sábado, 29 de abril de 2023

Dora Kramer - Culpa no cartório

Folha de S. Paulo

Bolsonaro pode acabar enredado pelas tramas que tece cheias de vaivéns

Os advogados de Jair Bolsonaro são por vezes injustiçados na avaliação de colegas de profissão pela ginástica que são obrigados a fazer para adaptar as falas do "paciente" às necessidades jurídicas dele.

O defeito não está nos defensores. Está no defendido, que durante quatro anos ateou fogo às próprias vestes e, por isso, tornou-se indefensável. Para ilustrar nem vamos ao conjunto completo da obra; bastam os casos das joias sauditas e do post "acidental" sobre fraude nas eleições.

Os sofridos causídicos ainda têm uma estrada longa e acidentada (e ponham acidentada nisso) pela frente tal a quantidade de enroscos judiciais a serem enfrentados em nome do cliente.

Não faço a mais pálida ideia de como farão para convencer o Tribunal Superior Eleitoral de que o então candidato à reeleição não abusou do poder na campanha de 2022. Vão precisar de sorte e da ajuda divina.

Auxílio assaz indispensável a uma banca obrigada a recorrer a argumentos pouco críveis. Sobre a postagem, restou alegar que o ex-presidente estava fora de si ao acusar tramoia no pleito 48 horas depois da tentativa de golpe sob a mesma alegação. Na primeira manifestação a respeito não se falou em medicação, só em inépcia digital.

Ao se perceber a difícil digestão da tese, os remédios entraram na cena. Se é verdade, por que não foi dito isso logo? E outra: não consta que o presidente estava sob efeito de morfina nas inúmeras vezes em que difamou a lisura das urnas eletrônicas.

No episódio das preciosas das arábias, além das nebulosas justificativas diante de fatos muito claros, surgiu a versão de que um dos kits de maravilhas ficou dois dias esquecido na cozinha do Alvorada, tal o desconhecimento sobre o conteúdo por parte dos ocupantes do Palácio do Planalto.

São tramas cheias de vaivéns cujo autor tece uma teia em vários capítulos e, no epílogo, termina enredado por ela.

 

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