O Globo
O que está acontecendo no Irã não é reedição do que ocorreu na Primavera Árabe. Há 15 anos, as redes sociais nascentes permitiram que grupos diferentes na Síria, no Egito e em tantos outros países se organizassem para protestar contra os regimes em que viviam. Os aiatolás entendem isso. Desde então, promoveram apagões de internet em todo o território nacional sempre que havia novas ondas de manifestações. Mas isso não quer dizer que a internet não seja usada. Os manifestantes também aprenderam a lidar com a estratégia do regime.
O Irã vive uma crise econômica gravíssima.
Foi justamente a brutal desvalorização da moeda, no final de dezembro, que
serviu de gatilho para a explosão popular. Se o país corta por completo o
acesso à internet por semanas, não há negócios, a economia para. Economias não
vivem sem internet. Viviam. Hoje não dá mais. Se a economia para ainda mais do
que já está parada, a insatisfação não diminui, se amplia. O que tem sido feito
é interromper ao máximo o fluxo da rede, principalmente à noite. Não só da
rede. A luz é cortada, o sinal de celular para voz também. Onde há protestos,
pessoas têm de andar no escuro.
Essa não é a única ação do regime. Eles têm
capacidade tecnológica, entendem como a internet funciona. Portanto rastreiam a
informação que circula nas redes. Tentam descobrir quem envia o quê. Por isso,
nos momentos de internet aberta é preciso ter cautela. Os manifestantes mais
experientes sabem — e usam VPNs e aplicativos que permitem navegar
anonimamente. Seu principal aliado é a imensa comunidade iraniana fora do país,
uma diáspora concentrada na Califórnia e em Londres.
Há três fases. A primeira é durante os
protestos. Os celulares podem perder a conexão com o exterior, mas seguem com
Bluetooth ativado e capacidade de fotografar e filmar. Vídeos são capturados o
tempo todo. Do tamanho das multidões, de detalhes como faixas, retratos,
cartazes, trocas. E também da brutalidade policial. Mortes, corredores de
hospitais, necrotérios. Os manifestantes mantêm seus celulares abertos e
distribuem cópias dos registros que fazem uns para os outros. As multidões
formam becapes vivos. O que foi filmado por um estará em cópia nos celulares de
outros.
Quando o dia nasce, a internet é restabelecida
em períodos curtos e aleatórios. Quem pode entra anonimamente na rede e
distribui o que tem. Na outra ponta, recebendo, estão iranianos fora do país.
São eles que põem legendas, dão contexto, vão para as redes sociais e batem o
bumbo para informar o resto do mundo. Esse caminho tem mão dupla. Quem é da
diáspora manda notícias e, principalmente, incentiva. Talvez por isso, um
personagem que jamais havia aparecido em protestos iranianos tenha reemergido.
É Reza Pahlavi, filho do xá deposto pela Revolução Islâmica em 1979.
No início, Pahlavi começou a enviar para
dentro do Irã mensagens tentando sondar que tipo de espaço encontraria. Pediu
que os manifestantes entoassem certos cânticos e slogans em horas específicas.
Fizeram isso. Por todo o país. Havia comunicação e, aparentemente, disposição
da população que protesta de se aproximar dele. Nos dias seguintes, o retrato
do herdeiro do trono iraniano começou a surgir nas multidões.
Em 2009, quem saiu para as ruas contra o
regime foi a classe média cosmopolita de Teerã. Questionava a fraude nas
eleições presidenciais. Em 2019, foram lojistas e trabalhadores, estes menos
educados, em razão da crise econômica. Em 2022, na última leva de protestos,
novamente a classe média bem-educada, não apenas em Teerã, mas noutras grandes
cidades, atacava a misoginia do regime. Agora, todos esses grupos estão nas
ruas. Todos reclamam da crise econômica, e todos reclamam do alto nível de
opressão. A eles, lentamente se junta um outro grupo — o baixo clero, que vê os
aiatolás de Qom como uma elite corrupta que desvirtuou a religião.
São grupos liberais e conservadores, laicos e
religiosos, sem líder claro. Talvez também por isso, o xá apareça como líder simbólico,
o único com alguma capacidade de representar a todos. O regime está matando.
Está matando em quantidade. Está também prendendo — e, no Irã, o que ocorre nas
prisões possivelmente é pior que a morte. Ainda assim, há gente nas ruas.
Às vezes pensamos em liberdade como algo
abstrato. A sociedade iraniana mostra ao mundo que seres humanos seguem capazes
de pagar um preço alto por liberdade.

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