quinta-feira, 14 de abril de 2022

O que a mídia pensa: Editoriais / Opiniões

EDITORIAIS

É fundamental acelerar concessão de aeroportos

O Globo

É preocupante a falta de empenho do governo federal para acelerar a concessão de aeroportos. Embora o Ministério da Infraestrutura mantenha a previsão de leilão do Santos Dumont (terminal doméstico do Rio) e do Antonio Carlos Jobim/Galeão (internacional) para o segundo semestre de 2023, na prática já se trabalha com adiamento para 2024. Os atrasos não se restringem aos aeroportos cariocas. Há problemas também com a nova licitação dos aeroportos de Viracopos, em Campinas (SP), e Natal, em São Gonçalo do Amarante (RN), cujas concessionárias, a exemplo da RioGaleão, também desistiram do negócio.

Como mostrou reportagem do GLOBO, a devolução do Tom Jobim/Galeão, anunciada pela RioGaleão em fevereiro em virtude do agravamento do esvaziamento do aeroporto durante a pandemia, está atrasada. Por questões burocráticas, até o momento ocorreu apenas a troca de documentação entre a concessionária e a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac). Nos bastidores do ministério, sabe-se que não haverá tempo hábil para traçar o modelo de concessão reunindo os dois aeroportos cariocas, obter aval do Tribunal de Contas da União (TCU) e preparar o leilão. A licitação segue a passos lentos não só pela burocracia e inépcia, mas também pelo impacto do calendário eleitoral (o ministro Tarcísio de Freitas deixou a pasta de Infraestrutura para disputar o governo de São Paulo).

No caso dos outros dois aeroportos, os editais já estão em análise no TCU. Os problemas não são simples. Para o aeroporto potiguar, a estimativa de arrecadação do novo leilão (R$ 250 milhões) não cobre os investimentos feitos pela empresa Inframerica. O TCU não quer que dinheiro público seja usado na indenização. A questão do ressarcimento também trava a concessão de Viracopos, já que a Anac ainda não definiu os valores. Como os dois leilões são relicitações, assim como o Tom Jobim/Galeão, não faziam parte da sétima rodada de concessões de aeroportos promovida pelo Ministério da Infraestrutura, prevista para o primeiro semestre deste ano, reunindo 16 terminais (com a retirada do Santos Dumont, restaram 15).

A venda dos aeroportos sempre esteve sujeita a turbulência. De início, o governo equivocadamente tratou o Santos Dumont de forma isolada. A ideia era turbinar o terminal doméstico do Rio, aumentando o número de voos e permitindo rotas internacionais para torná-lo mais atraente. Um erro, já que a estratégia esvaziaria ainda mais o Tom Jobim/Galeão. O anúncio da devolução do aeroporto internacional teve efeito positivo, por permitir que os dois sejam concedidos em conjunto e tratados de forma complementar. Mas isso não justifica que as licitações fiquem para 2024.

Ministério da Infraestrutura, TCU e Anac deveriam trabalhar para acelerar as licitações. É evidente que houve problemas na concessão de terminais que estão entre os mais movimentados do país, como Viracopos e Tom Jobim/Galeão. Caso contrário, as empresas não teriam devolvido as concessões. Mas empurrar os leilões para 2024, ou sabe-se lá quando, só contribui para agravar os problemas, torna os aeroportos menos rentáveis e desvaloriza os ativos em leilão. O passageiro não pode pagar o preço da burocracia e da inépcia. Fingir que está tudo bem é a pior solução.

Investigação independente reúne violações graves da Rússia na Ucrânia

O Globo

Enquanto as tropas russas são reagrupadas para, muito provavelmente, um novo ataque às regiões separatistas pró-Moscou no leste do país, os organismos internacionais avançam na análise das atrocidades cometidas até aqui. É um trabalho fundamental para que a opinião pública tenha consciência do que está acontecendo na guerra mais importante e dramática em curso no mundo.

