O Globo
A quebra do banco e de Daniel Vorcaro inovou,
como se fossem duas as histórias
A intervenção do Banco Central em
instituições de crédito sempre foi novela de um só capítulo. Nos casos dos
bancos Econômico, Nacional e Bamerindus os auditores iam lá, arrolavam os
malfeitos e, aos poucos, o caso sumia.
A quebra do Master e de Daniel Vorcaro
inovou, como se fossem duas as histórias.
Uma é a das fraudes, que podem afetar 1,6
milhão de credores, num montante de R$ 41 bilhões. Segundo o ministro Fernando
Haddad, o Master pode vir a ser “a maior fraude bancária” da História do país.
A outra é o que parece ser uma operação para abafar as conexões de Vorcaro e a balbúrdia que se estabeleceu no Judiciário. O ministro Dias Toffoli baixou uma ordem de sigilo nas investigações. Determinou que a Polícia Federal só avançasse nos seus trabalhos depois de obter sua autorização. Finalmente, resolveu que quatro peritos, por ele indicados, tivessem acesso às provas guardadas nos computadores e nos celulares dos investigados. Toffoli foi defendido pelo presidente do tribunal, que considerou “regular” sua atuação.
Somaram-se episódios girafescos. A mulher do
ministro Alexandre de Moraes tinha um contrato milionário para serviços
advocatícios. Noutra ponta, Toffoli foi ao Peru ver uma partida de futebol no
jatinho de um empresário amigo, em companhia de um advogado de Vorcaro. O juiz
Paulo Fernando de Britto Feitoza, do Tribunal de Justiça do Amazonas, mandou
retirar do ar reportagem publicada pela Folha sobre processo de análise do
Incra a respeito de projeto de crédito de estoque de carbono que tem como
investidores parentes de Vorcaro.
O que era uma fraude bancária, tornou-se uma
crua exposição das condutas impróprias e erráticas de magistrados. No olho
desse furacão está a galeria de conexões do banqueiro Daniel Vorcaro.
O Banco Central interveio em 1995 nos bancos
Econômico e Nacional. O Econômico era de Ângelo Calmon de Sá, ex-ministro da
Indústria e Comércio (1974-1979), filho de uma família cujas conexões com o
poder remontavam ao tempo do Império. Numa de suas salas, guardava numa pasta
listas com doações a políticos. O Nacional pertencia aos filhos de José de
Magalhães Pinto, ex-governador de Minas e ex-ministro das Relações Exteriores.
Um de seus diretores, José Luiz de Magalhães Lins (1929-2023), foi um arquivo
vivo do poder em Pindorama. Nos dois casos, as investigações pararam ao chegar
às conexões dos bancos com o andar de cima.
No caso do Master a coisa foi diferente.
Daniel Vorcaro é neto de um imigrante italiano, seu pai nunca foi ministro nem
governador.
Ele entrou para o mundo financeiro em 2018 e
quebrou sete anos depois. Foi Vorcaro quem teceu a rede de conexões do Master.
Audacioso, oferecia eventos, parcerias, negócios e empréstimos a poderosos
deste século. Na queda, viu-se amparado, mas teve contra ele as investigações
da Polícia Federal, que foi mantida ao largo nos casos do Econômico e do
Nacional.
Abafar a caso do banco Master tornou-se um
empreendimento arriscado: brigar com polícia pode ser um mau negócio e brigar
com a Federal é certamente uma péssima ideia.
O caso do Master está ainda no meio do caminho.
A primeira metade, a das fraudes, toca um disco velho. A do abafa toca um disco
novo e ainda está na segunda faixa.
Madame Natasha
Madame Natasha coleciona discursos e votos do
ministro Edson Fachin. A senhora resolveu conceder-lhe uma de suas bolsas de
estudo pela seguinte frase:
“É induvidoso que todos se submetem à lei,
inclusive a própria Corte Constitucional; nada obstante, é preciso afirmar com
clareza: o Supremo Tribunal Federal não se curva a ameaças ou intimidações.”
Como o doutor não mencionou quem ameaça o
tribunal, poderia ter dito apenas o seguinte:
“O Supremo não se curva.”
O conselho de Trump
O Conselho da Paz de Trump prevê que ele terá
a presidência vitalícia do organismo por tempo indeterminado e poderes
ilimitados.
Falta-lhe apenas que essa presidência seja
hereditária. Por via das dúvidas, seu genro Jared Kushner, terá assento no
Conselho.
Kushner é um influente conselheiro de Trump
em questões diplomáticas e negócios imobiliários. Em Gaza, tem os dois pés
fincados.
Talleyrand e o Mercosul
Com o aparecimento de lombadas na
implementação do Acordo do Mercosul com a União Europeia, apressadamente
festejado em Brasília, vale lembrar o sábio francês Talleyrand (1754-1838):
“Um diplomata que diz ‘sim’ quer dizer
‘talvez’. Um diplomata que diz ‘talvez’, quer dizer ‘não’. E um diplomata que
diz ‘não’, diplomata não é.”
Fotografias
A fotografia de Liam Ramos, o menino de 5
anos detido por agentes da imigração americana junto com o pai, ao sair da
escola, fará história. Liam está de touca, pelo frio de Minnesota, e é
conduzido por um agente da temível polícia do ICE.
Um vizinho pediu aos agentes que deixassem a
criança aos seus cuidados, mas não foi atendido e o garoto foi levado para o
Texas, a horas de voo.
A imagem arrisca ir para o mesmo arquivo da
fotografia de um garoto da mesma idade, de boné, com os braços levantados,
saindo de um prédio do gueto de Varsóvia em 1943.
(Apesar de terem aparecido diversos
candidatos, o menino polonês nunca foi positivamente identificado.)
Em tempo: Os judeus do gueto de Varsóvia eram
exterminados.
Fingindo que ensino
Depois de ter tentado barrar a divulgação do
resultado da avaliação das faculdades de medicina, a Anup (Associação Nacional
das Universidades Particulares) questiona os resultados na Justiça.
O MEC pode aplicar diversas sanções às
faculdades reprovadas mas, para encurtar o caminho, basta que a Viúva não lhes
conceda novos financiamentos do Fies.
O Fundo de Financiamento Estudantil, o Fies,
foi uma gracinha criada na penumbra de Brasília para estatizar a inadimplência
das faculdades privadas.
O repórter João Gabriel revelou que entre as
faculdades reprovadas, algumas cobravam mensalidades de até R$ 15 mil. Basta
verificar em quantos casos a conta vai para a Viúva.
Descobrirão, em casos extremos, estudantes
que não aprenderam, numa faculdade que não ensinou, mas a Viúva paga
religiosamente as mensalidades.
Tarcísio vai a Bolsonaro
Quinta-feira Tarcísio de Freitas visitará na
prisão o ex-presidente e anunciará seu apoio à candidatura de Flávio Bolsonaro.
A decisão decorre da gratidão e do conforto.
Ele gosta de ser governador de São Paulo e conhece o ofidiário de Brasília.

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