domingo, 28 de maio de 2023

Bruno Boghossian - Lula fecha contrato com Lira

Folha de S. Paulo

Acerto devolve poder à Câmara sobre verba e deixa governo sob risco de dependência

O governo encarou mais uma semana em déficit na Câmara. No quarto andar do Planalto, a equipe de articulação política fazia uma medição da base aliada: segundo o mapa, Lula teria no plenário o apoio de 198 deputados —131 de partidos de esquerda e 67 "votos firmes" de legendas como MDB, PSD e União Brasil.

Depois de quase seis meses, o petista continua distante das 257 cadeiras que representam metade da Câmara e ainda mais longe das 308 para aprovar mudanças na Constituição. Não tem força para evitar derrotas em projetos simples, como a reestruturação dos ministérios, ou aprovar sozinho o arcabouço fiscal.

A vitória na discussão da nova regra de gastos foi o marco de um arranjo feito pelo governo para melhorar suas chances no Congresso. O Planalto fechou um contrato de longo prazo com Arthur Lira para obter um lote extra de votos nas pautas de interesse de Lula. Em troca, o presidente da Câmara recuperou o controle de parte do Orçamento.

O núcleo do governo adaptou suas projeções a esse consórcio. Em propostas importantes, Lula parte dos 198 deputados fiéis, e Lira entrega ao menos 100 votos do centrão, abastecido pela máquina política do presidente da Câmara.

Lira já retomou poder sobre a verba que ele distribuía sob a forma das emendas de relator até dezembro, quando o mecanismo foi proibido pelo STF. Agora, assessores do presidente da Câmara voltaram a receber pedidos de deputados para fazer a partilha de bilhões que serão distribuídos pelos ministérios de Lula.

Nem todo projeto entra no acordo. Lira avisou ao governo que não vai arrebanhar deputados em assuntos que considera ideológicos, como a revisão da pauta econômica aprovada pela Câmara nos últimos anos.

O Planalto buscou sobrevivência, mas o acordo tem um risco alto. Com ele, o governo mantém ativo o balcão de negócios do Orçamento, fortalece Lira e dá ao deputado um papel determinante na operação política do governo, mas só enquanto ele estiver interessado nesse jogo.

 

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