quinta-feira, 28 de agosto de 2025

Ameaças em série de Trump, por Alvaro Gribel

O Estado de S. Paulo

Presidente dos EUA coloca independência do Fed em risco sob omissão do Judiciário e do mercado

O presidente americano, Donald Trump, mantém os seus ataques à economia americana, sob a omissão do Poder Judiciário e a complacência do mercado financeiro internacional. A dúvida é se apenas os EUA pagarão a conta pelos seus erros ou se ele provocará tanta instabilidade que levará o mundo a reboque.

Trump já subiu tarifas, desorganizou o comércio externo, ofendeu aliados históricos, expulsou imigrantes, demitiu a presidente do órgão responsável pelas estatísticas econômicas e agora, após meses de insultos e pressões sobre Jerome

Powell, o presidente do Fed, executou uma ordem de demissão ilegal contra Lisa Cook, a primeira mulher negra a ocupar uma cadeira no conselho de diretores do BC americano.

Isso para ficar apenas em uma pequena lista de barbaridades cometidas por Trump em poucos meses de mandato. O que mais impressiona sobre a situação americana é a complacência da Justiça e a incapacidade de o mercado financeiro enxergar esse risco.

Trump quer mandar no Fed para que os juros caiam pela sua vontade, ainda que a inflação esteja acima da meta, e ainda que todas as suas políticas coloquem pressão sobre os preços. Ao perseguir imigrantes, ele diminui a oferta de mão de obra. Ao subir tarifas, encarece produtos importados. Ao colocar o Fed sob a sua mira, enfraquece o dólar e afeta as expectativas de inflação.

O Brasil conquistou a independência do BC a duras penas, após anos de forte resistência do Partido dos Trabalhadores e de outros partidos de esquerda. A proposta, aprovada pelo Congresso na gestão de Jair Bolsonaro, se mostrou crucial para a estabilidade monetária durante a transição entre os dois governos e a tentativa de golpe de Estado do 8 de Janeiro.

Nos EUA, é a extrema direita trumpista que coloca a independência sob risco. Resta saber qual seria a reação dos investidores se um presidente democrata tivesse audácia semelhante. Ao que parece, há dois pesos e duas medidas com a precificação de risco pelo mercado.

Como apontou o economista Paul Krugman, Trump aproxima os EUA da economia da Turquia, onde o autocrata Recep Tayyip Erdogan interveio no BC e levou o país a uma inflação de 85%. Ninguém espera que o nível de preços nos EUA chegue a esse patamar, mas a simples desconfiança já pressionou as curvas de juros de longo prazo.

Lisa Cook disse que sua demissão é ilegal e prometeu brigar na Justiça para permanecer no cargo. Sua luta será decisiva não só para os EUA, mas para toda economia mundial.

 

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