quinta-feira, 25 de novembro de 2021

Maria Hermínia Tavares - O que as urnas vêm dizendo, não só no Chile

Folha de S. Paulo

Voto castigo é uma das características das recentes eleições na região

Nesta semana, analistas chamaram a atenção para os resultados das eleições chilenas de domingo passado. Afinal, elas expuseram a quebra do padrão de disputa entre duas coalizões centristas, que prevalecia desde a volta da democracia em 1990 e tornava o jogo todo bastante previsível.

Na segunda-feira (22), nesta Folha, enquanto Marcus Melo destrinchava as mudanças nas regras eleitorais que fizeram desmoronar o clássico padrão de competição centrípeta, Mathias Alencastro enfatizava a mudança geracional, com a ascensão de lideranças progressistas reveladas nas mobilizações sociais da última década.

Mas os números do domingo, resultantes das alterações nas regras da competição e da inevitável troca de guarda entre gerações, traduziram sobretudo enorme rechaço ao sistema político anterior. A mesma rejeição que levou multidões às ruas no chamado "estallido"(estouro) de 2019 e nas eleições para a Convenção Constituinte em que prevaleceram as listas dos independentes.

Agora, candidatos das forças de centro-esquerda como de centro-direita, que emplacaram todos os presidentes e maiorias parlamentares nas últimas três décadas, tiveram menos votos que o terceiro colocado, Franco Parisi. Residente nos Estados Unidos, ele nem sequer se deu o trabalho de fazer campanha no seu país.

Segundo a cientista política Claudia Heiss, da Universidade do Chile, ao votar em Parisi os eleitores puniram as forças políticas tradicionais. O "voto castigo" é também uma das características dos recentes processos eleitorais na região, como destacou Daniel Zovatto, diretor para a América e o Caribe da International Idea, organização sueca que monitora a democracia e as votações pelo mundo afora.

Segundo ele, desde 2019 os governantes têm sido derrotados em praticamente todas as disputas realizadas na área para diferentes cargos, contrariando uma tendência que no passado —e em pencas de países— costumava dar vantagem aos incumbentes. A vitória de candidatos com discursos antissistema; a fragmentação dos sistemas de partidos ou a sua instabilidade —em razão do escasso tempo de vida das organizações partidárias, substituídas sem cessar por novos agrupamentos— e governos desprovidos de sólida maioria parlamentar completam o quadro de turbulência política que sacode a região.

Como tantas outras, as eleições chilenas resultam de uma história particular, mas, ao mesmo tempo, escancaram a comum dificuldade de ancorar democracias estáveis em terreno minado por baixo crescimento econômico, corrupção, muita pobreza e seculares distâncias sociais.

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