sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

Ano eleitoral, ano de gastança. Por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

Lula é favorito, sim, mas eleição está indefinida e ele aposta em gastar

O prestigiado jornal Financial Times, inglês, acertou ao elencar as atuais pesquisas, os bons resultados econômicos, o sucesso da negociação do presidente Lula com Donald Trump e a desordem da direita como indicadores objetivos a favor da candidatura de Lula. Errou, porém, ao apostar na vitória com tanta antecedência.

Assim como a política não é moral nem ética, eleições não são objetivas, não seguem a lógica matemática e dependem de fatos novos, escândalos, intempéries, deslizes, sobressaltos na economia. Ninguém poderia imaginar, por exemplo, que Fernando Henrique fosse catapultado pelo Plano Real, Rodrigo Janot e JBS caíssem na cabeça de Temer e um acidente aéreo matasse Eduardo Campos.

Sim, as pesquisas, a falta de opção na esquerda, os erros e disputas na direita e as condições de hoje tornam Lula o grande favorito de outubro, mas é preciso combinar com os russos e com sua excelência, os fatos, além de avaliar com cautela o estado de saúde de Bolsonaro, a ramificação dos escândalos, principalmente do Banco Master, e até eventuais novas revelações sobre ministros-chave do Supremo.

O ano de 2025 começou com Fernando Haddad nas alturas e Lula fora do jogo, mas evoluiu para Haddad despencando e Lula chegando a dezembro como candidato único da esquerda. O de 2026 chega com Flávio sob holofotes, Tarcísio de Freitas restrito a São Paulo e Lula reeleito. Mas essa é a foto de hoje, não o filme do ano.

Ao vetar um reajuste de R$ 160 milhões para o Fundo Partidário, já no primeiro dia de 2026, Lula não estava preocupado com economia, apenas com um cálculo eleitoral. Ele não declarou guerra ao Congresso, porque a guerra já é escancarada, e ele não vai queimar popularidade com o bolsonarismo, carimbado por Eduardos, Zambellis e Ramagens, a esquerda, de uma fragilidade de dar dó, e o Centrão, insaciável. Logo, fez o melhor para ele: agradar à sociedade.

O ano começa sob chuvas, trovoadas e incertezas, com bons dados de crescimento, inflação e emprego, mas crise fiscal, que pressiona os juros e ameaça pôr tudo a perder. Lula gosta de gastar, o governo gasta mais do que deve e a conta vai chegar – sem Haddad para segurar o tranco.

Entre um responsável equilíbrio de receitas e despesas e a irresponsável gastança para a compra de votos no atacado, Lula não deixa dúvidas: a reeleição é sua prioridade número um. Depois se dá um jeito na crise fiscal, com teto, arcabouço, qualquer mágica. É arriscado, porque, assim como atrai, também espanta votos. A eleição está indefinida. 

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