A Organização para a Segurança e Cooperação na Europa (OSCE), com sede em Viena, publicou relatório em que aponta padrões claros de violação grave a leis humanitárias internacionais. O número de civis mortos tem sido alto. É vasta a destruição de prédios, hospitais, escolas, sedes administrativas, rede de eletricidade e patrimônio cultural. “A maneira como é feito o cerco à cidade de Mariupol é um exemplo extremo”, afirma o relatório.

Sem saber quando a guerra acabará, é impossível dizer que episódio ficará marcado como símbolo das atrocidades. Um dos candidatos é Mariupol, cidade portuária onde um teatro que abrigava civis foi bombardeado no final de março, mesmo com a palavra “crianças”, escrita no chão, visível a dezenas de metros de altitude.

A OSCE também registrou evidências críveis sugerindo o descumprimento de leis internacionais de proteção aos direitos humanos. Não faltam relatos de torturas, desaparecimentos, sequestros e execuções sumárias. Os russos tentam se defender dizendo que os ucranianos também cometem crimes. O relatório reconhece que há abusos dos dois lados, mas afirma que os da Rússia são, de longe, maiores em escopo e natureza.

O avanço das investigações acontece no momento em que o presidente americano, Joe Biden, eleva o tom de suas declarações. Na terça-feira, ele descreveu como “genocídio” os eventos na Ucrânia. Biden é famoso por proferir gafes, mesmo assim, questionado pela imprensa, confirmou que usou a palavra “genocídio” de forma intencional.

A definição jurídica de genocídio é bastante restrita: matar e causar ferimento sério físico ou abalo mental “com a intenção de destruir, no todo ou em parte, um grupo nacional, étnico, racial ou religioso”. Alguns analistas que no início estavam céticos diante dessa acusação — dificílima de provar nos tribunais internacionais — começam a enxergar o conflito de forma diferente diante das evidências que se acumulam. A Rússia pode ter começado a invasão sem essa intenção, mas, se ficar comprovado que as monstruosidades cometidas nos arredores de Kiev constituem um padrão de comportamento, as acusações poderão alcançar outro patamar.

Nesta semana, o promotor do Tribunal Penal Internacional (TPI) esteve na cidade de Bucha, onde foram encontrados uma cova coletiva e cadáveres de civis nas ruas. As investigações dos organismos internacionais precisam ir até o fim.

Réu confesso

Folha de S. Paulo

STF julga atuação do governo na área ambiental, onde devastar é meta declarada

O governo de Jair Bolsonaro (PL) está sentado num metafórico banco dos réus do Supremo Tribunal Federal (STF), que decidirá se a política antiambiental do Planalto se inscreve nos limites aceitáveis de uma atuação estatal incompetente ou se extrapola essa fronteira para se tornar inconstitucional.

Não é difícil entender como se chegou a essa situação, em que o governo Bolsonaro responde a 6 de 7 ações reunidas sob o apelido de "pacote verde" —o outro caso remete a resolução de 2018, na administração de Michel Temer (MDB).

Desde o primeiro dia, o atual presidente deixou claro o quanto despreza não só os órgãos de proteção ambiental, mas a própria ideia de preservar fauna e flora.

Só isso explica por que nomeou Ricardo Salles para a pasta do Meio Ambiente, um ministro que se segurou tempo demais no cargo e que deixou como herança exatamente o que seu chefe esperava: a sabotagem dos órgãos de fiscalização e controle sob seu comando.

Sua saída pouco alterou a prática de desmantelar o aparelho estatal destinado a defender o ambiente. A destruição continuou de acordo com o mesmo roteiro que Salles, orgulhoso de seus malefícios, enunciou na famigerada reunião ministerial de 22 de abril de 2020.

Ali estava, sem meias palavras, a confissão escancarada de que a frente de devastação registrada sob Bolsonaro nada teve de fortuita. Era, por incrível que pareça, uma política pública deliberada.

Pois muito do que o atual governo fez ou deixou de fazer na seara ambiental será agora avaliado no STF à luz da Constituição.

Inúmeros partidos políticos que assinam as ações argumentam que o país atingiu, nessa frente, o chamado estado de coisas inconstitucional, isto é, uma situação em que as falhas são estruturais e resultam em violação grave e contínua de direitos fundamentais.

Dois artigos da Constituição tratam expressamente do meio ambiente, e ambos deixam claro que o dever do poder público é defendê-lo e preservá-lo para as presentes e futuras gerações.

De modo que a ministra Cármen Lúcia não enfrentou dificuldades ao elaborar seu voto em sentido contrário aos interesses do Planalto. Ciente da importância desse julgamento, ela fez questão de compor uma argumentação sólida, com coerência interna e claro embasamento na doutrina jurídica e nas decisões recentes do tribunal.

Não menos importante, Cármen Lúcia restringiu-se a determinar que o governo federal apresente um plano de ação capaz de atender o mandamento constitucional, sem pretender que a corte o faça no lugar de Jair Bolsonaro.

Esse é o papel do STF. Deve zelar pelo cumprimento da Constituição, mas sem invadir a competência dos outros Poderes.

Infância desviada

Folha de S. Paulo

Subnotificação do trabalho de crianças deve ser apurada para melhoria de ações

Encontra-se aferidor seguro do grau de civilização de um país no modo como trata crianças e detentos. Nas prisões superlotadas do Brasil predominam retrocessos, assim como na educação pública, enquanto nos indicadores de trabalho infantil haveria avanços —mas essa não é uma certeza.

Há motivos para pôr em dúvida as estatísticas oficiais, como mostrou reportagem desta Folha. Segundo estudo de universidades na Suíça e nos Estados Unidos, a ocorrência real pode multiplicar por sete os números oficiais.

Série histórica do IBGE sobre trabalho de 5 a 17 anos de idade indica boa melhora de 1992 a 2015. Nesses 23 anos, o contingente de trabalhadores mirins teria encolhido 65,6%, de 7,8 milhões para 2,7 milhões —dado ainda vergonhoso, em especial tendo em conta que 70% são pretos ou pardos.

O estudo considerou faixa etária mais restrita, 7 a 14 anos, na qual haveria em 2015, oficialmente, 738,6 mil crianças e adolescentes (2,5%) exercendo algum tipo de atividade laboral. Os autores projetam, entretanto, que o número efetivo deve ser 5,7 milhões (19,2%).

As quantidades divergem porque a fonte de informação da segunda pesquisa foram as próprias crianças —por exemplo, em respostas ao Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb). Seus pais, por vergonha ou temor, tendem a encorpar a subnotificação.

No Saeb de 2019, 15% dos meninos e meninas de 10 e 11 anos declararam ter trabalhado por ao menos uma hora. Considerando os que não estão na escola, calcula-se que o percentual total seja maior.

O primeiro passo para desenhar políticas eficazes no Programa de Erradicação do Trabalho Infantil (Peti), portanto, seria aperfeiçoar a metodologia de quantificação. Concentrando atenção na ponta do iceberg, o Estado deixaria 6/7 do problema ocultos sob a superfície de aparente sucesso.

Também urgente seria reverter o notório descaso do presidente da República. Jair Bolsonaro (PL) desqualificou a questão ao defender, em 2019, ser melhor uma criança de 9 ou 10 anos trabalhar do que fumar crack (obviamente, um delito não justifica o outro).

Com tal retórica, é difícil imaginar que o governo vá se debruçar sobre as estatísticas e as políticas relacionadas ao trabalho infantil. Afasta-se mais uma vez da via civilizatória —nenhuma novidade aí.

