quinta-feira, 24 de fevereiro de 2022

Merval Pereira: Maluca corrida

O Globo

A última novidade na corrida presidencial é a percepção de que o presidente Bolsonaro pode não ser um “pato manco”. A eleição está difícil para a terceira via, até porque Bolsonaro estabilizou e, com ajuda do Centrão, continua na margem de 20% a 25% nas pesquisas. É bom para ele, porque, se for para o segundo turno — não acredito na vitória de Lula já no primeiro —, conseguirá reviver a polarização de 2018, e não se sabe o que pode acontecer. A campanha será radicalizada, e todo o passado petista de envolvimento com corrupção, no mensalão e no petrolão, será reavivado.

O salto alto da militância petista está fazendo com que erros políticos ajudem a recuperação de Bolsonaro. No Rio, onde o presidente Bolsonaro e seu clã têm origem, o PT não está conseguindo o apoio do prefeito Eduardo Paes na composição para a disputa do governo e Senado, o que já está enfraquecendo Lula e fortalecendo Bolsonaro, que apoia a reeleição do governador Cláudio Castro.

“Pato manco” é uma expressão usada principalmente na política americana (lame duck), que define o político que continua no cargo, mas, por algum motivo, não tem chance de disputar a reeleição e perde a expectativa de poder. A expressão nasceu na Bolsa de Valores de Londres, no século XVIII, em referência a um investidor que não pagou suas dívidas e ficava exposto à pressão dos credores. A ave (e o político) com problemas torna-se presa fácil dos predadores.

A expressão surgiu de um velho provérbio de caçadores que diz: “Never waste powder on a dead duck” (“Nunca desperdice pólvora com pato morto”). Bolsonaro já pareceu um “pato manco” por diversas vezes, quando as besteiras que comete cotidianamente o fizeram desabar nas pesquisas, situação que parecia irreversível. O Bolsa Família turbinado como Auxílio Brasil e as diversas medidas populistas aprovadas a toque de caixa pela maioria do Centrão no Congresso parecem ter dado um gás ao governo.

O Centrão parece acreditar na reeleição e no consequente aumento do poder do Congresso num eventual segundo mandato de Bolsonaro. Já tomou conta da economia, inviabilizando os resquícios de liberalismo que o ministro Paulo Guedes ainda vislumbrava, a ponto de ele já sugerir que poderia não continuar no governo. O equilíbrio fiscal foi para segundo plano, e o governo está “fazendo o diabo” para se manter no poder, como diria a ex-presidente Dilma Rousseff.

Para facilitar a vida de Bolsonaro, a terceira via não consegue deixar de ser um desejo de muitos para se tornar uma realidade. Moro e Ciro Gomes empacaram antes de chegar aos 10% nas pesquisas. O governador de São Paulo, João Doria, anda mal das pernas, e a imagem dele, apesar de tudo o que fez pelas vacinas e do bom governo em São Paulo, não é popular. É uma situação muito delicada. Ele já disse que aceitaria abrir mão da candidatura, demonstrando não ser egocêntrico como aponta a maioria das críticas que recebe da classe política e, sobretudo, da população paulista.

Essa admissão pode ser um primeiro passo, porque ele nunca tinha aceitado a ideia. Mas deve estar se convencendo de que tem poucas chances de se recuperar a ponto de ir para o segundo turno. Pode chegar a um acordo para continuar no governo de São Paulo até o final para, num próximo governo que apoiaria, ter uma posição destacada e recomeçar a caminhada na tentativa de ser presidente. Esse movimento, no entanto, se acontecer, será mais adiante. A partir de maio ou junho, teremos um quadro mais definido da situação. Pode ser que as pesquisas eleitorais joguem na realidade alguns candidatos que não têm chances. Ou reacendam as esperanças de candidatos como Doria, que tem resiliência já demonstrada.

A dificuldade para a formação das federações partidárias mostra como até mesmo um partido forte como o PT, com um candidato francamente favorito, não consegue impor sua vontade a partidos que têm consistência e história, como o PSB. Apoiar Lula num provável governo é uma coisa, submeter-se ao controle da máquina petista é outra bem diferente.

Correção

Foi o Congresso, e não o Supremo, como escrevi terça-feira, que derrubou a Lei de Segurança Nacional (LSN)

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