O Estado de S. Paulo
A insistência em viver a disputa eleitoral
como um choque entre polos enraivecidos dificulta que forças de mediação entrem
em campo
Numa bela passagem de Minha Formação (1900), Joaquim Nabuco estampou um pensamento que permanece instigante mesmo depois de ter atravessado tempos e gerações. Escreveu: “Há duas espécies de movimento em política: um, de que fazemos parte supondo estar parados, como o movimento da Terra que não sentimos; outro, o movimento que parte de nós mesmos. Na política são poucos os que têm consciência do primeiro, no entanto esse é, talvez, o único que não é uma pura agitação”.
A frase famosa pode nos ajudar a refletir
sobre o Brasil.
Fazemos parte da política que se movimenta, mas não supomos estar parados. Imaginamos estar na vanguarda dela, conduzindo-a. Na verdade, mais colidimos do que interagimos com ela. Os mais dinâmicos e espertos fazem da política uma via de ascensão. Nossa política é movimento permanente, desatento ao que importa.
Falta algo. Poder material temos de sobra:
uma grande população, território invejável, economia agrária potente, riquezas
minerais, florestas e água. Também somos ricos em criatividade cultural. Bons
políticos são raros, mas existem. Porém, abraçados à atual classe política,
majoritariamente tosca e provinciana, terminam por agir com critérios
equívocos. O poder político é ruim.
Ocorre que não temos uma ideia do rumo a
seguir. A política se move, excita paixões e interesses, mas no fundo é mais
agitação do que aquele lento trabalho de perfurar as tábuas duras da História
de que falou certa vez Max Weber. A frase de Nabuco talvez sugira que nos
faltam paciência, senso de responsabilidade e comedimento, que somos feitos de uma
matéria que nos inquieta o tempo todo. Não paramos para pensar, calcular o
próximo passo. Vamos ao sabor de ritmos que não controlamos.
Somos adictos do segundo movimento mencionado
por Nabuco. O que significaria? Antes de tudo, que estamos sempre dispostos a
agir. Mas “partir de nós mesmos” pode significar “pura agitação”, ou seja, não
ser ação produtiva. Falar bastante. Fazer barulho e estardalhaço, mas pouco
realizar. Prometer mundos e fundos, mas nada entregar para o futuro. Criticar o
tempo todo, desafiar amigos e adversários, mas ser incapaz de formar blocos
sociais que sustentem avanços para frente.
O Brasil não está em regressão. Está em
marcha lenta. Somos uma democracia. Imperfeita, mas resiliente. Há conquistas
na saúde e na educação, temos uma rede de proteção social, uma adequada matriz
energética, a indústria e o agronegócio prosperam. Nossas telecomunicações movem
e coligam o País.
Mas há buracos que não se fecham. O problema
fiscal não é equacionado, sugerindo gargalos mais à frente. O saneamento básico
não chega a boa parte da população. A transição energética caminha devagar. A
violência e a insegurança assustam. As desigualdades sociais são brutais. Mesmo
onde os serviços funcionam (SUS, ensino fundamental), há necessidade de mais
investimentos e cuidados.
Os Poderes de Estado não se entendem. Vivem
às turras. A política não mobiliza, é repetitiva e carece de brilho. São sempre
os mesmos a disputar votos. As propagandas copiam as anteriores. Os candidatos
vertem indignação e ousadia, anunciam sem convencer. Um manto de desalento
recobre a sociedade, como se fosse um signo agourento de estagnação.
Estamos a poucos dias de 2026, um ano
eleitoral. Políticos, partidos e intelectuais deveriam estar atiçados para
forjar o novo, aquela pedra que possibilitaria a estabilização de um novo salto
para frente. Mas não. O silêncio prevalece, entremeado por negociações
eleitorais que não cuidam do fundamental. Novos nomes surgem no horizonte, mas
tendem a ser engolidos pelos polos dominantes. Desidratam. A agitação política
cresce, aguardam-se sofregamente as urnas, a população meio indiferente.
A insistência em viver a disputa eleitoral
como um choque entre polos enraivecidos dificulta que forças de mediação entrem
em campo. Anestesia-as. Embota a criatividade e trava o surgimento de ideias
novas. Iniciativas renovadoras evaporam antes mesmo de decolar.
Nossa democracia sofre com a pobreza de lideranças
e a inoperância da sociedade civil. Ações participativas e lutas sociais
existem, mas não chegam aonde deveriam chegar, não têm potência para mudar o
jogo. O País pouco se ressente da presença delas, como se tivesse optado por
girar em falso em vez de engatar uma marcha e acelerar.
O Brasil é uma sociedade potente, graças a
seus atributos geográficos e socioculturais. Tem unidade territorial e poucos
problemas de fronteiras, ao menos enquanto o crime organizado se contém.
Possuímos muitas vantagens comparativas, e não estamos sabendo utilizá-las.
Já imaginaram os leitores até onde
chegaríamos se cá houvesse um bloco social progressista, liberal e democrático
enraizado na população e distante dos polos tóxicos que travam a sociedade?
Tal bloco não cairá do céu nem surgirá por
motu proprio. Terá de ser composto peça por peça, tarefa que somente lideranças
democráticas desprovidas de partis pris paralisantes poderão empreender. •

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