quarta-feira, 21 de julho de 2021

Vera Magalhães - Debate interditado

O Globo

A melhor forma de interditar um debate é apontar falsamente intenções maléficas por parte de quem tenta fazê-lo de forma honesta. Ou dizer de antemão que ele está fadado ao fracasso.

É o que o PT e Lula, de um lado, e o presidente Jair Bolsonaro, de outro, vêm ensaiando em relação a qualquer tentativa de articular uma alternativa à ideia segundo a qual, um ano e três meses antes das eleições, já está dado o segundo turno entre os dois.

Propagar em tons cabalísticos essa inevitabilidade é algo que contraria a lógica mais comezinha e despreza toda a história das eleições no Brasil e no mundo. E só interessa aos dois.

Graças à manchete desta terça-feira do GLOBO, reunindo declarações de ambos, dadas no mesmo dia, a respeito de uma eventual terceira via em 2022, caiu o mundo no petismo: “falsa equivalência”, “falso paralelismo”, passaram a gritar nas redes sociais os interessados em desencorajar, pela intimidação, qualquer discussão a respeito de algo tão basilar das democracias quanto a existência de nuances no espectro político-partidário.

As eleições brasileiras desde 1989 sempre tiveram uma plêiade de candidatos. Por que raios isso seria diferente em 2022? Que haja um enxugamento dessa cartela, que partidos se unam previamente em torno do objetivo de chegar mais fortes a uma disputa que, sim, já começará de antemão com dois contendores fortes, é esperado e é racional.

Agora, querer evitar na base do grito autoritário que qualquer opção, ainda que, vá lá, fadada ao fracasso, possa se apresentar é histeria. E isso tem uma razão.

Lula e o PT sabem que ainda resiste na sociedade um antipetismo vigoroso. Ele se mostrou nas eleições de 2020, mesmo com a tragédia do governo Jair Bolsonaro já a pleno vapor e com o naufrágio bolsonarista naquelas urnas.

Foram justamente as opções nem-nem que prosperaram em capitais importantes: São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Salvador, Recife, Fortaleza, Curitiba, e por aí vai.

Sim, de lá para cá, foram anuladas as condenações que tornavam Lula ficha-suja, e ele está de volta ao tabuleiro. É um candidato fortíssimo, pelo recall e pela comparação com o desastre bolsonaresco. Mas não é novo, e a anulação das condenações não tem o condão de apagar no atacado todo o passivo de escândalos relacionados a seus governos, nem o desastre econômico de Dilma Rousseff.

Qualquer um que tenha apreço pela democracia, pela ciência, pela educação, pela cultura, pelos direitos humanos e por tantos outros marcos civilizatórios sabe que a destruição bolsonarista não tem precedentes em gravidade e risco ao país. Portanto, caso se cumpra a profecia do embate entre Bolsonaro e Lula, muitos que foram críticos ao legado petista farão uma escolha que não é muito difícil.

Mas, até que se chegue a esse segundo turno, existe uma eternidade em tempo da política, e um sem-número de decisões, acordos, conversas que não serão sustados por decreto, sob a alegação de que buscar alternativas seja ou inútil ou sujo. Porque não é nem uma coisa nem outra.

Ciro Gomes, para ficar em apenas um dos candidatos nem-nem, já está com o bloco na rua. É ilegítima sua candidatura? São infundadas as críticas que faz, pela esquerda, ao lulopetismo? Pode-se concordar ou não com elas, com sua intensidade e seu timing, mas quem vai tirar dele o direito de fazê-las? A quem interessa interditar o debate a mais de um ano da eleição, que o presidente, aliás, já diz de antemão que será fraudada caso não se dê pelas suas regras e, se possível, com sua vitória?

Bolsonaro tem todo o interesse em propagar o fantasma da volta de Lula, ao mesmo tempo que interessa ao ex-presidente se apresentar como o único capaz de nos livrar do flagelo da destruição bolsonarista. Pode ser que assim seja, mas o jogo não está nem de longe jogado.

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