Correio Braziliense
Brasil enfrenta uma enxurrada de feminicídios
e e país que mais mata pessoas trans e travestis. Há um traço comum aos dois
tipos de crime: o ódio decorrente dos preconceitos e conservadorismo
Um dia
Vivi a ilusão de que ser homem bastaria
Que o mundo masculino tudo me daria
Do que eu quisesse ter
Que nada
Minha porção mulher que até então se
resguardara
É a porção melhor que trago em mim agora
É o que me faz viver
Quem dera
Pudesse todo homem compreender, ó mãe, quem
dera
Ser o verão o apogeu da primavera
E só por ela ser
Quem sabe
O super-homem venha nos restituir a glória
Mudando como um Deus o curso da história
Por causa da mulher
A música acima é Super-Homem, composta por Gilberto Gil em 1979. Caetano Veloso tinha acabado de voltar do cinema com Dedé Gadelha (sua esposa na época) e relatou para Gil que ficara impressionado com a cena em que a namorada do Super-Homem, Lois Lane, morre, e ele volta no tempo para salvá-la. A descrição, destacando o esforço de amor e a fragilidade do herói, foi de tal maneira intensa que Gil se sentiu profundamente tocado e compôs a música.
Essa pérola do nosso cancioneiro veio à minha
mente nos últimos dias por conta da enxurrada de notícias sobre feminicídios.
Mulheres assassinadas por estrangulamento, facadas, tiros, em uma marca comum:
a crueldade. Os números são alarmantes. Em 2025, tivemos o recorde de registros
desse tipo de crime: quatro mulheres assassinadas por dia. Foram 1.470 casos no
ano, a maior marca até agora. De 2015, primeiro ano da tipificação penal, até
ano passado houve um crescimento de 316%!
Cabe registrar que esses casos, assim como
outras formas de violência contra as mulheres, acontecem dentro de casa.
Felizmente, aquele velho ditado "em briga de marido e mulher ninguém mete
a colher" está sendo superado pelo cada vez maior número de denúncias
feitas por vizinhos e/ou familiares nos canais como 180 ou Disque Denúncia. O
"Painel de Dados — Ligue 180", disponível no portal do Ministério das
Mulheres, mostra que, em 2024, houve 24.239 denúncias pelo canal. Já, em 2025,
o número foi de 155.111, um crescimento de quase 640%!
Ao lado dos feminicídios, temos outro dado
igualmente assustador. Ontem, dia 29 de janeiro, quando se celebrou o Dia
Nacional da Visibilidade Trans, a Antra — Associação Nacional de Travestis
e Transexuais — divulgou seu dossiê anual demonstrando que, apenas em
2025, 80 pessoas trans e travestis foram assassinadas no Brasil.
Nosso país detém a triste marca de ser o primeiro no ranking dos que mais
cometem esse tipo de crime.
Há um traço comum aos dois tipos de crime: o
ódio decorrente dos preconceitos e conservadorismo fortemente presentes na
nossa sociedade. O excelente livro Brasil no espelho, de Felipe Nunes, nos
coloca cara a cara com o que somos de fato. No capítulo intitulado Tradição e
discriminação, é possível verificar dados e observações que transcrevo abaixo.
"No caso do adultério feminino, o
conservadorismo masculino se revela. Entre 40% e 44% dos homens, a depender de
sua cor, acha que é justificável cometer o crime de agredir uma mulher que o
trai. É a minoria, mas com um percentual alto, quase próximo à metade. Entre as
mulheres, entre 28% e 34%, a depender da cor, concordam com essa ideia. As
mulheres pretas são as que menos concordam, com 28%."
Em relação aos homossexuais, "...71% das
pessoas disseram que a homossexualidade não é justificável...", "43%
se incomodam em ver casais homossexuais se beijando e 66% dizem que homem gay
não precisa ser afeminado. A tolerância não resiste ao espaço público".
A esses dados acrescento, como mero
observador, um elemento: a hipocrisia. Quem já não viu locais em que trans e
travestis ficam à noite aguardando clientes, em geral homens, que pagam para
poder usufruir de sexo? São os mesmos homens, que em sua maioria, costumam
fazer comentários nas redes sociais defendendo "a moral e os bons
costumes".
Posto isso, a pergunta que considero mais
relevante é: o que fazer, como sociedade, para mudarmos radicalmente esse
quadro? Em 2021, foi promulgada a Lei 14.164 prevendo no Artigo 26, parágrafo
9º, o seguinte: "Conteúdos relativos aos direitos humanos e à prevenção de
todas as formas de violência contra a criança, o adolescente e a mulher serão
incluídos, como temas transversais, nos currículos de que trata o caput deste
artigo, observadas as diretrizes da legislação correspondente e a produção e
distribuição de material didático adequado a cada nível de ensino".
Não tenho dados sobre a aplicação da lei, mas creio que ainda deve ser algo muito incipiente nos 5.570 municípios brasileiros. De qualquer forma, a escola pode ser um bom começo para enfrentarmos essa verdadeira epidemia que nos assola.

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