O Estado de S. Paulo
O primeiro passo é tratar a coisa pública de modo transparente e amparado na Constituição
Neste 1.° dia do ano, renovam-se as
promessas. Mas é tempo, sobretudo, de resgatar as esperanças na construção de
uma sociedade mais justa e republicana. Assim, que este ano seja uma verdadeira
travessia para o novo.
As instituições democráticas são fundamentais
na sustentação do Estado de Direito. O tenebroso caso do Banco Master é uma
vergonha para o País. O Banco Central agiu firmemente e precisa ser defendido.
Tentativas de reversão do caso só serviriam, possivelmente, para amenizar as
penas dos que lesaram o País.
O sistema financeiro nacional foi reestruturado e fortalecido com o Programa de Estímulo à Reestruturação e ao Fortalecimento do Sistema Financeiro Nacional (Proer), ainda no governo FHC, sob a liderança do então presidente do Banco Central, Gustavo Loyola. A regulação e a transparência encontraram lugar. Hoje, não há sistema financeiro mais sólido no mundo do que o brasileiro. Ainda assim, as peripécias, a ousadia e a crença na impunidade estimulam movimentos como o do Master.
A resposta do Estado deve ser dura, direta e
implacável, respeitado o processo legal. Os tentáculos dessa gente que achou
que sairia livre parecem se estender pelo sistema político de uma maneira perigosa.
Mutatis mutandis, a raiz do problema é a mesma das chamadas bets, que
conseguiram derrubar a Medida Provisória 1.303, ação para elevar fortemente a
tributação do jogo eletrônico.
O sistema eleitoral de lista aberta é um
escárnio. Custa caríssimo, onerando os orçamentos públicos em bilhões de reais
a cada eleição, sem prescindir das ajudas privadas de quem, depois, cobra a
fatura nas votações no Congresso. É necessário debater o modelo eleitoral e de
financiamento de campanhas.
Veja-se o caso das emendas parlamentares. O
ministro Flávio Dino, republicano como é, tem atuado de modo abrangente,
preciso e técnico nesse assunto. As emendas ultrapassaram R$ 60 bilhões no
Orçamento aprovado pelo Congresso há alguns dias para 2026. O dinheiro voava de
Brasília para municípios e entidades sem qualquer controle. As ações tomadas no
âmbito do Supremo Tribunal Federal (STF) e dos aprimoramentos legais derivados
dessa frente melhoraram o quadro, mas ainda há muito que fazer.
A decisão de interromper o pagamento do
chamado orçamento secreto, revelado pelo Estadão, há alguns anos, é
fundamental. Emendas não podem continuar a servir de combustível para esquemas
e para distribuição de dinheiro público numa espécie de coronelismo 2.0. Como
fortalecer a democracia diante da apropriação de nacos inteiros do Orçamento
por poucos amigos do rei?
A novidade que se busca para 2027 – e os
ciclos políticos, de fato, nos convidam a essa renovação de esperanças – começa
por aí. O primeiro passo é tratar a coisa pública de modo transparente e
amparado na Constituição. Isso implica trazer o Orçamento de volta às origens.
O escárnio dessas emendas impositivas agigantadas é motivo para a sociedade se
levantar.
Os casos de corrupção já aparecem na imprensa
e os inquéritos na Polícia Federal se avolumam. A tal certeza da impunidade
combinada com o desprezo pela coisa pública é veneno puro para a consolidação
da democracia. Os parlamentares dão de ombros às necessidades do País e
tornam-se comandantes de orçamentos individuais para transformar o Congresso
numa espécie de feira livre.
Na verdade, bloqueiam as agendas
estruturantes, que poderiam estimular o emprego, o crescimento e o progresso,
em troca de mais e mais dinheiro. Há situação mais deplorável e vergonhosa do
que essa?
2026 precisa ser uma travessia para o novo. A
luz do sol tem de entrar naquele plenário antes que o mofo tome conta do que
ainda possa ter restado de espírito público por ali. Em editorial recente, o
Estadão falou bem: o centro democrático precisa voltar à cena e substituir o
odioso centrão (Mais centro, menos Centrão, 28/12, A3).
A eleição de 2026 exigirá de todos nós
escolhas importantes. Vamos votar para deputado federal e estadual, dois
senadores, governador e presidente. Nunca foi tão relevante pensar com cuidado
na escolha para os membros do Legislativo. A agenda de reformas, inescapável
para a retomada do crescimento econômico, passa pelo Congresso Nacional.
Em 2027, o ajuste fiscal terá de ser feito
desde o primeiro dia. A dívida pública se aproxima de 80% do Produto Interno
Bruto (PIB) e deverá terminar o atual mandato presidencial em mais de 84%. O
déficit público total supera os 8% do PIB, incluindo a conta de juros e o
déficit primário.
As despesas públicas e os gastos tributários
deverão passar por um pente-fino para valer. Cada programa orçamentário,
analisado e avaliado. É uma tarefa hercúlea, mas que não poderá mais ser
postergada, sob pena de amargarmos outros quatro anos de mediocridade.
Dos candidatos e candidatas ao Executivo e ao
Legislativo, devem-se exigir planos concretos e propostas que parem de pé. A
época de venda de terrenos na Lua já passou. Por outro lado, a máquina de
informações falsas estará funcionando a pleno vapor.
Que prevaleça a cidadania. Que o Brasil
acorde para a necessidade de se transformar numa democracia mais sólida, menos
suscetível a veleidades privadas e, efetivamente, atenta àqueles que mais
dependem dos poderes públicos.
Feliz ano-novo!

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