domingo, 11 de outubro de 2020

Entrevista | Elly Schlein, Vice-Governadora da Emília Romanha (Itália): Extrema direita em xeque

‘A esquerda não quis propor um modelo corretivo para as desigualdades. É o que falta.’

 Dirigente da região da Emília Romanha, Elly Schlein, de 35 anos, defende que progressistas precisam formar rede internacional, como faz a direita populista: 'Não podemos deixar o internacionalismo aos nacionalistas'

Lucas Ferraz, especial para O Globo (10/10/2020)

ROMA — Elly Schlein, 35 anos e sem partido por opção, é vista como uma esperança de renovação para a centro-esquerda italiana. De pai americano e mãe italiana, nascida em Lugano, na Suíça, Elly estudou direito em Bolonha e foi eleita para o Parlamento Europeu pelo Partido Democrático em 2014, rompendo com a sigla no ano seguinte. Antes, foi voluntária nos EUA nas duas campanhas presidenciais de Barack Obama. Bissexual declarada, após a experiência como parlamentar em Bruxelas enveredou na política nacional. Mais votada nominalmente na eleição para a Assembleia da Emília Romanha, foi depois convidada para ser a vice-governadora na chapa do mesmo PD com o qual rompera. Ela se destacou na campanha ao registrar um encontro — por acaso, disse – com Matteo Salvini e questioná-lo sobre a omissão da Liga nas votações no Parlamento Europeu sobre a imigração.

O vídeo, que viralizou, mostra um Salvini que enrola e escapa sem respondê-la. Schlein falou com o GLOBO num bar da Praça Venezia, no centro de Roma. Ela — que disse ter ficado admirada com a história de Marielle Franco, conhecendo sua trajetória após o assassinato — estava na cidade para alguns compromissos, entre eles uma manifestação pelos direitos dos imigrantes.

A senhora tem dito que a esquerda precisa de um choque. Que tipo de choque?

A esquerda perdeu terreno porque não foi capaz de propor um modelo que governasse as grandes transformações que estamos vivendo, a desigualdade econômica e social, as mudanças demográficas, territoriais e de gênero. A esquerda não repensou o Estado de bem-estar num sentido universal. De outra parte, não fomos capazes de propor uma alternativa que promovesse uma renovação da economia observando a questão ecológica e as novas tecnologias. A transição ecológica é extremamente complexa numa sociedade que vem de anos de industrialização, e a esquerda não foi capaz de exprimir essa alternativa. Precisa de um choque cultural, geracional, de método. Vimos uma política fechada nos palácios, autocentrada, distante das pessoas. Um governo sem visão de integração tecnológica deixa todo o processo com os grandes grupos de tecnologia, que acumulam riqueza, governam a nossa vida, roubam os nossos dados e mantêm o conhecimento em poucas mãos. Se amanhã desaparecerem da Itália todos os imigrantes, a minha geração não terá aposentadoria. Mas a política não tem coragem de dizer isso por medo da reação da direita. Já somos um país multicultural. A resposta ao tema da imigração levantada pela direita não pode ser o silêncio, como frequentemente acontece. Uma sociedade mais segura é também mais inclusiva, a história mostra isso. A política precisa encontrar a coragem para chamar as coisas pelo nome. Um dos problemas é exatamente esse.

A centro-esquerda ganhou um respiro com as últimas eleições e terá uma participação importante no uso do fundo europeu para a pandemia. Não é uma boa oportunidade de recomposição?

