sábado, 24 de abril de 2021

Paulo Fábio Dantas Neto* - Lula não é para amadores

“O Brasil não é para principiantes” é uma frase famosa de Tom Jobim que meu amigo Antônio Riserio considera banal e, com a mordacidade que lhe é própria, ironiza perguntando se um país para principiantes seria, por exemplo, a Coréia do Norte. Embora principiantes sejam sempre amadores, a recíproca nem sempre é verdadeira, porque há os Peter Pans renitentes, mesmo se autoelogiados como “eternos aprendizes”. E Lula também não é exatamente um sinônimo de Brasil, embora sempre procure ser, por força do seu ofício. Assim, ao trocar, no título desta coluna, duas palavras da frase do nosso grande maestro por duas de sentido apenas conexo, espero escapar da mira mordaz de Riserio.

A ideia veio quando ontem, dia seguinte a mais um êxito de Lula, até aqui o mais decisivo, na busca de reconquistar sua elegibilidade junto ao STF, recebi de Gustavo Falcon, outro amigo baiano, um vídeo de uma fala do líder petista já com o carimbo #Lula 2022. A conversa avançou e comentamos que, no mesmo dia em que o STF lhe dava a senha tão almejada, viera a público a notícia da contratação do publicitário João Santana para comandar o marketing político de Ciro Gomes. Já achava que a coincidência merecia um azeite. O tempero final veio quando mostrei o vídeo de Lula a Guta, minha mulher, que teve, em vários momentos da vida, contatos com a praia profissional que João Santana frequenta. A conexão imediata que ela fez entre o vídeo e um jingle (“O retrato do velho”) da campanha de Getúlio Vargas de 1950 me fez perguntar: o PDT vai cobrar patente?

O vídeo realmente nos remete à analogia com a volta de Vargas pelas urnas. “Seu sorriso nos anima”, dizia o jingle, ao sugerir que todo mundo pusesse o “retrato do velho” em sua parede. Nesse vídeo específico de Lula não há sorriso algum, muito pelo contrário, mas a plateia (a favor e contra) não perde por esperar, pois, como se sabe, a versatilidade do ator não pode ser subestimada. Parece tratar-se, como supõe Gustavo, de uma peça destinada a incendiar a militância, através da infalível alusão ao “golpe” de 2016, feita com a cara de poucos amigos apropriada a um líder indignado e decidido a retomar, para o PT, o leme que lhe foi arrebatado. Essa sugestão de revanche é o segundo aspecto mais notável da fala. O primeiro é o que permite a analogia com Vargas: a evocação de uma era de prosperidade e justiça social temporariamente interrompida, a ser retomada pela vontade dos eleitores, especialmente aqueles afetados (e aí está o momento de maior atualidade da fala) pelo flagelo da fome. Essa não é algo natural, nem desígnio de um destino, mas escolha de algozes do povo. Escolha que - faz questão de frisar – foi feita antes do capitão.

Como entender o mesmo Lula aparecer, em março, no dia seguinte à sua primeira vitória no STF, empático, sorridente, pacificado e acenando ao centro e, agora, fazer circular, no dia seguinte a vitória ainda maior, um vídeo que retoma o nós contra eles? Vale entender a ambivalência como cálculo, para esperançar o país aqui, incendiar a militância acolá e ir levando assim a coisa, com o ânimo anfíbio que faz da sua biografia política uma sanfona.

Mas vi no vídeo mais que momento hard de uma ambivalência trivial. É relevante a fuga do mero confronto direto e fulanizado com Bolsonaro, ou mesmo com o governo atual e a ampliação consciente do leque de potenciais adversários para incluir “golpistas”. Como sabemos que o impeachment teve apoio amplo, até em áreas da esquerda, esse tipo de discurso, pelo seu potencial de isolamento, não parece racional, se ele quer ser o centro, ou, ao menos, disputá-lo. Podemos estar diante de uma racionalidade provisória, de quem pressente uma hipótese de má notícia, não a ignora e tenta se preparar para novo cenário.

