Folha de S. Paulo
Ataques do presidente à ordem estabelecida
servirão para testar teses de economistas ligados à escola institucionalista
Donald Trump não é muito benquisto no mundo acadêmico, mas ele está prestando um serviço à ciência, mais especificamente à ciência econômica. É que sua administração ataca tantos aspectos da ordem estabelecida e de forma tão espetacular que ela pode, a exemplo de terremotos e outras calamidades, ser vista como um experimento natural, útil para testar as previsões de economistas institucionalistas.
Para ficarmos só em medidas tomadas nesta
semana, Trump acaba de impor à Índia uma sobretaxa alfandegária de 50%, porque Nova Déli,
que é governada por seu aliado, o também autocrata direitista Narendra Modi,
compra petróleo da Rússia,
regida por outro ditador nacionalista, Vladimir
Putin, do qual o presidente americano busca aproximar-se. Não há
como não ficar confuso aqui, o que significa que líderes nacionais, de direita,
esquerda ou de centro, deverão procurar rotas de inserção mundial que não
passem pelos EUA.
No plano interno, Trump mandou
demitir, e de forma provavelmente ilegal, Lisa Cook, que integra o
conselho de governadores do Fed, o banco central americano. A medida é
considerada um golpe inédito na independência do órgão, de cuja credibilidade
dependem o controle da inflação e a boa aceitação dos títulos públicos
americanos, ou seja, do dólar. É praticamente um haraquiri institucional.
Nessa barafunda, se os EUA apresentarem
crescimento econômico e fortalecerem sua posição como líderes globais, então
poderemos dizer que os institucionalistas pelo menos exageravam ao afirmar que
itens como respeito a regras estáveis, liberdade para agir e divergir e um
sistema de freios e contrapesos aos Poderes constitucionais são indispensáveis
para o desenvolvimento.
Se, por outro lado —e como me parece mais
provável—, os EUA registrarem perdas na economia,
na produção científica, na liderança geopolítica e na própria higidez
democrática, aí as teses dos institucionalistas terão sobrevivido para ser
submetidas a novos testes, que, esperemos, não venham na forma de calamidade.
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