terça-feira, 27 de fevereiro de 2024

Míriam Leitão - A encrenca que o ato não resolve

O Globo

Bolsonaro mostra que consegue levar um grande público às ruas, mas não é com aglomeração que ele se livrará das contas que têm que prestar à Justiça

O ex-presidente Jair Bolsonaro pretendia com a convocação de seus seguidores para a Paulista ter uma “fotografia”, como disse. Demonstrou que consegue levar muita gente para a rua e isso já se sabia. Contudo, não é de mais uma aglomeração que ele precisa. Bolsonaro tem que saber como responder a todas as dúvidas sobre a tentativa de golpe de estado que ele conduziu. Ele produziu contra si abundantes provas. Essa é a encrenca que a manifestação não resolve. No ato, ele acabou comentando o que alegava desconhecer, a minuta do decreto golpista. O ex-governante disse que aquele documento não era golpe, apenas previa estado de sítio, estado de defesa, convocação do conselho da República. Tudo previsto na Constituição, como ele disse. No final, isso o complica um pouco mais na investigação da Polícia Federal.

Com a fotografia ele queria, claro, ameaçar quem tem a responsabilidade de pedir e determinar sua prisão. Esse era o objetivo, mostrar que ele tem o povo ao lado dele. Não surtirá efeito. O que precisa agora é ter bons argumentos para os seus interrogatórios, boas defesas para os processos aos quais responde e responderá pelos crimes que cometeu. Bolsonaro não falou diretamente contra o ministro Alexandre de Moraes e terceirizou esse papel para Silas Malafaia, que distorceu a história recente do país.

Mentiu-se muito naquele palanque. Ao contrário do que disse o governador Tarcísio de Freitas, não foi o governo Bolsonaro que fez o Pix. Foi idealizado pela burocracia do Banco Central e os estudos começaram no governo Michel Temer. Não foi Bolsonaro quem levou água para o Nordeste, outra distorção de Tarcísio. Todos sabem no Brasil que o projeto de transposição do Rio São Francisco foi obra dos governos Lula e Dilma, que ficaram com o ônus das muitas críticas que o plano recebeu. O discurso do governador de São Paulo tinha o tom de campanha, indicando que deseja herdar o espólio bolsonarista em 2026. O problema é que terá que afastar-se do extremismo de direita se quiser ser um candidato viável.

Bolsonaro disse que houve três meses de deflação em 2022. A verdade econômica não é esta. A deflação foi conseguida com a desoneração irresponsável dos combustíveis fósseis que, além de agredir o meio ambiente, ofendeu a responsabilidade fiscal. Foi artificial. O ministro Fernando Haddad teve que reonerar os combustíveis com os impostos federais e, além disso, compensar os estados pelo ICMS subtraído. E conseguiu fazê-lo com a inflação em queda. Isso sim é difícil.

Em sua fala desconexa, cheia de frases mal formuladas e erros gramaticais, Bolsonaro mostrou que já não sabe para onde ir. Está na defensiva. É um investigado sem passaporte, um político sem mandato e inelegível. Mas que consegue levar para a rua seus seguidores em grande número.

O pedido de anistia que ele fez é, na verdade, para si próprio. Ele sabe que se for “passar a borracha em tudo” e aprovar um projeto de anistia para quem participou do 8 de janeiro, ele mesmo será um dos beneficiados. E todos os generais e autoridades que o cercaram. Tenta repetir o que fez a ditadura que embutiu no projeto de anistia aos presos políticos uma auto-anistia para os criminosos do regime militar.

Curiosa a definição dele de golpe, porque mostra como ele tentou tudo. “O que é golpe? Golpe é tanque na rua, é arma, é conspiração. É trazer classes políticas para o seu lado, empresariais. Isso que é golpe. Nada disso foi feito no Brasil. Agora, o golpe é porque tem uma minuta de um decreto de estado de defesa. Golpe usando a Constituição? Tenha santa paciência. Deixo claro que estado de sítio começa com o presidente da República convocando os conselhos da República e da defesa. Isso foi feito? Não”.

Foi exatamente o cardápio que ele seguiu. Conspirou para que as Forças Armadas aderissem e houvesse tanque nas ruas, armou os CACs para que eles fossem a força auxiliar, tentou atrair todos os políticos, inclusive com a derrama do orçamento secreto, cooptou empresários que financiaram atos golpistas e que agora terão que responder por seus atos. Procurou brechas na Constituição, distorcendo o sentido do artigo 142. Bolsonaro tentou todas as possibilidades e analisou todos os caminhos para um golpe. A Paulista, mesmo lotada, não o livrará das contas que tem de prestar à Justiça.


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