a de democracia racial, para dar um tom falsamente afetivo aos relacionamentos das minorias com a grande massa das vítimas físicas da escravidão ou de suas vítimas culturais, herdeiros de suas misérias e sequelas.

Esses desafios fizeram de Florestan um sociólogo de grande erudição teórica. A realidade social múltipla do Brasil exige dos cientistas sociais o domínio das várias teorias e dos diferentes métodos de explicação apropriados à pesquisa sobre ela. Ele foi um dos raros cientistas que compreenderam essa condição e a assumiram com indiscutível competência.

Teve o reconhecimento e o respeito de teóricos como Robert K. Merton (1910- 2003), Talcott Parsons (1902-1979) e Alfred Métraux (1902-1963). Quando a sociologia ainda estava nos inícios em Portugal, na Espanha, na Itália e mesmo na Inglaterra, Florestan já era autor de monumentos da teoria científica, como “Fundamentos Empíricos da Explicação Sociológica” e “A Função Social da Guerra na Sociedade Tupinambá”, um estudo sobre a função estruturante do conflito social e da antropofagia ritual em algumas sociedades tribais.

Ele foi dos mais destacados membros da brilhante primeira geração de brasileiros que, na USP, sucedeu os europeus trazidos a São Paulo pelo governo de Armando de Sales Oliveira (1887-1945), orientado por Júlio de Mesquita Filho (1892-1969), fundador da USP.

Tinha ela a missão de formar cientistas e pensadores nativos que dessem vida e continuidade à universidade, ativa e criativa na transformação do Brasil num país democrático, desenvolvido e socialmente justo. A universidade deveria ser pública, laica e gratuita. Uma resposta dos derrotados da Revolução Constitucionalista de 1932 aos defensores de um país autoritário e atrasado.

O Brasil de Florestan não é apenas o país objeto de conhecimento sociológico. É o Brasil da sociologia aplicada e transformadora, grande tema de um de seus livros, de que a educação constitui uma ferramenta decisiva para educar as novas gerações, como gerações de superação de todos os nossos atrasos.

A sociologia de Florestan é uma sociologia do que ele denominou uma era de revolução social, a revolução que identificasse e superasse nossos fatores de atraso social e econômico, nossos bloqueios ao desenvolvimento, nossa cumplicidade coletiva com o que nos prende àquilo que já não queremos ser.

*José de Souza Martins é sociólogo. Professor Emérito da Faculdade de Filosofia da USP. Pesquisador Emérito do CNPq. Membro da Academia Paulista de Letras. Entre outros livros, autor de "A Política do Brasil Lúmpen e Místico" (Contexto).

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