segunda-feira, 25 de dezembro de 2023

Edu Lyra - Solidariedade para a vida toda

O Globo

Ser solidário exige um engajamento mais sério com a causa social, pois a pobreza não será vencida sem um esforço constante

No começo de maio, a Organização Mundial da Saúde (OMS) declarou o fim da emergência provocada pela Covid-19, que passou a ser considerada mais uma doença endêmica como tantas outras. Era, por assim dizer, o fim “oficial” da pandemia.

Isso significa que 2023 foi o primeiro ano em que pudemos realmente voltar à normalidade. É claro que, desde as bem-sucedidas campanhas de vacinação, a crise sanitária já estava controlada. Desde o ano anterior, vivíamos em clima de relativa normalidade, mas 2023 selou essa conjuntura como primeiro ano pós-pandemia de fato.

Com isso, pudemos enfim respirar e atravessar um período sem grandes crises humanitárias, certo? Infelizmente, não.

Ao menos duas tragédias ocorridas em 2023 ficarão na memória dos brasileiros: no feriado de carnaval, temporais devastaram o litoral paulista, com deslizamentos arrastando bairros inteiros de São Sebastião. Mais tarde, em junho, um ciclone extratropical atingiu os estados de Santa Catarina e Rio Grande do Sul, provocando alagamentos que se tornariam, segundo a Defesa Civil do RS, o maior desastre natural em quatro décadas.

Há mais: atravessamos uma onda de calor sem precedentes, que impacta de maneira desproporcional quem vive em moradias insalubres e bairros menos arborizados. Sem contar, é claro, nossos problemas crônicos, como pobreza extrema, desigualdade, desemprego (sobretudo entre os jovens), racismo e tantos outros.

Longe de mim ser um “estraga prazeres”, ainda mais nesta época festiva do ano. Relembro esses fatos simplesmente para que possamos tirar deles algumas lições valiosas neste momento de reflexão, de fechamento de ciclo e preparação para o ano que chega.

Não podemos mais nos dar ao luxo de encarar cada crise como um fato isolado. Os problemas sociais brasileiros são históricos, estruturais e pedem soluções que mirem o longo prazo.

Se ainda havia alguma dúvida disso, as mudanças climáticas adicionam uma nova camada de complexidade a nossos desafios. Eventos climáticos extremos, como os que atingiram o litoral paulista e a Região Sul, deixaram de ser esporádicos. As cidades brasileiras estão preparadas para lidar com chuvas, ondas de calor, frentes frias e estiagens mais ou menos regulares? E a favela, está preparada?

Todo o trabalho da Gerando Falcões ao longo de 2023 se pautou por essa preocupação. Este é o espírito de um projeto como o Favela 3D: reurbanizar o território das favelas e oferecer, em parceria com o poder público e a iniciativa privada, uma trilha de superação permanente da pobreza, um caminho de emancipação, não uma simples “ajuda”.

Creio que essa é, afinal, a grande lição dos últimos meses: ser solidário significa mais que ajudar uma comunidade durante crises agudas. Diante dos desafios econômicos e ambientais colocados, ser solidário para valer exige um engajamento mais sério com a causa social, pois a pobreza não será vencida sem um esforço constante, persistente, até teimoso por parte de todos.

Nesta última coluna do ano deixo, portanto, um convite: em 2024, transformar o impulso solidário em missão de vida.

Feliz Natal e tamojunto!

 

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