segunda-feira, 15 de dezembro de 2025

Os agentes secretos. Por Miguel de Almeida

O Globo

A arte deixou de ser julgada por critérios estéticos e virou campo de batalha identitário

Assim como existe o voto urso — você abraça um candidato e vota noutro —, os tempos woke nos forçam a dizer que gostamos de um filme quando, na verdade, o achamos bem médio. É o caso de “O agente secreto”, dirigido por Kleber Mendonça Filho, cuja narrativa é desencapada, mas aplaudida pela crítica por estar cheia de citações. A situação lembra o comentário de Paulo Francis sobre “Terra em transe”, de Gláuber Rocha, quando a crítica era pesadamente a favor da obra:

— O filme é uma bosta, mas o diretor é um gênio.

Os casos de interdição ao debate usam diversos figurinos, em geral aparecem disfarçados sob o discurso de justiça ou correção histórica. Dias atrás, o curador camaronês da Bienal de São Paulo vetou a presença num debate da artista belga Marie-Esméralda. Ela foi descartada sob a alegação de ser sobrinha-bisneta do rei Leopoldo II, um conhecido genocida. Responsabilidade ancestral virou critério curatorial — como se a genética determinasse posição política, ou como se descendentes devessem responder pelos crimes de antepassados mortos há um século.

Os dois casos ilustram a mesma tendência: a arte deixou de ser julgada por critérios estéticos e virou campo de batalha identitário. Os episódios se inserem no uso do gosto pela política. Disfarçadamente, o produto cultural é transformado em ato ideológico — e quem o desfruta é posto no papel de marionete.

O espectador assiste ao filme, come sua pipoca e sai do cinema mais ou menos satisfeito. De volta para casa, consulta a internet e lá depara com uma campanha on-line bem orquestrada: é obra de gênio! O sujeito engole em seco, fica envergonhado com sua pequenez intelectual. Sente-se um rato. Como é que não percebeu o beijo supremo da arte? Daí para o voto woke, é um passo.

Por trás da defesa, esconde-se uma causa. Toleram-se as deficiências em nome de compadrio político. Isso era comum nas décadas de 1950, 60 e 70, quando o Partido Comunista cerrava fileiras em defesa de seus militantes. A primeira fase de Jorge Amado, com a hagiografia de Luís Carlos Prestes, “O cavaleiro da esperança”, era incensada. Mas é esquemática dentro de seu realismo socialista. Idem com Cândido Portinari e seus personagens populares, idealizados como super-heróis.

A postura vinha inscrita no uso da arte como ferramenta política de convencimento. Ficou conhecida como período stalinista: o discurso substitui a intuição artística e se transforma em manifestação regrada.

A queda do Muro de Berlim em 1989 soterrou a visão do realismo socialista. Deveria ter sido enterrada antes, em 1956, ano em que Kruschev denunciou os crimes de Stálin. Mas tudo leva um tempo; até a verdade por vezes precisa de décadas para se tornar fato. (A frase não vale para Prestes e Oscar Niemeyer, que nunca acreditaram em Kruschev.) A militância woke na arte trabalha contra a própria arte. Assim como o stalinismo com seu realismo socialista só valorizou aspectos militantes, o atual pensamento crítico caminha na defesa de teses no lugar do estético e do artístico.

O Godard de “A chinesa”, em sua fase maoista, não se compara ao anarquismo poético e niilista de “Acossado”. Simples: a obra militante é inferior, só que a causa política fechava os olhos às deficiências de um filme maniqueísta.

Indicado como representante brasileiro ao Oscar, “O agente secreto” é vendido como cobertura de frente para o mar. Quando são apontadas suas falhas, principalmente pelo público, o batalhão crítico sai em sua defesa. Estranhamente, o mérito do filme — escancarar a violência do cotidiano brasileiro — sempre é atenuado. A obra mostra um país desumano, sem empatia, incivilizado em sua natureza egoísta. Infelizmente, a narrativa se deseja culta e, ao final, contenta-se com referências cinematográficas quando poderia aprofundar o dedo na ferida.

O empresário sulista da história é um retrato acabado da arte em forma de tese. É raso, discursivo. Tem a pitada woke ao discutir com a mulher do protagonista. Está no roteiro para trazer o conflito, o drama. Mas abriga um tipo de rancor falsamente regionalista. Os fios em aberto da história demonstram receio em chamar pelo nome o que foi levantado pelo enredo, adoçando o que é cruel — uma sociedade insensível ao valor da vida. Wagner Moura, o Marcelo da história, é quem dá cor e nuance. Seu desespero diante do inexplicável de sua situação, com economia de gestos, só no olhar, é um alívio de inteligência.

 

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