domingo, 14 de agosto de 2022

Dorrit Harazim – Datas

O Globo

Ao ligar para o 190, o menino Miguel estava coberto de razão. De certa forma a fome é, sim, caso de polícia. Ou deveria ser

O jurista Lee Bollinger ocupa a presidência da prestigiosa Universidade Columbia e pretende transmitir o cargo ao final do ano letivo de 2022-23 no Hemisfério Norte. Terá então presidido por duas décadas a instituição fincada em Nova York há 268 anos. Desse ciclo, ele leva algumas certezas. Uma delas poderia se referir ao clamor brasileiro até então entalado, mas que neste 11 de Agosto soltou a voz. “Uma universidade”, diz Bollinger, “não consegue sobreviver numa sociedade que não leva a sério os elementos básicos da vida cívica — o respeito à verdade, o respeito à razão como meio de busca da verdade e o compromisso com o princípio fundamental da igualdade humana”. Basta trocar o “universidade” por “democracia” e serve para nós também.

A leitura da Carta às Brasileiras e aos Brasileiros em Defesa do Estado Democrático de Direito foi urgente e necessária, além de ter peso histórico. O texto, repetido como coro nacional em vários sotaques e por várias gerações, embalou arcadas de inúmeras faculdades de Direito. Chegou a transbordar para a rua em algumas cidades do país, mas, por cair numa quinta-feira, portanto dia em que trabalhador trabalha, esse 11 de Agosto não pôde ser mais plural. Por autoexclusão, tampouco poderia contar com Bolsonaros de sangue ou fé política. Foi um chamamento à razão e ao direito à esperança democrática.

Nove dias antes, uma plantonista da Polícia Militar de Santa Luzia, Região Metropolitana de Belo Horizonte, atendera uma ligação noturna que acabou sacudindo um pouco o torpor nacional:

— Cento e Noventa. Qual sua emergência?

— Ô, senhor policial, é por causa que aqui em casa não tem nada pra gente comer e eu tô com fome. Minha mãe só tem farinha e fubá....

— Que idade você tem?

— 11 anos (...)

A guarnição militar se deslocou até o endereço indicado acreditando tratar-se de um caso de maus-tratos. Encontrou o menino Miguel, sua mãe e quatro irmãos, todos asseados. A moradia, humilde, estava bem cuidada. Os cinco estavam havia três dias na base da água e fubá e havia três semanas sem comprar comida. Com dinheiro do próprio bolso, os PMs foram até um mercado e compraram alimentos.

A isso se chama fome. E onde há fome não há vida cívica. Ao ligar para o 190, o menino Miguel estava coberto de razão. De certa forma a fome é, sim, caso de polícia. Ou deveria ser. Não para suprir o risco de falência alimentar que ameaça, segundo a ONU, 36% das famílias brasileiras em 2022, como fizeram por empatia os cidadãos PMs de Santa Luzia. E sim para apurar os pantagruélicos desvios de recursos públicos que saqueiam a nação em proporções históricas. Nesse contexto, o escândalo do pagamento de salários milionários a generais de pijama e oficiais próximos ao presidente, revelado pelo jornal O Estado de S. Paulo, soa obsceno, mesmo sendo legal. O número 190 é para chamadas de segurança pública. Um país com 33 milhões de pessoas sem ter o que comer todos os dias precisa repensar seu conceito de segurança pública.

A fome não é silenciosa, ela grita — nós é que não ouvimos. De nada adianta ostentar súbito impulso democrático e fazer selfie no Ato do 11 de Agosto se quem tem funcionário doméstico jamais se interessou sinceramente em saber como é a vida de quem há anos lhe serve a comida e limpa a casa. O fazer democrático precisa ser coletivo.

A meros 49 dias das eleições (e outras quatro semanas para um eventual segundo turno), vivemos na incerteza cambiante do resultado. Essa expectativa, recheada de ansiedade, é um baita privilégio por atestar a crucial diferença entre democracias eleitorais e autocracias eleitorais. Dependendo do resultado, trata-se de um privilégio que pode não ser permanente, como foi dito às vésperas da tentativa de reeleição de Donald Trump.

Por isso convém não confundir. A saudável incerteza quanto ao resultado da vontade popular tem no Ato do 11 de Agosto seu melhor parceiro. O próximo ato com data nacional histórica, o 7 de Setembro, foi sequestrado pelo presidente da República em 2021 para sua reeleição — com insurreição contra a urna eletrônica, se necessário.

Para quem não tem o que comer, nenhum dia é melhor que o outro.

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