O script eleitoral de Lula pode ter que mudar por virtual eclipse precoce de um Bolsonaro que derrete em público, sendo imprevisível a reação do capitão (consequentemente, seu destino) em caso de o derretimento não parar. Lula deve se prevenir, pois esse fator, cada dia mais plausível, pode fazer o país precisar de um Biden e não de um Vargas e assim ter efeito oposto ao das vitórias que Lula colheu no STF. Talvez ainda não haja nova estratégia eleitoral para, eventualmente, substituir a do combativo salvador do país do perigo (sério e real) da reeleição da besta fascista, mas o faro político já registra o perigo. Por aí ganha sentido tirar Bolsonaro do foco principal.  Prepara-se para enfrentar a centro-direita (relevante no eleitorado, como visto não só em 2016 e 2018, mas também em 2020) que não assistiria inerte ao avanço do petista e se reagruparia de outro modo. Salvo engano, Lula sabe disso e se prepara para não ficar pendurado no pincel da unidade se a direita mais hesitante se livrar de Bolsonaro e procurar acordo com o centro liberal-democrático.

A ida ao centro permaneceria sendo uma ideia e uma possibilidade para Lula, pois experiência política e talento mimético não lhe faltam para isso, mas num cenário sem perigo de reeleição de Bolsonaro essa ida não será o mesmo passeio. Daí fazer sentido, enquanto pensa em nova estratégia, reforçar sua retaguarda à esquerda com gritos de guerra em vez de acenos de paz, indignação em vez de sorrisos. Na falta de outro expediente, estão à mão a narrativa do golpe, o tema da fome e a evocação de um retorno análogo ao de Vargas. São discursos que servem para cenários com ou sem Bolsonaro.

Mas tem uma coisa. Vai ser difícil ocupar o centro sem pauta propositiva além da promessa do retorno ao paraíso. Ao grande público a sanfona precisa se abrir para ensaiar algo análogo a uma segunda carta aos brasileiros, na qual diga e pela qual prove que apesar do “golpe” não guarda rancor. Improbabilidade que não deve, porém, consolar seus rivais que se situam de Ciro à direita, porque por lá as coisas não parecem bem arrumadas.

Após a veiculação de um manifesto conjunto no final de março, o mês de abril transcorreu em compasso de espera no chamado “polo democrático” e, na semana passada, ouviu-se vozes na linha de que o caminho “não é bem por aí”.  Contida, mas nem por isso irrelevante, foi a fala do presidente do PSDB, Bruno Araújo, que verbalizou uma novidade em relação à lógica atribuída ao manifesto conjunto. Disse que candidatura única desse polo é "ingenuidade". De repente a tese de que devem ser duas candidaturas surge como natural e "racional". Para bom entendedor significa que o partido admira as disposições unitárias de seus possíveis candidatos, mas dificilmente deixará de ter um. Para tanto terá prévias. No frigir dos ovos é a mesma posição de Ciro Gomes, esse, porém, falando por si e levando, até aqui, o partido de roldão. Sem a polidez tucana, deixou claro - em agressiva entrevista a O Globo, na qual também distribuiu deselegâncias contra Lula e o PT - seu não embarque num processo de discussão coletiva e “orgânica”, no âmbito do polo. Para ele o manifesto foi evento solteiro, assinou-o em atenção ao empenho pessoal de Luiz Mandetta e à conjuntura na qual se ensaiava uma crise militar às vésperas de um 31 de março.

Duas reflexões se impõem, a meu ver. Primeiro está confirmado, pela enésima vez, que articulações interpartidárias, por bem intencionadas que sejam, não geram candidatura. Esses fóruns são importantes para bater martelo quanto a discursos comuns e para decidir pela continuidade, ou não, de projetos de candidaturas que se viabilizem antes, no campo aberto do diálogo midiático. E é disso que Ciro Gomes (mas não só ele) está tratando. A segunda reflexão é que PDT e PSDB tendem a ter candidaturas irremovíveis (ainda que a tucana ainda não exista). O recado aos demais sobre candidaturas é evidente: entre essas duas escolham a minha, ou criem mais uma. Um problema que parece não estar sendo levado em conta é que entre os “demais” está, de certo modo, o DEM. Um signatário do manifesto – e seu principal articulador - é quadro, ainda que não dirigente, desse partido.

