CartaCapital
Donald Trump, Xi Jinping e Vladimir Putin
unem-se em ofensiva contra os direitos humanos
Se nas últimas semanas a ação dos EUA contra a Venezuela e a retirada de Washington de 66 organismos internacionais foram descritas como “atos trágicos” para o multilateralismo e para um mundo ordenado pelo direito internacional, a crise pode estar apenas começando. A pressão geopolítica soma-se a desafios financeiros na própria Organização das Nações Unidas: a entidade aprovou um orçamento regular para 2026 perto de 7% menor que o de 2025, em meio a propostas para reduzir gastos em quase 15% e cortar em torno de 19% do quadro de funcionários.
Pelo orçamento aprovado, quase 2,9 mil cargos
na ONU serão extintos em 2026, enquanto mais de mil demissões já foram
concluídas. A partir de uma aliança indecorosa e não declarada entre China,
Rússia e EUA, a organização tem sido obrigada a cortar, principalmente,
recursos destinados à promoção dos direitos humanos, além de demitir mais de
uma centena de funcionários envolvidos na proteção de direitos fundamentais.
No total, a entidade eliminará 117 postos no
Alto Comissariado da ONU para Direitos Humanos, e dezenas de programas,
incluindo visitas de monitoramento de violações e investigações, foram
cancelados. O cerne da crise está na decisão de Donald Trump de suspender os
repasses de Washington às Nações Unidas. Estados inadimplentes acumulam atrasos
em suas contribuições que somaram 1,586 bilhão de dólares no fim do ano
passado, dos quais 95% eram devidos pelos EUA.
Se Washington mantém a ONU à míngua, China e
Rússia aproveitaram o momento de crise para alegar que parte significativa dos
cortes deveria ocorrer no setor de direitos humanos, sem qualquer oposição
norte-americana. Pequim e Moscou ainda tentaram, durante as negociações,
convencer os demais países a simplesmente abolir os recursos para mandatos
aprovados na ONU e que instauraram investigações contra violações de direitos
humanos no Irã, na Coreia do Norte, no Sudão, na Eritreia, na Venezuela, na
Nicarágua, na Bielorrússia, na Rússia e na Ucrânia. Não por acaso, as
diplomacias desses governos apoiaram o projeto.
A proposta de acabar com as investigações não
passou, mas provocou um verdadeiro terremoto entre os governos e reforçou a
certeza de que, com os cortes, regimes autoritários aproveitarão para se
desfazer de qualquer controle externo sobre suas atividades. A pressão para que
os recursos destinados à agenda de direitos humanos fossem mantidos veio
especialmente da União Europeia, do Brasil, do México e do Canadá, mas ninguém
se apresentou para cobrir o rombo deixado pelos EUA.
“Estamos em modo de sobrevivência”, disse o
Alto Comissário para os Direitos Humanos, Volker Türk, no fim de dezembro.
Segundo ele, para 2025, seu escritório não recebeu 90 milhões de dólares do
orçamento aprovado de 246 milhões. Sem dinheiro, teve de demitir 300
funcionários. Investigações, visitas de especialistas e operações foram todas
reduzidas.
As avaliações periódicas do cumprimento dos
tratados de direitos humanos pelos países também foram reduzidas em quase um
terço este ano. “Isso tem consequências. Elas podem não ser vistas
imediatamente, mas serão sentidas. Tudo isso tem amplos efeitos em cadeia nos
esforços internacionais e nacionais para proteger os direitos humanos”, disse
Türk.
Enquanto os recursos para os direitos humanos
são cortados, o que se vê é uma explosão de dinheiro para financiar os
movimentos que atacam a expansão de direitos para minorias, acrescenta Türk.
“Um fluxo significativo de dinheiro proveniente de financiadores sediados na
Europa, Rússia e EUA é direcionado para a agenda antidireitos”, alertou. “Esse
financiamento maciço, aliado à manipulação da mídia e a estratégias de
desinformação, transformou a agenda antidireitos em uma poderosa força
transregional.”
De fato, um relatório do Fórum Parlamentar
Europeu que constatou que grupos contrários aos direitos humanos na Europa
gastaram perto de 1,2 bilhão de dólares, entre 2019 e 2023, para restringir os
direitos sexuais e reprodutivos. Outro conjunto de dados preocupante é o
do Instituto Internacional de Pesquisa da Paz de Estocolmo (Sipri). Segundo a
entidade, as receitas com armas e serviços militares das cem maiores empresas
do setor atingiram o recorde de 679 bilhões de dólares em 2024. A demanda foi
impulsionada pelas guerras na Ucrânia e em Gaza, pelas tensões geopolíticas
globais e regionais e pelos gastos militares cada vez maiores.
Não falta dinheiro. O que existe é uma ação
deliberada para desmontar a agenda de direitos humanos no mundo. E isso terá um
preço alto para a humanidade.
Publicado na edição n° 1396 de CartaCapital,
em 21 de janeiro de 2026.

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