sexta-feira, 12 de agosto de 2022

Flávia Oliveira - Em alerta, preparados e fortes

O Globo

Pela democracia, contra a tirania, o 11 de Agosto de 2022 tornou-se marco da maior manifestação da sociedade organizada brasileira desde o movimento das Diretas

 ‘Quero falar de uma coisa...’ Quando Milton Nascimento pronunciou esse verso, na noite do mesmo domingo em que Caetano Veloso completava 80 anos, todos na arena fomos transportados a 1984. “Coração de estudante”, composição com Wagner Tiso, foi tema da campanha Diretas Já, capítulo final de uma ditadura militar que legou ao Brasil brutalidade, hiperinflação e um projeto de autocrata. Bituca iniciou pelo Rio de Janeiro a turnê de despedida dos palcos. No primeiro show, em junho, a canção não estava no repertório. Foi incluída no bis das apresentações de agosto, finalizadas com punho erguido e o grito de “Viva a democracia” pelo artista, outra joia nacional nascida em 1942.

Quem cantava chorou, porque nenhum brasileiro que veio ao mundo a partir da Nova República ou que, desde 1989, vota direta e regularmente para presidente, governador e prefeito, senador, deputado e vereador imaginava ter de gritar de novo por democracia. Com ataques sistemáticos e crescentes às urnas eletrônicas, ao sistema de votação, a autoridades eleitorais, Jair Bolsonaro nos empurrou quatro décadas para trás.

O amargor do retrocesso explica certa tristeza no olhar de apoiadores da Carta às Brasileiras e aos Brasileiros. Ao mesmo tempo, há o brilho escancarado de estar — de novo, e sempre — do lado certo da História. Pela democracia, contra a tirania, o 11 de Agosto de 2022 tornou-se marco da maior manifestação da sociedade organizada brasileira desde o movimento das Diretas. A gota d’água foi o presidente reunir na residência oficial, o Palácio da Alvorada, representantes da diplomacia internacional para atacar o sistema eleitoral que a ele rendeu, além do comando da nação, sete mandatos como deputado.

Com a memória do texto de repúdio à ditadura lido pelo professor Goffredo da Silva Telles Júnior no pátio da Faculdade de Direito da USP em 1977, e ciente das ameaças que hoje rondam a democracia, um grupo de juristas decidiu elaborar a Carta de 2022. Esperavam não mais de 500 assinaturas. Ontem, passavam de 975 mil signatários, incluindo presidenciáveis, professores, economistas, banqueiros, artistas, escritores, desempregados, militares, policiais. Mais de uma centena de organizações empresariais, centrais sindicais e ONGs subscreveram manifesto liderado pela Fiesp.

A adesão de pessoas físicas e jurídicas do PIB brasileiro sugere que estabilidade democrática é também ativo no mundo dos negócios. Há mais evidências de apreço ao regime e ao sistema eleitoral. É recorde, 156 milhões, o total de eleitores em 2022. Grupos para quem a votação é facultativa também se habilitaram ao pleito de outubro em escala inédita: 2,1 milhões de jovens de 16 e 17 anos, quase 15 milhões de idosos com 70 ou mais de idade. Na pesquisa Datafolha de julho, 79% dos brasileiros diziam confiar nas urnas eletrônicas, seis pontos percentuais acima da consulta de maio.

Na onda de assinaturas, cantoras e cantores, atrizes e atores emprestaram imagem e voz a um vídeo com a íntegra da Carta lida ontem no Largo São Francisco, na capital paulista. Participaram tanto os que viveram tempos de exceção e sabem do arbítrio, quanto quem nasceu em décadas recentes e valoriza a liberdade: de Fernanda Montenegro, 92 anos, a Luísa Sonza, 24. Diferentes gerações da cultura brasileira irmanadas na defesa intransigente da democracia.

A Carta da USP nasceu da urgência de a sociedade brasileira se levantar, de forma maiúscula, inequívoca, contra o golpismo do presidente da República. Foi o ponto de convergência, o pacto de brasileiros que pensam diferente, votam diferente, vivem diferente. O ato na USP deixou claro que democracia é o regime que nos representa, mas há outros quereres. Beatriz Lourenço, representante da Coalizão Negra por Direitos, leu o manifesto que a articulação de mais de duas centenas de organizações, coletivos e entidades do movimento negro publicou em junho de 2020, primeiro ano de pandemia, quando Bolsonaro e seu grupo deram início aos ataques. “Enquanto houver racismo, não haverá democracia”, destacou.

Neca Setubal, socióloga, acionista do Itaú, articuladora da carta assinada por Fiesp e Febraban, lembrou a proteção ao meio ambiente. Bruna Brelaz discursou como primeira negra e amazônida a se tornar presidente da UNE. A professora Eunice de Jesus Prudente, uma das escolhidas para ler a Carta, emocionou ao se descrever como mulher preta, de religião de matriz africana, vestida de amarelo, cor de Oxum. Acenou à liberdade religiosa na semana em que a primeira-dama, Michelle Bolsonaro, evangélica, compartilhou em rede social conteúdo de intolerância.

Veio da jovem Manuela Morais, 19 anos, estudante de Direito, presidente do Centro Acadêmico XI de Agosto, a fala mais visceral, comovente, precisa. Negra, ela falou por seus pares: jovens negros periféricos. Citou estudantes da USP que tombaram no enfrentamento à ditadura: Arno Preis, Henrique Cintra Ferreira, Wânio José de Mattos, João Leonardo da Silva Rocha, Alexandre Vannucchi Leme. Lembrou brasileiros que o Estado Democrático não salvou: o menino João Pedro, alvo da violência policial; Chico Mendes, Dom Phillips e Bruno Pereira, da brutalidade contra defensores dos direitos humanos; Marielle Franco, vítima de feminicídio político.

“Queremos a antítese da democracia que temos hoje, em outros termos, a democracia da diversidade, a democracia dos trabalhadores, uma democracia real. Queremos a democracia dos povos”, disse. Ao fim, convocou os estudantes: “Estejam em alerta, preparados e fortes”.

Coração, juventude e fé.

 

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