O Globo
Há o temor de que o núcleo radical do
bolsonarismo se rebele contra o nome escolhido pelo grupo e produza um
‘outsider’
Ciro Nogueira abriu a picada, mas não a facão. Segundo relatou o presidente do PP a interlocutores, a conversa que teve com Jair Bolsonaro no dia seguinte à decretação da sua prisão domiciliar foi eivada de delicadezas e volteios destinados a não melindrar o ex-presidente. Com o objetivo principal de pressioná-lo a definir o seu candidato para as eleições de 2026, o colóquio começou pela entrada oposta: Ciro reiterou seus esforços para viabilizar no Congresso a votação do projeto de anistia que, quase ninguém acredita, levaria Bolsonaro de volta às urnas. Cumprida essa etapa, o dirigente do PP passou à que interessava: apontou a necessidade de Bolsonaro indicar um nome de sua confiança com chances reais de derrotar Lula para o caso de todos os esforços destinados a fazer dele próprio o candidato fracassarem. Embutido nessa hipótese estava, desde já posto e garantido por qualquer nome por ele escolhido, o compromisso com o indulto presidencial — a chave que, embrulhada no discurso fino da “necessidade de pacificar o país”, poderia abrir para o ex-presidente a tranca da cadeia.
Dois dias depois, foi a vez de Tarcísio
visitar Bolsonaro. Embora não se conheça o teor da conversa entre os dois, foi
a partir dali que o governador de São Paulo, que dizia não querer se tornar
candidato a presidente, e não se comportava como um, mudou de tom e postura.
Tarcísio já declarou publicamente ser favorável a um indulto presidencial a
Bolsonaro em caso de condenação do ex-presidente no Supremo.
Tudo resolvido para a oposição, portanto?
Longe disso. Para além das muitas questões a
dividir os dirigentes de PP, União Brasil, PL e Republicanos, desejosos de ter
um candidato único apoiado por Bolsonaro, há o temor de que o núcleo radical do
bolsonarismo se rebele contra o nome escolhido pelo grupo e produza um outsider
— à revelia de Bolsonaro e alheio ao controle dele.
Já aconteceu em São Paulo. Em 2024, na
eleição para prefeito da capital, Bolsonaro deu seu apoio oficial a Ricardo Nunes,
candidato da centro-direita. Bastou, porém, Pablo Marçal surgir do nada para
parte dos seguidores do ex-presidente correr aos braços do influenciador e
desprezar Nunes como “candidato do Centrão”. Lembra um dos envolvidos na
campanha do hoje prefeito:
— Bolsonaro perdeu completamente as rédeas do
eleitorado dele. Despencamos 4 pontos nas pesquisas por causa disso.
Na quarta-feira, Eduardo
Bolsonaro amplificou o temor dos caciques da direita ao postar nas
redes que, diante da eventual necessidade de substituir Bolsonaro nas urnas,
“qualquer decisão política será tomada por nós”. Na sexta, ameaçou lançar a
própria candidatura. Tarcísio sempre afirmou para os íntimos que o receio de
ficar pelo caminho numa eventual disputa à Presidência se devia mais à
intempestividade de Eduardo que à pusilanimidade de Bolsonaro. Os
acontecimentos mostraram que não estava errado.
O bolsonarismo foi construído a partir da
retórica antipolítica e antissistema, num enredo em que Bolsonaro incorporava o
papel do salvador da pátria capaz de enfrentar as elites corruptas e as
instituições traidoras da nação. Quando, em 2020, o Mito cedeu à realpolitik e
se aliou ao Centrão para evitar um processo de impeachment, seus seguidores
engoliram a seco a versão da “necessidade de aliança estratégica”. Só que, de
lá para cá, Bolsonaro nunca mais largou a boia — e é na velha elite política
que agora se escora para barganhar seu futuro pouco promissor.
Na prática e na realidade, a vaga de messias
está aberta. Se os laboratórios digitais da extrema direita resolverem criar o
seu, como ocorreu em São Paulo, e pespegar no candidato do Centrão o carimbo do
“sistema”, terá Bolsonaro suficiente capital político para segurar sua cesta de
votos? Estimada em 20% do eleitorado, ela não dá para dois.
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