Como um campo político com a dinâmica centrífuga do “polo” pode se colocar diante dos movimentos de Lula? É previsível que seja de modo reativo e com retardo e é o que se tem visto. O DEM, no entanto, tem outras condições objetivas pois sua assumida independência em relação ao governo e ao próprio “polo” centrista permite-lhe influir em movimentos de setores governistas quanto a conservarem ou não o apoio a Bolsonaro. Essa posição objetiva permite-lhe, no caso do candidato governista e do centrão ser mesmo Bolsonaro, amealhar dissidentes para apoiar uma candidatura nascida no centro, que lhe interesse (Huck?), ou que até pode ser sua (Mandetta). E no caso de Bolsonaro se inviabilizar, ser um eixo articulador importante de uma candidatura alternativa nascida na centro-direita, podendo aí também ser dele um candidato como Rodrigo Pacheco. Esse espectro, sim – não o de um centro “puro”, equidistante entre “extremos” - pode preocupar Lula, daí fazer sentido ele exumar, a essa altura, o tema do golpe. O faro de Lula deve se lembrar de 1994, quando um ano antes da eleição ele era imbatível e acabou derrotado.

O Lula de 2002 precisará entrar em campo. Será imprescindível disputar o centro para que não se forme contra ele uma ampla aliança, do centrão ao PDT, quiçá partes do PSB. Ir ao centro ele vai, mas com que roupa? Dessa vez não há plano Real a conservar. Terá que sair uma proposta nova, que lide com uma crise nacional realmente funda e nova, muito diferente das marolas do segundo mandato de FHC. E que lide também com uma crise mundial nova, com ingredientes diversos da de 2008, que pode então ser enfrentada com medidas controversas, mas assimiladas por graus de consenso político que hoje inexistem. Os defensivos anos Hoffmann, em que se impôs ao PT a prioridade ao Lula livre - trouxeram, além de mais isolamento político, regressão maior na qualidade do discurso e na capacidade de formulação do partido.  O retrato do velho ajuda, mas não basta.

A situação poderia, em tese, cair como luva nas mãos de Ciro Gomes, se Ciro não fosse Ciro. Pelo recall eleitoral, poderia concretizar a “terceira via” com que uma disposição centrista presente na sociedade brasileira sonha desde tempos imemoriais. Além disso, ele poderia ser válvula de escape para um eleitorado de centro-esquerda desiludido com o Brasil e o PT e, ao mesmo tempo, via eleitoral afirmativa e não defensiva para uma centro-direita constrangida pelo apoio dado a Bolsonaro. Adversários do PT não teriam opção melhor que um candidato do PDT para enviar de vez ao arquivo a narrativa do golpe de 2016.

Claro que isso não bastaria porque seria preciso também responder de maneira atual à crise atual, o mesmo desafio que está posto ao PT. A importância de um chamado ao pragmatismo, com suspensão de juízos doutrinários abrangentes, tendo como fio condutor e critério básico para escolhas concretas de política econômica o momento de transição da economia no mundo, em que o fator ambiental se tornou decisivo e imperativo. Igualmente as especificidades do contexto brasileiro, sejam conjunturais, sejam as derivadas de nossa experiência histórica. E tão importante quanto o conteúdo, o método. Um contraponto ao voluntarismo que marca a condução da atual política econômica, necessidade que aumenta quando se tem em conta as conexões globais que limitam a “imaginação” econômica.  Esse é terreno em que imaginação é ferramenta de alto risco para enfrentar o que ocorrer, isto é, os desencontros mais que prováveis entre a teoria e a realidade, para cuja gestão é preciso prudência e não voluntarismo; política e não ciência.

Depois de Bolsonaro e Paulo Guedes, suponho que pouca gente, seja empresário ou trabalhador, elite ou povo, está disposta a dar um cheque em branco a alguém. A primeira certeza de que se precisa na aldeia em que o obscurantismo nos converteu é que uma nova liderança política nos devolverá ao mundo, resgatando a vocação moderadamente cosmopolita (benção aqui a Luiz Sergio Henriques) que sempre nos distinguiu. E a garantia de que, internamente, haverá, além de planos, processos pactuados de decisão nos quais o presidente não será nem mandachuva nem feiticeiro.

Sem uma pactuação dessa ordem na condução da economia não será veraz qualquer promessa de que a redução de desigualdades terá uma prioridade elevada à condição de pano de fundo que corte transversalmente as demais dimensões do pacto. Isso exclui tratamentos de choque. É metabolização governamental de uma atitude política perene e abrangente de reduzir desigualdades e promover inclusão social e cidadania. Até porque democracia não é moldura política propícia a choques providenciais nesse terreno e isso precisa ser dito com franqueza e clareza pois é divisor de águas em relação a populismos.

