terça-feira, 9 de maio de 2023

Maria Cristina Fernandes - Fazenda de Haddad é a mais forte desde FHC

Valor Econômico

Se fizer o presidente do BC, ministro, além 100% da equipe, recupera a política monetária

indicação de Gabriel Galípolo para a diretoria de política monetária do Banco Central coloca Fernando Haddad na rota para se transformar como o ministro da Fazenda mais poderoso das últimas duas décadas. Desta lista exclui-se Fernando Henrique Cardoso, que, indicado para o cargo há exatos 30 anos, começou a subir a rampa do Planalto com o lançamento do Plano Real.

Se a construção da moeda ficou a cargo de André Lara Resende e Pérsio Arida, as condições políticas para sua implantação foram garantidas pelo ministro FHC, condição ainda por ser provada por Haddad com a chancela, guardadas as devidas proporções, do arcabouço fiscal e da reforma tributária.

Tem uma pedreira sem fim até que o ex-número 2 de Haddad se transforme em presidente do BC e retome, para o governo Luiz Inácio Lula da Silva, a condição usufruída nos seus dois primeiros mandatos com um nome de sua escolha para o cargo. Primeiro o Senado tem que aprovar Galípolo para a diretoria de política monetária. Depois a gestão de Haddad na Fazenda tem que se provar bem-sucedida para emplacar sua indicação para o lugar de Roberto Campos Neto.

Com a opção de Lula por um discurso mais à esquerda, batendo dia sim e no outro também no Comitê de Política Monetária, tem cabido a Haddad exercer a moderação que, nos primeiros governos lulistas, coube ao titular. O papel tem permitido que o ministro se aproxime do mercado financeiro e contenha sua precipitação por nomes à direita para suceder Lula.

Esta aproximação, inclusive com o presidente do Banco Central, porém, não passa por um time liberal. Nem tampouco de servidores de carreira. É uma equipe que pode chamar de sua. O ministro pôs seus auxiliares na Prefeitura de São Paulo numa nave e a aterrissou no Planalto Central.

O secretário da Receita, Robson Barreirinhas, foi o chefe da Procuradoria da Fazenda da gestão municipal na gestão de Haddad como prefeito. E foi investido pelo ministro da missão de desmontar os arranjos infralegais de benefícios fiscais sedimentados há décadas.

O secretário do Tesouro, Rogério Ceron, foi secretário de Finanças da mesma gestão. Galípolo não havia trabalhado com Haddad na prefeitura, mas aproximou-se do ministro por meio do economista Luiz Gonzaga Belluzzo, com quem escreveu três livros.

O governo Lula é o primeiro a assumir sem a prerrogativa de indicar o presidente do BC, em função da autonomia aprovada no primeiro ano da gestão Bolsonaro. Não há precedente, porém, para uma equipe de porteira fechada como esta que Haddad indicou.

Pedro Malan ficou oito anos no cargo (1995-2002). Emplacou três secretários do Tesouro, mas não fez o da Receita. O igualmente longevo Everardo Maciel não era de carreira da Receita e teve o beneplácito do vice-presidente, Marco Maciel, de quem era primo. Malan ainda enfrentou, de saída, as discordâncias intrépidas do ministro do Planejamento, José Serra.

Antonio Palocci, primeiro ministro da Fazenda de Lula, também enfrentou a retranca do ministro do Planejamento. Guido Mantega chegou ao cargo como economista das campanhas presidenciais do presidente petista. E, ao contrário da relação de Malan com Gustavo Franco, não dá pra dizer que Palocci tinha ascendência sobre Henrique Meirelles, o presidente do BC de Lula. Tampouco se pode dizer que Jorge Rachid, funcionário de carreira e mais longevo secretário da Receita de gestão petista (2002-2008), fosse um nome seu.

Como ficou oito anos no BC, Meirelles também colocou freios sobre a gestão do sucessor de Palocci, Guido Mantega. O ex-ministro permaneceu na gestão Dilma Rousseff mas foi sucessivamente atropelado pela ex-presidente, como bem relata o jornalista Thomas Traumann, em “O pior emprego do mundo” (Planeta, 2018).

Dilma falava diretamente com o secretário do Tesouro, Arno Augustin, e com a Receita, tanto na gestão Mantega quanto naquela de seu sucessor, Joaquim Levy. Este, ao longo do ano em que ficou na Fazenda, enfrentou as resistências do ministro do Planejamento, Nelson Barbosa, que acabaria por assumir o cargo até o impeachment.

Meirelles voltou à Fazenda com Michel Temer presidente. Não foi de sua equipe, porém, que saiu o presidente do Banco Central, Ilan Goldfajn, ou os secretários do Tesouro, Otávio Ladeira, ou da Receita, Jorge Rachid, que voltou ao cargo que ocupara na gestão petista.

Paulo Guedes incorporou as pastas do Planejamento e do Trabalho num superministério da Economia. Só conseguiu manter quadros como Mansueto Almeida, ex-secretário do Tesouro, na primeira metade do governo. Bruno Funchal, seu sucessor, ficou menos de um ano, e os dois seguintes foram recrutados na autarquia.

Na Receita, a situação foi mais dramática. A gestão Marcos Cintra foi abortada em nove meses. Seu sucessor, José Roberto Tostes Neto, servidor de carreira da Receita, caiu em 2021 por resistir à pressão de Flávio Bolsonaro pela troca na corregedoria do órgão.

Julio Cesar Vieira Gomes, sucessor de Tostes, foi recrutado na carreira da Receita, o que não o impediu de interceder, junto à alfândega do aeroporto de Guarulhos, para a liberação das joias sauditas.

Se o retrospecto confirma a força com a qual o ministro da Fazenda foi investido, tampouco deixa dúvidas de que todos os erros desta equipe “100% Haddad” serão debitados do titular da pasta e de suas ambições futuras.

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