quarta-feira, 6 de abril de 2022

Marcello Cerqueira*: Forças democráticas devem se unir contra Bolsonaro

O Globo

Nas democracias atuais, é natural que os partidos disputem eleições e, quando necessário, se unam livremente em coligações ou coalizões. Não é o caso do Brasil. Aqui, o presidente da República vem, repetidamente, ameaçando o país com medidas desconhecidas pela Constituição em vigor e por ela repudiadas.

Declarou, mais de uma vez, que só Deus o tiraria da cadeira que ocupa. Não creio ser lícito esquecer a campanha que fez contra as avançadas e consagradas urnas eletrônicas. Mas aí encontrou forte resistência do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e de seu corajoso presidente, Luís Roberto Barroso, que deflagrou, com o auxílio da imprensa, campanha em que ficou demonstrada a lisura da eleição com as urnas eletrônicas, diferentemente das antigas e obsoletas cédulas de papel. Mais de uma vez, agrediu o TSE e, diretamente, alguns de seus ministros.

Quando a humanidade se protegeu do vírus, o presidente acentuou sua atitude negacionista, tendo a ousadia de, na abertura da 76ª Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas, defender perante todos os povos do mundo, estúpida e irresponsavelmente, a cloroquina como remédio contra a Covid-19.

Em democracias de massa, como são as atuais em todos os países que a praticam, é comum ver candidatos avulsos e diversas coalizões disputando eleições. É legítimo que isso ocorra quando todos os concorrentes respeitam a democracia. Não acontece, entretanto, quando um dos candidatos, presidente e militar outrora insubordinado, a repudia. Nesse caso, é natural que todos os partidos ou coalizões democráticas se unam para derrotá-lo.

Espera-se, portanto, que todos os candidatos democratas se unam desde logo e, necessariamente, no primeiro turno para derrotar aquele que se opõe à democracia. São tantos os exemplos que este texto não teria páginas para registrar as constantes manifestações do presidente que se opõe à disputa eleitoral digna e, certamente, inconformado com a derrota que poderá vir, busca solução desconhecida da Constituição em vigor.

Neste momento, é preciso procurar um candidato com mais chances de vencer já no primeiro turno. Insisto: dispersão de votos, inclusive uma terceira via, é inútil e prejudicial. O que cabe é a união de todos os democratas contra aquele que se opõe à democracia, que tentou uma quartelada (no 7 de setembro de 2021) e que diz que não respeitará o resultado eleitoral se não for a seu favor.

Ora, se é necessário que o candidato democrata a ser indicado no curso do processo eleitoral se personifique, este levará o presidente e seus aliados a recuarem de uma solução inconstitucional em face da vitória da oposição logo no primeiro turno.

Ao lerem este texto, os candidatos democratas ou de coalizões democráticas podem se sentir feridos em seu patriotismo e, na busca de uma campanha eleitoral, ainda que previamente perdida, favorecer o presidente atual.

Mesmo nas palavras duras com que trato uma terceira via, parece que me oponho àqueles patriotas que procuram se afirmar para posteriores embates, nada mais do que isso. A terceira via ficará, então, restrita aos candidatos e coalizões que porventura apoiem o atual presidente.

Quero dizer, respeitosamente, que os democratas que mantiverem suas pretensões eleitorais favorecem, embora não queiram, o atual presidente. Penso que esses candidatos do lado da democracia serão mais úteis nos governos estaduais, no Senado, ou na Câmara dos Deputados para sustentar o presidente democrata a ser eleito por sua, então, comprovada política de defesa da pátria democrática, dos mercados livres, do apoio às empresas, do apoio ao ensino gratuito e de boa qualidade, dos trabalhadores e dos pobres.

Nessa democracia, eles poderão livremente levantar suas bandeiras e acumular forças para posterior eleição, uma vez afastada a sanha fascista.

*Advogado

Nenhum comentário:

Postar um comentário