O resultado foi bom, mas a centro-esquerda não cresceu. Agora, sem a perspectiva de voto, é tempo de mudar e não ceder ao resultado. A esquerda precisa se reconectar com as pessoas e com os grandes temas destes tempos. E deixar de ser arrogante. Governar é mudar, a sociedade muda todo o tempo. A aplicação do fundo europeu deve observar a transição ecológica, digital e a inclusão social. Não esquecer as regiões distantes dos grandes centros, o interior. É ali que vence a direita, onde há um sentimento de abandono. No mundo da esquerda e dos ecologistas falta uma convergência de visão e sobram personalismos. Temas como desigualdade e clima estão profundamente ligados. São importantes para a Itália e para o Brasil, onde é incrível que haja um líder que deixa a Amazônia queimar e reivindica o direito de escolher sua política sem levar em consideração a conexão da floresta com o resto do mundo. A globalização não só aumentou a desigualdade, mas sua crise não produz uma reação coletiva. Estamos sós. Há uma crise da democracia, das instituições e dos corpos intermediários, como os sindicatos. E a resposta dada pela direita encontra eco. Essa retórica, organizada a nível planetário, conta que a culpa é sempre de quem está abaixo de você. Nunca se fala sobre os verdadeiros responsáveis pela desigualdade, os grandes grupos e multinacionais. Devemos encontrar a capacidade, dentro do campo progressista, ecologista e feminista, de colocar a nossa batalha no mesmo nível, numa rede internacional, ou seremos sempre menores. Aprendi no Parlamento Europeu que dividimos as mesmas preocupações em nível global.

No vídeo com Salvini, a senhora parece ter usado a mesma tática da direita populista ao questioná-lo...

O vídeo não era previsto, foi uma coincidência. Estávamos no mesmo município e nos encontramos. É uma pergunta que comecei a fazer no Parlamento Europeu para mostrar a hipocrisia dessa frente nacionalista, que é cheia de contradições. Os nacionalistas utilizam a retórica de ódio, divisão e intolerância em diversos países, há um intercâmbio. Escolhem um inimigo, ora imigrante, ora mulheres emancipadas, ora LGBTs. Só podemos vencer pela verdade e foi o que fiz ao colocar Salvini diante de sua hipocrisia. Eles falam todo dia de imigração, escrevem uma lei criminosa que forçam os imigrantes à irregularidade, mas se ausentam das 22 reuniões que aconteceram em Bruxelas para discutir o tema mais importante para o país, a reforma do Pacto de Dublin, que obriga o solicitante de asilo a receber o título no primeiro país em que desembarca. Isso, claro, põe sob pressão os países mediterrâneos. Quando o Parlamento Europeu discutia um sistema de divisão entre os países-membros, Salvini e a Liga não estavam presentes porque não queriam prejudicar aliados como o húngaro Orbán. Não podemos deixar o internacionalismo aos nacionalistas. Eles se reforçam entre eles, Salvini, Orbán, Bolsonaro, Trump e Le Pen. Quando Portugal tem um governo progressista que reconstrói a economia, isso deveria reforçar a esquerda europeia da mesma forma que o muro de Orbán ajuda Salvini. Mas não acontece. Culturalmente, estamos fechados nas dinâmicas nacionais.

Acha que a pandemia mudará essa realidade?

Vimos que diante da crise e do medo, quem soube governar obteve êxito e saiu bem avaliado, à direita e à esquerda. Aconteceu com Giuseppe Conte, que teve que tomar decisões sem precedentes na história. Sobre a política, é um fato global que a direita populista e nacionalista fracassou ao lidar com a pandemia. Num momento em que as pessoas precisam de confiança, o método de Trump, Bolsonaro e Salvini não se mostrou confiável. Eles falam que devemos nos fechar para resolver os problemas, e um vírus mostrou o quanto é frágil a visão nacionalista. Só podemos resolver através da solidariedade, da pesquisa e da ciência. Devemos esperar os próximos capítulos, a eleição americana vai mostrar se há uma tendência. A direita se fortaleceu e devemos contestá-la, mas não podemos deixar de reconhecer que ela exprime uma visão clara de sociedade. Ela não resolve o problema cotidiano, mas os progressistas e ecologistas também não exprimem uma visão clara. A esquerda não quis propor um modelo corretivo para as desigualdades. É o que falta.

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