O Estado de S. Paulo
Ainda não está no horizonte uma candidatura de centro, honesta, atilada e com efetiva vocação de liderança
Para o texto de hoje, já entrando no ano
eleitoral, rememoro alguns fatos e exponho algumas opiniões a esmo, espero que
o leitor neles encontre alguma utilidade.
Meu ponto de partida é uma avaliação pessoal: os despautérios perpetrados pelo inquilino da Casa Branca deram a Lula uma chance de ouro de encenar seu papel predileto, o de estadista, e estancaram a queda livre que as pesquisas lhe vinham indicando. De qualquer forma, tenho para mim que a conquista do novo mandato presidencial a que ele almeja manterá a economia brasileira patinando por mais uns 20 anos, ou mais. Deixo aos leitores o encargo de ponderar se tal cenário é concebível.
Não obstante o que vai dito no parágrafo
anterior, não começarei numa nota pessimista. Entendo que o sr. Bolsonaro, tendo
contas a prestar à Justiça, não participará do pleito, desfazendo-se, assim, a
polarização política idiota que nos assola já há vários anos. Melhor ainda, a
pesquisa Quaest divulgada por este jornal no dia 23 do corrente mostra diversos
titulares de cargos eletivos tratando de se expor ao público, ou seja, tratando
de se tornar “presidenciáveis”. Em primeiro lugar aparece o governador de
Goiás, Ronaldo Caiado, cujo governo parece bem avaliado nas áreas de segurança
e educação. Neste momento, as pesquisas devem ser examinadas com cautela, mas o
que aí vai dito já me parece melhor do que a polarização cretina que prevaleceu
nos últimos anos. Ainda não está no horizonte uma candidatura de centro,
honesta, atilada e com efetiva vocação de liderança. Nem é certo que o
eleitorado de classe média entrará de fato no ringue, em vez de ostentar mais
uma vez sua indiferença, preguiça ou que nome tenha.
Os fatos relevantes para o debate eleitoral
não se restringem à discussão sobre candidaturas e pesquisas. Decisões específicas
de governo, o tratamento que grandes organizações (a indústria imobiliária, por
exemplo) proporciona (ou impinge) aos cidadãos, a eficiência dos serviços
públicos, obras ornamentais e pontos assemelháveis podem transformar a eleição
numa efetiva contenda cívica ou numa triste modorra.
Permitam-me relatar alguns fatos que me
afetaram diretamente. Décadas atrás, quando fui estudar nos Estados Unidos, o
que me foi exigido para alugar um apartamento foi tão somente pagar adiantado o
primeiro mês. Três dias depois, a companhia de telefone instalou o aparelho que
eu havia solicitado, com o qual, aliás, nunca tive problema algum. Dias atrás,
cá na 8.ª economia do mundo, precisei resolver um problema banal de alteração
do número. A companhia exigiu minha presença física e a de minha mulher, toda a
documentação pessoal, naturalmente, e mais alguma coisa referente ao histórico
de pagamentos. Atendido por três funcionários, consegui finalmente – após duas
horas e meia – resolver o problema. Não sei como andam as coisas nos Estados
Unidos, mas se a qualidade de tais serviços caiu tanto quanto a do sistema
político, é possível que agora estejamos nivelados.
Claro, fatos como o acima relatado dizem
respeito a uma minúscula parcela da coletividade. Falemos da principal
metrópole da América do Sul, São Paulo, não isenta de chocantes curiosidades.
Cientes de que dois corpos não podem ocupar o mesmo lugar no espaço, deixemos
de lado o trânsito. Mas falemos dos aeroportos. Temos dois – Congonhas e
Guarulhos –, ambos horrorosos e disfuncionais. Será que, até hoje, nenhuma
mente iluminada terá pensado numa conexão ferroviária moderna ligando a capital
a Viracopos, e lá desembarcando os passageiros praticamente nas portas das
aeronaves? Feito isso, Congonhas poderia se transformar no que mais precisamos:
um belo parque, com quiosques, lindos bancos de madeira como os de Inhotim (MG)
e, naturalmente, concessão de espaços a agentes privados para cobrir o custo. O
aeroporto internacional (Guarulhos) tem sobre Congonhas uma medonha disfunção
adicional: o trânsito. A depender do dia ou das condições atmosféricas, os
viajantes muitas vezes precisam se precaver em pelo menos três horas. Em lá
chegando, claro, serão prontamente atendidos e disporão de excelentes
acomodações para o merecido relaxamento...
Trocar os aeroportos da capital por Viracopos
e uma linha ferroviária é obviamente trocar seis por uma dúzia. Mas o ideal seria
cuidar também da estética. A cidade é bonita, mas ficaria um pouco mais se as
autoridades impedissem a pichação de muros e prédios, com a vantagem adicional
de livrar jovens desmiolados dos riscos que correm.
O que não posso deixar de lado é o Memorial da
América Latina. O Brasil deve ser o único país do mundo onde a assinatura de
determinado artista tem o condão de transformar uma vasta extensão de cimento
pintado de branco numa inconfundível obra de arte. Ao dedicar a área à memória
desse nosso triste hemisfério, as autoridades por certo entenderam que as
necessidades dos habitantes da região já se encontram plenamente satisfeitas.
No que me tange, ela poderia ser muito útil aos exercícios de demolição
ministrados nas escolas de engenharia.
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