Esses desafios social-democráticos seriam (também em tese) mais afins a um polo liberal-democrático ou a uma esquerda com teor de republicanismo maior que o encontrado no PT. Mas a coisa complica quando se passa da tese à realidade, na qual é preciso considerar as limitações dos atores. Esquerda republicana é pessoa pública ausente e o campo liberal-democrático um conjunto de átomos mal agregados e presos ao varejo. Daí que o desafio está aí, mas não tem destinatário certo.

Ele pode se dirigir a algum ator – quadro ou partido – do poroso campo que se espraia do PDT ao DEM. De novo, em tese: um candidato mais à esquerda seria melhor para essas forças pela maior chance de isolar Lula. Uma excelente matéria publicada pela revista Veja e assinada pelos jornalistas João Pedroso de Campos e Gabriel Mascarenhas, mostra, sob a chave de um dilema, os limites de Ciro Gomes para assumir esse papel. Insuperáveis? Não há como dizer. Mas são sensatas as dúvidas suscitadas pela sua personalidade, digamos, autocentrada, à qual se junta uma concepção vertical e voluntarista da política e a pretensão específica de quase onisciência sobre caminhos para solucionar os problemas econômicos do Brasil. Em que direção atuará sua conexão com João Santana é outra incógnita porque a mesma expertise do segundo popularizou “Lulinha paz e amor” em 2002 e fez o “bateu levou” cancelar Marina Silva nas eleições de 2014. Dizem que um bom marqueteiro não inventa um cliente, mas converte em vantagem o que o cliente já é. Se for assim, a campanha promete dobrar as apostas maniqueístas de 2014 e 2018.

Quando se pensa nisso tudo, sobressai uma distância grande para aquele ator que foi Fernando Henrique Cardoso na costura da aliança de 1994.  Abre-se então uma brecha para que nesse polo vingue outro personagem, mesmo com origem mais à direita. Mandetta e Eduardo Leite estão na área, parece que Huck quer voltar a ela, enquanto Dória talvez fique na instância estadual. Huck tem comunicação popular, mas contra si o amadorismo político e a inexperiência administrativa evidentes. Mandetta e Leite não têm esses senões e podem ter a seu favor os pesos dos seus respectivos partidos. Mas são vantagens incertas. No caso de Leite, pelo clima interno do PSDB. No de Mandetta, porque um possível esvaziamento da candidatura de Bolsonaro pode levar o DEM a se tornar síndico de outro projeto. E aí?

Essas incertezas e indefinições existem, mas os desafios que mencionei também. Seu apelo objetivo vai se impor a quem estiver em posição eleitoralmente relevante, seja qual for seu berço ideológico. Por isso o desafio pode ser também lançado à esquerda realmente existente, porque quem a encarna é Lula, personagem complexo que não cabe todo nessa gaveta. Tanto quanto Ciro, ou Mandetta, Lula pode conduzir politicamente um pacto nacional pelo qual uma centro-esquerda concede na economia, em troca de consentimento conservador a uma pauta de progresso social. Ou ao inverso, uma plataforma orientada a uma economia de mercado faz concessões a uma pauta social, em troca de um ambiente de cooperação para reformas de sentido liberal. O contexto internacional, pelos efeitos da pandemia e pelos movimentos dos EUA sob Biden, torna as partes envolvidas num pacto dessa natureza sensíveis a uma convergência social-democrática mais sólida.  

Na política interna o derretimento de Bolsonaro relaxa tensões imediatas e tem efeitos ambíguos. De um lado encoraja apostas em políticas de entendimento, de outro, libera impulsos de competição no interior do campo democrático. A precaução óbvia é não dar como fato o que é apenas uma possibilidade. O que nos devolve ao começo da conversa. Lula falando do centro para agregar forças heterogêneas contra um risco de eleição de Bolsonaro e Lula disputando o centro com uma aliança liberal formada contra ele são dois cenários verossímeis. Quem quiser derrotá-lo não pode errar na política. Nem ele, se quiser vencer. O amadorismo político é o erro fatal que ameaça seus adversários. Livre dele, Lula corre outro: achar que basta pedir ao eleitor para colocar seu retrato na parede.

*Cientista político e professor da UFBa

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