quinta-feira, 28 de março de 2024

Míriam Leitão - Nísia no meio de crise e epidemia

O Globo

A ministra Nísia enfrenta crises e epidemia e preconceito contra a mulher, mas diz que o governo tem dado respostas e recupera a saúde

O Brasil comprou todo o estoque de vacina da dengue de laboratório japonês, que tem capacidade limitada de produção. No futuro, haverá a vacina que está sendo desenvolvida pelo Butantã. E a Fiocruz poderá vir a se associar para produzir a Qdenga no Brasil. Não é verdade que morreram mais Yanomami no atual governo do que no anterior. Já está em curso o trabalho de recuperação dos hospitais federais no Rio. São respostas da ministra da Saúde, Nísia Trindade, a algumas das várias perguntas que recaem sobre a sua administração.

Em entrevista que me concedeu na GloboNews, a ministra explicou os problemas que tem enfrentado nas áreas da saúde e da política. O país vive uma epidemia de dengue com mais de dois milhões de casos, e muita subnotificação. O governo tem feito campanhas, mas a vacinação cobre apenas uma pequena faixa etária de 10 a 14 anos, que é o grupo mais vulnerável.

— A dengue já existia no passado, mas o retorno nessa forma de epidemia é um fenômeno de 40 anos. O fato de termos ultrapassado já o número de casos de todo o ano de 2023, e de ter começado na região Centro-Oeste, Sudeste e Sul essa proliferação maior do Aedes Aegypti, em parte, é resultado de fatores ambientais, a mudança climática, e o El Niño. Hoje o mais eficiente ainda é a campanha contra os focos transmissores, mas estamos fazendo um novo guia para orientar os procedimentos contra a dengue. Temos uma linha também de tecnologias mais modernas de controle do mosquito, como a bactéria Wolbachia, que foi usada em Niterói, com grande sucesso.

Sobre a morte dos ianomâmis, a ministra disse que o assunto foi tratado na primeira reunião ministerial e naquela viagem com 20 dias de mandato, quando foi decretada “emergência sanitária nacional”.

—Não é verdade que morreram mais pessoas no nosso governo. É importante esclarecer. Muitas vezes a certidão de nascimento e óbito de pessoa do povo Yanomami é feita pelo profissional de saúde. Se não está tendo essa assistência de forma adequada (como no governo passado) o registro não é feito. Então não dá para comparar. É falso que morreram mais indígenas. Levará tempo até termos a recuperação do modo de vida Yanomami, com a descontaminação do mercúrio e a recuperação dos rios, das águas, da pequena agricultura. O trabalho continua e agora de forma mais integrada na Casa de Governo instalada em Roraima. No primeiro ano, conseguimos reabrir seis polos de saúde indígena que estavam fechados.

Sobre os hospitais federais do Rio, a ministra disse que já há ações de curto prazo para reduzir filas de cirurgia e de procedimentos.

—O trabalho do grupo executivo terá resultados em um mês, mas eu estimo que em quatro meses vários dos problemas apontados sejam sanados. Fizemos ações no primeiro ano, mas a situação dos hospitais federais era dramática. Na terça-feira, tive reunião com os secretários de Saúde do Rio e do Estado do Rio, os ex-ministros Temporão (José Gomes) e Arthur Chioro, especialistas em gestão hospitalar, a UFRJ, os institutos nacionais da Fiocruz, todos querendo ajudar. São hospitais de antes do SUS e a determinação do presidente Lula é para que eles voltem a ser centros de excelência.

Quando perguntei sobre as crises e críticas políticas, a ministra disse que terminou o ano passado com muitos elogios pela recuperação de programas governamentais que haviam sido abandonados como o Mais Médicos, Farmácia Popular, e Saúde da Família. Existem já 28 mil novos profissionais no Mais Médicos, desses 25 mil já em atividade e três mil em treinamento, o que ela diz que é um recorde.

—Chega esse ano e há várias críticas, como você falou. Eu as enfrento fortalecendo o SUS e dialogando com todos os setores.

Perguntei se parte das reclamações vinha do fato de ela ser mulher, a primeira a assumir o Ministério da Saúde.

—Sem dúvida. Esse é um elemento muito importante. Nós, mulheres, enfrentamos críticas ao nosso modo de ser, de fazer gestão, de falar. Se um homem chora no espaço público é sensível. Se uma mulher chora, ela é fraca. Se um homem bate na mesa é normal, é firme, exerce sua autoridade. Se uma mulher faz a mesma coisa é uma descontrolada. O ambiente é muito refratário a uma mulher num ministério tão importante. Mas eu sou pessoa com trajetória na saúde pública, recebi uma missão, a exerço com determinação e sabendo que represento uma visão de país. Por isso, me sinto firme.

 

Um comentário: