O Estado de S. Paulo
Tarcísio pede desculpas por câmeras e política de segurança. Mas Derrite fica?
Depois da série de cenas de barbárie da polícia de São Paulo, tida e havida como a melhor e mais preparada do País, o governador Tarcísio Gomes de Freitas teve de fazer um “meia volta, volver”, admitir o “equívoco” de se opor ao uso de câmeras corporais e, por fim, pedir desculpas públicas pela sua política de segurança pública, suas declarações sobre o tema e os efeitos degradantes na tropa. Ok. E o executor dessa política, Guilherme Derrite, continua?
Indicado – ou imposto? – por Bolsonaro para a
Secretaria de Segurança, Derrite simboliza, propaga e executa uma política de
segurança reprovada por governos, especialistas e cidadãos no mundo
democrático, porque junta brutalidade e ilegalidade com ineficácia. As
estatísticas mostram que a violência policial disparou em São Paulo. Só
coincidência?
Como ele diz, é “vergonhoso” um policial
matar menos de três pessoas em cinco anos. Como a revista Piauí apurou, ele já
foi investigado por operações policiais que resultaram em 16 homicídios. E,
como seu currículo informa, ele foi afastado da Rota por “excesso de
letalidade”. Alguém tão obcecado por homicídios pode ser secretário de
“segurança”? A polícia paulista parece ter se sentido liberada para matar,
espancar e humilhar bandidos e não bandidos – desde que pobres e
preferencialmente pretos.
A carreira policial, tão fundamental, é
difícil, sofrida, perigosa e exige muito, inclusive da própria família, sempre
sob tensão. Não justifica, porém, um policial matar com onze tiros pelas costas
um rapaz desarmado num supermercado, jogar de uma ponte um motoqueiro por não
parar numa blitz ou matar um cidadão já rendido no chão. Nem dar socos,
pontapés e um golpe de cassetete na testa de uma mulher de 63 anos e aplicar um
mata-leão, que é proibido, em outra. Sem contar os ex-policiais rodoviários de Sergipe,
condenados pela morte de Genivaldo Santos, com gás, no porta-malas de um
carro.Com a adesão de Tarcísio ao plano federal de câmeras em uniformes
policiais, São Paulo vai receber R$ 27 e tentar reverter os “excessos de
letalidade” incentivados por Derrite no principal Estado do País, décadas
depois do “bandido bom é bandido morto”. Aliás, a Corte Interamericana de
Direitos Humanos acaba de condenar o Estado brasileiro pelo “desaparecimento”
de onze jovens na favela de Acari, no Rio, em 1990. Nenhum corpo foi achado,
nenhum culpado foi preso e os dois parentes que ousaram investigar por conta
própria foram executados. Depois de 34 anos, o que mudou? O crime organizado e
as milícias se fortalecem ano a ano e a polícia mata e morre numa guerra sem
fim.

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