A falta de decoro como virtude

O Estado de S. Paulo

Há quem faça da baixeza uma marca na busca de votos; se isso já elegeu até um presidente da República, não admira que muitos se esforcem para parecer ainda mais infames

O crescimento no número de denúncias por quebra de decoro parlamentar pode dar a falsa impressão de que está em curso um resgate da moralidade no Congresso Nacional e em várias instâncias do Legislativo. Reportagem publicada pelo Estadão mostra que as representações contra parlamentares no Conselho de Ética da Câmara aumentaram 200% entre 2012 e 2021 e no Senado, 1.200%. Até abril deste ano, foram 12 queixas formais contra deputados federais, mesma marca de todo o ano passado. Longe de representar um apelo por decência, dignidade e honradez, esse avanço é um sintoma da inversão de valores que ameaça tomar conta da política brasileira.

Se o número de denúncias aumentou nos últimos dez anos, a lentidão na análise e na tramitação desses pedidos continua exatamente a mesma. A Câmara não realiza reuniões do Conselho de Ética desde novembro, e no Senado a última audiência se deu em setembro de 2019. A atual legislatura é prova disso. O deputado Daniel Silveira (PTB-RJ), que divulgou vídeo com ofensas aos ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) em fevereiro do ano passado, teve o parecer pela cassação aprovado em julho, mas não há qualquer previsão sobre quando o caso será apreciado em plenário. A condenação de parlamentares por seus colegas é exceção, não regra.

É nesse contexto realista que o tema do decoro parlamentar deve ser analisado. A aprovação do parecer pela cassação do notório deputado Arthur do Val (União Brasil-SP) no Conselho de Ética da Assembleia Legislativa de São Paulo pode levar a uma interpretação otimista – seria, nessa versão benevolente, uma resposta ao intolerável. Como se recorda, Arthur do Val enviou a amigos áudios machistas em que deprecia mulheres ucranianas. O Conselho de Ética da Assembleia votou pela cassação e a decisão final será do plenário. Se Arthur do Val for cassado, contudo, não será por suas declarações desumanas, mas sim pela quantidade de inimigos que colecionou na Assembleia, em razão de seu comportamento costumeiramente desaforado.

Não fosse por isso, Arthur do Val teria grande chance de se safar. Basta lembrar que a mesma Assembleia Legislativa não cassou o deputado Fernando Cury (União Brasil-SP), ainda que imagens não tenham deixado dúvidas de que ele apalpou Isa Penna (PCdoB-SP) no plenário em dezembro de 2020. Evidentemente, Arthur do Val tentou usar o caso para se dizer vítima de perseguição. Que fique claro: tanto Cury quanto Arthur do Val merecem perder o mandato. A questão é que as instituições precisam encontrar formas mais efetivas de punição contra os indecorosos. As denúncias, hoje, não assustam nem contêm o ímpeto de nenhum parlamentar. Pelo contrário: servem de trampolim político para arregimentar votos na parcela mais extremista do eleitorado, aquela que, por rejeitar a democracia, interpreta o desrespeito irreverente às instituições democráticas como uma virtude.

Há quem faça do deboche e da cafajestagem uma marca pessoal. Está provado que isso, infelizmente, rende votos. Jair Bolsonaro, por exemplo, chegou à Presidência da República como coroamento de uma carreira política marcada por profundo desrespeito ao Congresso e à democracia. Orgulhosamente, Bolsonaro, quando deputado, disse a uma deputada que não a estupraria porque ela não “merecia”; elogiou o torturador de Dilma Rousseff na hora de votar pelo impeachment da presidente; e defendeu o fuzilamento de opositores. Há muitos outros insultos intoleráveis no histórico de Bolsonaro, mas esses bastam para mostrar que a baixeza bolsonarista não é acidental, e sim deliberada, com o objetivo de ganhar votos. 

Como Bolsonaro não foi punido no momento adequado por seu comportamento absolutamente incompatível com a democracia, sentiu-se à vontade para investir ainda mais na infâmia como ativo eleitoral – e, pior, está fazendo escola. Se pretendem sobreviver a essa degradação moral, as instituições democráticas devem começar a castigar exemplarmente quem tanto as despreza.

Mercosul outra vez ignorado

O Estado de S. Paulo

Interessado só nas eleições, e não na abertura do mercado brasileiro, governo Bolsonaro estuda novas reduções de tarifas sem consultar seus parceiros sul-americanos

Com os estudos de uma nova rodada de corte de 10% no Imposto de Importação da maior parte dos produtos que o País compra do exterior sem consultar previamente os parceiros do Mercosul, o governo Bolsonaro mostra mais uma vez menosprezo pelo bloco econômico do Cone Sul e preocupação obsessiva com a eleição de outubro. O objetivo do novo corte de tarifas não é abrir mais o mercado brasileiro para fortalecer a competição e estimular a eficiência da produção local, como seria desejável. É bem mais prosaico. Mais do que em melhorar o ambiente dos negócios e da produção, o governo está interessado em reduzir o impacto dos artigos importados sobre a inflação, pois a alta generalizada dos preços afeta mais duramente o orçamento dos mais pobres e prejudica os interesses eleitorais do presidente-candidato Jair Bolsonaro. Pouco importa se algum outro país-membro do Mercosul discordar da decisão brasileira. Isso não tirará votos do candidato à reeleição.

Não se pode dizer que, com relação ao bloco econômico formado por Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai, o governo Bolsonaro tenha mudado de opinião. Desde a campanha eleitoral de 2018, o candidato e seu então principal porta-voz na área econômica e hoje ministro da Economia, Paulo Guedes, mostram, se não desprezo, pouco interesse no destino do Mercosul. Logo após conhecidos os resultados da eleição presidencial daquele ano, Guedes afirmou que o Mercosul não seria prioridade do novo governo, pois era “muito restritivo” e tornava o Brasil “prisioneiro de alianças ideológicas”, o que era ruim para a economia brasileira.

Quase três anos depois, em agosto do ano passado, o ministro da Economia voltou a criticar o bloco do Cone Sul de maneira mais amena. Reconheceu o papel que o bloco teve logo após sua criação, em 1991, quando teria servido como “uma espécie de trampolim” para fazer o Brasil avançar em termos de competitividade, mas observou que, hoje, “não está correspondendo às expectativas”. Pouco depois, quando o Brasil assumiu a presidência rotativa do bloco, Guedes anunciou que “o Mercosul vai se modernizar e quem estiver incomodado que se retire”.

A redução de tarifas de importação é medida que, em tese, faz avançar a modernização. Mas a existência de uma tarifa externa comum (TEC), que teoricamente confere ao bloco a condição de uma união aduaneira, implica compromissos entre seus membros a respeito de mudanças nas alíquotas aplicadas por cada um deles aos produtos importados.

Instituída em 1995 pelo Tratado de Assunção como instrumento essencial para aprofundar a integração entre os países do Mercosul, a TEC tem regras que asseguram alguma flexibilidade a cada membro, por meio de listas de exceções. O Brasil e a Argentina, por exemplo, podem ter até 100 produtos na lista. Para o Paraguai, a lista chega a 649. Assim, as exceções são tantas que a TEC se tornou uma colcha com muitos furos.

Também em situações excepcionais, como em casos de “proteção da vida e da saúde das pessoas”, as tarifas de importação podem ser alteradas. Em novembro do ano passado, o governo brasileiro invocou essa excepcionalidade para reduzir em 10% as alíquotas de 87% dos produtos que constam da lista de importações do País. Ficaram de fora automóveis e produtos do setor sucroalcooleiro, que já dispõem de regime especial de taxação. Na época, a alegação foi a de que, com o corte da tributação, poderia haver um “choque de importação” que minimizaria a alta dos preços internos.

Outro ponto de atrito dentro do bloco é a flexibilização da regra que proíbe um de seus membros de negociar isoladamente acordos bilaterais. Por essa regra, qualquer acordo comercial com terceiros países só pode ser feito com a participação de todos os membros do bloco. A Argentina resiste à mudança dessa regra. Sem acordo, o bloco não avança em negociações comerciais que poderiam estimular o comércio com o resto do mundo e o crescimento regional nem permite que alguns de seus membros o faça. E vai perdendo espaço e relevância na economia mundial.

