O Estado de S. Paulo
Presidente dos EUA coloca independência do Fed em risco sob omissão do Judiciário e do mercado
O presidente americano, Donald Trump, mantém
os seus ataques à economia americana, sob a omissão do Poder Judiciário e a
complacência do mercado financeiro internacional. A dúvida é se apenas os EUA
pagarão a conta pelos seus erros ou se ele provocará tanta instabilidade que levará
o mundo a reboque.
Trump já subiu tarifas, desorganizou o comércio externo, ofendeu aliados históricos, expulsou imigrantes, demitiu a presidente do órgão responsável pelas estatísticas econômicas e agora, após meses de insultos e pressões sobre Jerome
Powell, o presidente do Fed, executou uma
ordem de demissão ilegal contra Lisa Cook, a primeira mulher negra a ocupar uma
cadeira no conselho de diretores do BC americano.
Isso para ficar apenas em uma pequena lista
de barbaridades cometidas por Trump em poucos meses de mandato. O que mais
impressiona sobre a situação americana é a complacência da Justiça e a
incapacidade de o mercado financeiro enxergar esse risco.
Trump quer mandar no Fed para que os juros
caiam pela sua vontade, ainda que a inflação esteja acima da meta, e ainda que
todas as suas políticas coloquem pressão sobre os preços. Ao perseguir
imigrantes, ele diminui a oferta de mão de obra. Ao subir tarifas, encarece
produtos importados. Ao colocar o Fed sob a sua mira, enfraquece o dólar e
afeta as expectativas de inflação.
O Brasil conquistou a independência do BC a
duras penas, após anos de forte resistência do Partido dos Trabalhadores e de
outros partidos de esquerda. A proposta, aprovada pelo Congresso na gestão de
Jair Bolsonaro, se mostrou crucial para a estabilidade monetária durante a
transição entre os dois governos e a tentativa de golpe de Estado do 8 de
Janeiro.
Nos EUA, é a extrema direita trumpista que
coloca a independência sob risco. Resta saber qual seria a reação dos
investidores se um presidente democrata tivesse audácia semelhante. Ao que
parece, há dois pesos e duas medidas com a precificação de risco pelo mercado.
Como apontou o economista Paul Krugman, Trump
aproxima os EUA da economia da Turquia, onde o autocrata Recep Tayyip Erdogan
interveio no BC e levou o país a uma inflação de 85%. Ninguém espera que o
nível de preços nos EUA chegue a esse patamar, mas a simples desconfiança já
pressionou as curvas de juros de longo prazo.
Lisa Cook disse que sua demissão é ilegal e
prometeu brigar na Justiça para permanecer no cargo. Sua luta será decisiva não
só para os EUA, mas para toda economia mundial.
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