sexta-feira, 4 de agosto de 2023

Claudia Safatle - Depois do juro, falta melhorar a produtividade

Valor Econômico

Crescimento de longo prazo é um fenômeno mais de oferta do que de demanda

Com a queda da taxa de juros, o Banco Central abre as comportas da economia para aumentar o crescimento. Certo? Não. O crescimento econômico vem do aumento da produtividade, e não da queda dos juros. Os juros têm efeito de curto prazo, estimulando ou desestimulando a demanda. Mas o crescimento de longo prazo é um fenômeno mais de oferta do que de demanda. “O crescimento econômico não tem nada a ver com os juros”, disse Samuel Pessôa, pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia, da Fundação Getulio Vargas, FGV Ibre.

“Os juros reagem ao crescimento, mas eles não produzem crescimento”, sintetizou Pessôa.

Há países que têm uma situação crônica de carência de demanda agregada. Esse é caso do Japão, que desde meados dos anos 1990 vive nessa situação. Países que têm esse problema crônico vivem anos seguidos de deflação, taxa de juros zero etc.

Já no Brasil, “temos um problema de excesso de demanda sobre a oferta”, salienta Pessôa.

Na reunião do Comitê de Política Monetária, ocorrida nesta semana, o Banco Central cortou a taxa Selic em 0,50 ponto, de 13,75% ao ano para 13,25% ao ano. Foi uma decisão apertada. O placar foi de cinco votos a favor do corte de 0,50, inclusive o do presidente do BC, Roberto Campos Neto, e quatro votos por um corte menor, de 0,25 ponto.

Lula, que fez duras críticas ao Banco Central por não reduzir os juros nas reuniões passadas e na quarta feira -, enquanto o Copom se reunia ele dizia, em entrevista aos correspondentes estrangeiros, que o presidente do BC não entendia nada de Brasil -, ontem nada comentou.

Há quem diga que uma das aspirações do presidente é reproduzir o boom de consumo que teve nos mandatos anteriores dele, quando uma boa parcela da população trocou de geladeira, de televisão, viajou de avião e comprou carro.

Para isso, porém, é preciso crédito a juros mais baixos. Esse desejo seria maior do que criar as condições para um crescimento de longo prazo, fundamentado na expansão da oferta.

Ele pode sonhar com isso entre 2025 e 2026, mas não em 2024. O próximo ano ainda será de esforço para levar a taxa de inflação para a meta.

O crescimento baixo no Brasil é um fenômeno de oferta agregada, e não de demanda agregada, e aumentar a demanda porque se quer mais crescimento tem um resultado certo: vai se colher mais inflação.

A preocupação, hoje, não é crescer mas trazer a inflação na meta, segundo Pessôa, para quem “se formos bem-sucedidos, iniciaríamos um processo de aceleração do crescimento com a inflação na meta a partir de 2025/26. Crescer agora não é prioridade da política monetária”.

Silvia Matos, coordenadora do Boletim Macro do FGV Ibre, salienta que há uma longa jornada a ser seguida, em que a questão fiscal é o calcanhar de Aquiles. Faltam definições sobre diversas despesas, a exemplo do salário mínimo, qual afinal será a política de reajuste real do salário mínimo?

“A produtividade é baixa e, se vamos ficar inflando os salários, o custo unitário do trabalho aumenta e a inflação de serviços não cede”, teme ela.

Tem, ainda, a pressão do funcionalismo por aumento dos salários, sem reajustes desde 2019, quando começou o governo de Jair Bolsonaro. “Estamos ainda distantes do paraíso. Temos um bom purgatório pela frente”, diz Silvia Matos, que lembra, também, que com a queda dos preços das commodities, cai a arrecadação de impostos e contribuições, e toda a política fiscal está ancorada no aumento das receitas.

“Para superarmos nossos problemas de baixo crescimento temos que ter reformas estruturais para aumentarmos a produtividade”, diz o pesquisador do FGV Ibre.

A reforma tributária é a coisa mais importante para garantirmos um crescimento maior da produtividade do trabalho nos próximos 20 anos, ressalta ele. “A reforma tributária é um grande gol de placa”, concorda Silvia Matos. “ A meta futura de inflação de 3%, também”, acrescenta ela, para quem “ estamos na primeira etapa da queda dos juros reais”.

Ela receia, porém, que o governo interrompa antes da hora a política econômica que está seguindo, já se dando por satisfeito e, assim, coloque os ganhos acumulados até aqui a perder.

 

Um comentário:

  1. Se não deu tempo de ler mais nada, mas deu para ler este artigo com atenção, quem pode fazer isso aproveitou bem o tempo de leitura.

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