segunda-feira, 19 de junho de 2023

Alex Ribeiro - Campos Neto não manda sozinho no Copom

Valor Econômico

Na hora de sinalizar queda dos juros, presidente do BC provavelmente ainda precisará convencer a maioria dos integrantes do colegiado

O presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, não manda sozinho no Comitê de Política Monetária (Copom). Quando ele chegar à conclusão de que está na hora de sinalizar a queda dos juros básicos - algo que não ficou claro nas suas declarações mais recentes, que foram recheadas de ambiguidade -, provavelmente ainda precisará convencer a maioria dos integrantes do colegiado. Atualmente, há diferenças relevantes de visão entre os diretores do BC.

O longo histórico de decisões unânimes tomadas desde 2016 passa a falsa ideia de que Campos Neto tem o controle absoluto do comitê e de que todos pensam uniformemente. Não é bem assim: costuma haver divergências relevantes, sobretudo nos inícios e finais de ciclos de alta ou de baixa de juros, ainda que suavizadas pela busca do consenso.

Poucos lembram, mas o atual ciclo de aperto monetário começou com uma divisão. Pelo menos três dos nove membros do Copom defenderam que, já em janeiro de 2021, a meta da taxa Selic começasse a subir. A maioria, porém, ainda não tinha feito a cabeça e votou por esperar um pouco para acumular mais informações. O juros subiram só em março.

No fim do ciclo de subida, ocorreu a única reunião com votos dissidentes dos últimos sete anos. Em setembro de 2022, os diretores de assuntos internacionais, Fernanda Guardado, e de organização do sistema financeiro, Renato Gomes, votaram por uma alta residual dos juros, de 13,75% ao ano para 14% ao ano. Com as expectativas de inflação acima das metas e muitas dúvidas sobre se o aperto monetário estava fazendo efeito para esfriar a economia e baixar a inflação, eles defenderam que o BC passasse uma mensagem final de maior austeridade.

Na pandemia, outras divergências. No começo do ciclo de distensão, alguns membros do Copom achavam que precisava cortar mais rápido. No fim do ciclo, havia quem defendesse levar a Selic abaixo de 2%, e só depois adotar uma sinalização de manter a política relaxada por mais tempo.

Tem passado meio batido que, nas três últimas reuniões do Copom, houve uma divergência importante sobre a chamada taxa neutra de juros - aquela que mantém a inflação estável e a economia em pleno emprego. Pelo menos três membros levantaram a hipótese de que a taxa neutra é maior do que os 4% ao ano usados nos modelos de projeção de inflação. Na prática, tudo mais constante, significa que seria preciso manter um aperto maior para obter um mesmo efeito para levar a inflação para as metas.

Essa divergência vem se acentuando ao ponto de, em maio, os membros mais conservadores defenderem que a taxa neutra parecia maior, diante da “resiliência na atividade brasileira e um processo desinflacionário lento”. Ou seja, a queda da inflação não estava ocorrendo como o esperado, na visão desses membros. Assim, para saber com mais certeza quando os juros podem cair, será preciso saber o que esses membros mais conservadores do Copom acharam dos mais recentes índices de inflação.

Gomes, que já era um suspeito natural de integrar a ala mais conservadora, ao lado de Guardado, disse em entrevista ao jornal “O Estado de S. Paulo” que o Copom não deve ter pressa para baixar os juros; que não basta olhar a inflação corrente; e que é preciso ter certeza de que o processo de desinflação está ocorrendo da forma esperada.

A entrevista foi interpretada, por alguns, como um torpedo teleguiado por Campos Neto para mandar uma mensagem mais conservadora, quando quase todo mundo no mercado está se animando com a possibilidade de ganhar dinheiro com apostas na baixa de juro. Mas não seria prudente subestimar Gomes: embora comande uma área técnica do Banco Central, ele é um dos quadros com formação e experiência econômica mais sólidas do comitê.

Por que Gomes falou? Aparentemente, os diretores do BC estão assumindo um perfil mais autônomo em relação ao presidente da instituição, talvez em preparação para a chegada de novos membros do Copom com visões econômicas radicalmente diferentes dos demais. Um deles é o secretário-executivo do Ministério da Fazenda, Gabriel Galipolo, um economista não ortodoxo indicado pelo presidente Lula para a diretoria de política monetária. Todos esses membros têm mandato e autonomia concedidos pelo Senado e, no Copom, não estão subordinados ao chefe do BC.

Os diretores do Banco Central já estão falando mais há algum tempo. Guardado concedeu a sua primeira entrevista ao Valor em abril; o diretor de política econômica, Diogo Guillen, conversou com “O Globo” em maio; e agora foi a vez de Gomes. Dessa forma, ninguém vai estranhar quando, por exemplo, Galipolo começar a emitir as suas opiniões sobre juros, caso seja confirmado para o cargo no Senado.

A tendência é que o Copom, ao longo do tempo, fique mais parecido com o Federal Reserve (Fed). Para saber a inclinação dos juros, os analistas econômicos acompanham as falas dos diversos membros, procuram identificar os mais influentes e os mais isolados. No Brasil, o Copom provavelmente seguirá sua tradição de buscar decisões unânimes, que dão mais credibilidade e potencializam a ação de política monetária, mas poderá haver dissidências mais frequentes, sobretudo no começo e no fim dos ciclos.

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