O Globo
A polícia espanhola anunciou que, na primeira
semana de janeiro, interceptou um navio (com jeito de ferro-velho) que
transportava cerca de 10 toneladas de cocaína, escondidas em 294 caixas debaixo
de um carregamento de sal. O barco tinha a bandeira da República de Camarões, e sua
tripulação de 13 pessoas era composta por sérvios e indianos. Em dezembro, o
barco havia passado por portos brasileiros. Ele foi abordado pelos espanhóis em
alto-mar. Sem combustível, teve de ser rebocado até o Porto de Tenerife.
Essa foi a maior apreensão de cocaína em alto-mar. Segundo as autoridades espanholas, a operação resultou da cooperação das polícias de Estados Unidos, França, Portugal e Brasil.
Com toda a razão, as polícias evitam dar
detalhes de suas operações, mas um navio enferrujado, com bandeira de Camarões
e tripulação sérvia e indiana, pede uma boa inspeção. Para chegar às caixas de
cocaína, os policiais espanhóis e americanos tiveram de revirar a montanha de
sal com pás.
Por quais portos brasileiros o navio passou?
Segundo a TV americana CBS, em junho de 2025 a polícia espanhola capturou um
ferro-velho cuja carga de cocaína vinha da Colômbia e do Brasil.
Quando se fala que o Brasil tornou-se
endereço para o trânsito da cocaína, parece exagero, mas as 10 toneladas
(valendo pelo menos US$ 200 milhões na ponta do consumo) passaram por aqui. Em
cada porto onde o barco esteve, a quadrilha da carga deveria ter pelo menos um
olheiro. Negócio de gente grande.
A apreensão dos espanhóis, a maior já
ocorrida em alto-mar, coincide com a vacância do cargo de ministro da Justiça e
com a enésima vez em que se discute a criação do Ministério da Segurança
Pública. Se o interesse pela discussão está na marquetagem, tudo bem. Afinal, o
Brasil já tem quatro polícias no organograma da pasta da Justiça, além de um
ministério para os Direitos Humanos e outro para a Igualdade Racial.
O ex-ministro Ricardo Lewandowski chegou a
pensar numa Polícia Ostensiva Federal, bombando a Polícia Rodoviária Federal
(PRF). O diretor da PRF no governo passado foi capturado quando fugia para El
Salvador. Ao seu tempo, a PRF era conhecida como Polícia Rodoviária do Flávio,
numa referência ao senador Flávio Bolsonaro. Nada melhor para um governo que
perdeu a bússola da segurança do que criar mais um ministério. Pelo jeito,
daqui a mais uma eleição, virá a ideia de mais uma pasta, só para combater o
crime organizado.
O problema da segurança pública pode ter
dezenas de soluções, mas está diante de todos a mais simples, barata e
eficiente. Trata-se de prestigiar e fortalecer a Polícia Federal. Quando
parlamentares reúnem-se para queixar-se de operações recentes da PF nos seus
quadrados de influência, passam recibo da importância da instituição.
Afora as fraudes descobertas pelo Banco
Central, as principais revelações da extensão das conexões do banqueiro Daniel
Vorcaro saíram da PF. E eram conexões para ninguém botar defeito.

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