sexta-feira, 29 de agosto de 2025

A contribuição de Trump para a ciência, por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Ataques do presidente à ordem estabelecida servirão para testar teses de economistas ligados à escola institucionalista

Donald Trump não é muito benquisto no mundo acadêmico, mas ele está prestando um serviço à ciência, mais especificamente à ciência econômica. É que sua administração ataca tantos aspectos da ordem estabelecida e de forma tão espetacular que ela pode, a exemplo de terremotos e outras calamidades, ser vista como um experimento natural, útil para testar as previsões de economistas institucionalistas.

Para ficarmos só em medidas tomadas nesta semana, Trump acaba de impor à Índia uma sobretaxa alfandegária de 50%, porque Nova Déli, que é governada por seu aliado, o também autocrata direitista Narendra Modi, compra petróleo da Rússia, regida por outro ditador nacionalista, Vladimir Putin, do qual o presidente americano busca aproximar-se. Não há como não ficar confuso aqui, o que significa que líderes nacionais, de direita, esquerda ou de centro, deverão procurar rotas de inserção mundial que não passem pelos EUA.

No plano interno, Trump mandou demitir, e de forma provavelmente ilegal, Lisa Cook, que integra o conselho de governadores do Fed, o banco central americano. A medida é considerada um golpe inédito na independência do órgão, de cuja credibilidade dependem o controle da inflação e a boa aceitação dos títulos públicos americanos, ou seja, do dólar. É praticamente um haraquiri institucional.

Nessa barafunda, se os EUA apresentarem crescimento econômico e fortalecerem sua posição como líderes globais, então poderemos dizer que os institucionalistas pelo menos exageravam ao afirmar que itens como respeito a regras estáveis, liberdade para agir e divergir e um sistema de freios e contrapesos aos Poderes constitucionais são indispensáveis para o desenvolvimento.

Se, por outro lado —e como me parece mais provável—, os EUA registrarem perdas na economia, na produção científica, na liderança geopolítica e na própria higidez democrática, aí as teses dos institucionalistas terão sobrevivido para ser submetidas a novos testes, que, esperemos, não venham na forma de calamidade.

 

 

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