Direito dos foliões não é absoluto

O Estado de S. Paulo

Blocos de carnaval, em nome da ‘livre manifestação’, ameaçam impor sua própria lei nas ruas de São Paulo

Depois de dois longos anos e do avanço da vacinação contra a covid-19, o arrefecimento da pandemia começa a trazer algum grau de normalidade para a vida da população. A reabertura das escolas e o retorno de eventos culturais, após a tão aguardada redução de casos e mortes pelo novo coronavírus, são ótimas notícias. Isso, no entanto, não é desculpa para que entidades que organizam blocos de rua simplesmente imponham à Prefeitura de São Paulo e aos paulistanos a realização do carnaval no feriado de Tiradentes. Parece inacreditável, mas é exatamente o que pode acontecer nos próximos dias na capital paulista.

A administração municipal expôs em detalhes as razões pelas quais não há tempo hábil para organizar a festa na data desejada. Qualquer evento de grande porte demanda um mínimo de planejamento prévio para ser realizado, e é evidente que duas semanas não são suficientes para tal. Reordenar o trânsito e escolher quais ruas serão abertas ou fechadas não é tarefa simples; guardas municipais e policiais precisam ser distribuídos para manter a ordem pública; garis têm trabalho mais do que dobrado para assegurar a limpeza das ruas; postos de saúde demandam equipes de plantão para atender o público; e banheiros químicos devem ser instalados. 

Para oferecer essa estrutura, a Prefeitura cogitou transferir o carnaval para outras datas, oferta por ora rejeitada pelos grupos. A gestão municipal disse, então, que autorizaria a saída dos blocos que tivessem condições de bancar sua estrutura e garantir a segurança de todos. Sem surpresa, as entidades se recusaram a assumir esses riscos e custos. Invocando a melhora das condições sanitárias, os grupos comparam o incomparável ao citar a realização do desfile das escolas no sambódromo e campeonatos esportivos em estádios como justificativa para liberar os blocos. 

Qualquer pessoa que já tenha ido a um bloco de carnaval em São Paulo sabe que não há a menor possibilidade de cumprir esses requisitos mínimos sem a presença do poder público – responsável por garantir que o direito de uns, os foliões, não se sobreponha ao direito dos outros, os moradores das ruas afetadas. A desordem, a sujeira e o desrespeito são a regra, como bem sabem os moradores da Vila Madalena e Pinheiros, que lidam há anos com o rastro de destruição deixado pelos blocos de carnaval na porta de suas casas.

Isso posto, os paulistanos que se preparem para dias de caos, pois terminou sem acordo a negociação entre a Prefeitura e as lideranças carnavalescas – que já avisaram, num comunicado que exala truculência, que colocarão os blocos na rua de qualquer maneira. “Temos a lei do nosso lado, pois a garantia da livre manifestação é direito constitucional”, diz a mensagem autoritária, ignorando que não há direito absoluto. Neste momento, é preciso lembrar que o carnaval representa a subversão da ordem apenas no plano simbólico. Para todos os efeitos, as leis e os padrões de civilidade continuam valendo.

Fed tenta pouso suave entre inflação e risco de recessão

Valor Econômico

A escalada inflacionária colocou o Fed nas cordas

Os índices de preços captaram agora as consequências plenas de um mês da invasão da Ucrânia pela Rússia e os resultados foram saltos da inflação em toda parte. Nos Estados Unidos, o Índice de Preços ao Consumidor em 12 meses atingiu 8,5% em março, o maior em 41 anos. Na zona do euro foi de 7,5%, apenas um pouco acima dos 7% no Reino Unido. O IPCA de março, de 1,62%, foi o maior para o mês desde o início do Plano Real, em 1995. As taxas, nas principais economias desenvolvidas e em várias das principais emergentes, estão muito elevadas e prenunciam altas generalizadas dos juros. A perspectiva de uma recessão em 2023 passou a ser considerada seriamente por investidores e consultorias.

A economia global mal havia se recuperado do dramático choque da covid-19 e teve de enfrentar o da guerra na Ucrânia, que provocou a disparada dos preços de energia e alimentos. A economia que teve o melhor desempenho pós-covid, a dos Estados Unidos, é a que registra a maior alta dos preços do mundo rico. Das atitudes do Federal Reserve dependerá boa parte do comportamento da economia global. Ontem, o Índice de Preços ao Produtor nos EUA teve variação anual de 11,2% e seu núcleo, de 7%.

As atividades na zona do euro, muito menos intensas que nos EUA, estão perdendo vigor. A Alemanha, maior economia do bloco, pode crescer 2,7% este ano - a previsão anterior era de 4,8% -, com uma inflação de 6,1%. A alta dos preços passou a desenhar um contraste gritante com a política monetária do Banco Central Europeu, que sustenta juros negativos de -0,5%. Cresceu o apoio no board a ações imediatas e mais duras do que a presidente Christine Lagarde parece disposta a aceitar.

A segunda maior economia do mundo, a China, não enfrenta problemas inflacionários, mas outros mais destrutivos para as atividades produtivas a curto prazo - a maior onda de covid-19 desde que o vírus surgiu no país em dezembro de 2018. A meta de crescimento de 5,5%, a menor em décadas, parece agora inalcançável diante dos lockdowns que se espalham por todo o país, com o mais severo de todos em Xangai, aonde fica o maior porto do mundo.

Os números chineses são sempre grandiosos. O banco Nomura estimou que 200 milhões de chineses estão hoje submetidos a algum tipo de quarentena. Apenas 13 das 100 cidades mais produtivas do país escaparam de restrições à liberdade de locomoção de pessoas e mercadorias. Assim, as importações de gás natural, petróleo e carvão em março foram as menores desde o primeiro ano da pandemia, em meio à contração da atividade industrial causada por cortes de produção generalizados, de metalúrgicas a empresas de tecnologia. As 100 maiores empresas do setor imobiliário tiveram queda de 53% nas vendas em março em relação ao mesmo mês de 2021 (Bloomberg, ontem).

A desaceleração chinesa é tão significativa que a Agência Internacional de Energia previu ontem que a queda de seu consumo de petróleo, somada à liberação de 240 milhões de barris de óleo por EUA, Reino Unido e Alemanha, será suficiente para compensar a falta do fornecimento da Rússia, segundo maior produtor mundial.

A escalada inflacionária colocou o Fed nas cordas. Os índices estão subindo por pressões de todo tipo: desemprego muito baixo, de 3,6%, salários estão subindo com força, embora ainda percam a corrida contra os preços; a oferta de bens não se normalizou por falta de componentes e distúrbios nas cadeias globais de produção; os preços da energia, com a guerra, dispararam em março, assim como o de algumas commodities agrícolas.

A virulência inflacionária põe em xeque a orientação do banco de atingir o juro neutro, ao redor 2,5%, com alguma rapidez. Jim Bullard, presidente do Fed de St. Louis, discorda e disse que será preciso que os juros entrem em território contracionista e subam a 3,5% caso o combate à inflação possa ser considerado sério. O Peterson Institute, levando em conta as estimativas de ajustes do Fed, calculou que o núcleo de inflação ao consumidor fechará este ano em 4,1% e em 2023, em 3%, ainda distante da meta de 2% do Fed.

A missão de levar a economia a um pouso suave, nos EUA e na Europa, traz enormes desafios. Pesquisa entre administradores de fundos com US$ 833 bilhões em carteira, feita pelo Bank of America, indicou que dois terços deles preveem estagflação e aumentou a fatia dos que enxergam recessão a caminho. A condução da política monetária pelo Fed nas próximas reuniões indicará se estes cenários se tornarão realidade ou não.

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