sábado, 24 de janeiro de 2026

A razão de Trump. Por Demétrio Magnoli

Folha de S. Paulo

Senhor da Casa Branca almeja quebrar instituições sobre as quais se sustenta ordem erguida no pós-guerra

Nova ordem imaginada por Trump é concerto de grandes potências engajadas na delimitação de esferas de influência

As crises da Groenlândia e de Gaza esclarecem o sentido da política global de Trump. Mais que a soberania sobre a ilha ártica ou uma solução geopolítica na Terra Santa, o senhor da Casa Branca almeja quebrar as instituições sobre as quais se sustenta a ordem internacional erguida no pós-guerra. Seus atos conduzem o mundo ao estado hobbesiano da "guerra de todos contra todos".

Macron exprimiu sua perplexidade face à insistência de Trump em obter a "posse" da Groenlândia. Um editorial desta Folha afirmou, em linha com as análises convencionais, que tal obsessão "desafia a razão" (folha.com/zjafcq0t). Contudo, é preciso não confundir a razão racional com a razão ideológica. A primeira explica que os EUA não precisam da soberania sobre a ilha ártica para realizar objetivos de segurança geopolítica ou negócios minerais. A segunda ilumina a motivação de fundo da Casa Branca.

Trump engaja-se na implosão da Aliança Atlântica que soldou os EUA à Europa. A nova Estratégia de Segurança Nacional da superpotência aponta um "declínio civilizacional" da Europa e afirma que a regeneração das nações europeias depende da ascensão ao poder dos partidos da direita radical. O presidente americano enxerga a União Europeia como adversária dos EUA. Sob seu ponto de vista, a Otan é um fardo inútil que drena recursos americanos e limita as opções estratégicas dos EUA.

O recuo tático no caso da Groenlândia, imposto por uma Europa que entendeu a ineficácia da lisonja, não altera o rumo geral das coisas. À sombra das ameaças militares pronunciadas pela Casa Branca, o compromisso de defesa mútua da Otan torna-se uma casca vazia. Graças a Trump, a invasão russa da Ucrânia vai obtendo um triunfo com o qual o Kremlin não ousava sonhar: a destruição da Aliança Atlântica é um prêmio muito mais valioso que o Donbass.

A trégua em Gaza, um feito real de Trump, coagulou-se como cessar-fogo zumbi. Os EUA não parecem dispostos a impor a Israel e ao Hamas o avanço rumo à paz em dois Estados prometida pelo plano original. Mas o presidente americano utiliza o impasse como trampolim para a criação de seu Conselho da Paz, um clube privado de líderes globais que, nas suas palavras, poderia tomar o lugar da ONU. De olho na Ucrânia, Putin aderiu ao organismo. Preocupado com o neoimperialismo dos EUA no "Hemisfério Americano", Xi Jinping resiste ao convite.

Nos círculos do Maga, o movimento de Trump, o desprezo pela Otan é tão intenso quanto a aversão à ONU. A Aliança Atlântica fundamenta-se na cooperação de segurança entre nações democráticas e soberanas. A Carta da ONU expressa o projeto de uma ordem internacional baseada nos princípios da autodeterminação dos povos e da inviolabilidade das fronteiras. O Conselho da Paz, em contraste, dispensa qualquer suporte de valores ou regras: sua única norma implícita é a subordinação à figura de seu fundador e presidente perpétuo.

A Otan freou o expansionismo da URSS na Europa —e, depois de 1991, formou a moldura para a integração dos antigos satélites soviéticos à União Europeia. A ONU nunca impediu guerras de agressão, mas evitou a conquista imperial de nações soberanas. A nova ordem imaginada por Trump é um concerto de grandes potências engajadas na delimitação de esferas de influência. "Paz" é o nome com o qual batiza o direito da força.

 

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