O Globo
Lógica do delírio que pauta a ação do filme
de Yorgos Lanthimos parece ditar a ação das superpotências e a reação possível
dos países forçados a negociar com elas
Em “Bugonia”, a obra de Yorgos Lanthimos que
concorre ao Oscar de melhor filme neste ano, o mundo é visto a partir da lente
da paranoia: forças invisíveis, supostamente racionais, passam a organizar a
realidade a partir do medo, da suspeita e da convicção de que o outro é uma
ameaça existencial.
A lógica do delírio é tal que tanto os
personagens quanto o espectador passam a lidar com a possibilidade de que ele
seja real. É difícil não reconhecer algo familiar aí, principalmente diante das
cenas de ensaio de guerra civil no cenário congelado dos Estados Unidos em que
a ICE age sem o mínimo controle.
A política global recente tem avançado perigosamente nessa direção. As grandes potências voltaram a operar como personagens de um thriller distópico. Estados que se veem cercados por inimigos, líderes que tratam o mundo como um tabuleiro de soma zero, alianças que valem apenas enquanto servem a interesses imediatos.
O multilateralismo como construção de um
espaço de mediação de conflitos em que não só as potências nucleares, mas todos
os blocos, em alguma medida, têm voz virou a verdadeira utopia, enquanto o
catastrofismo antes restrito a Hollywood toma as ruas e os fóruns econômicos e
diplomáticos.
Em “Bugonia”, a escalada (sem spoiler quanto
ao desfecho) se dá porque ninguém confia em ninguém. A suspeita substitui o
diálogo; a força, a política. No mundo real, a substituição do Direito
Internacional por decisões unilaterais, o enfraquecimento deliberado de
organismos multilaterais e a adoção, de forma indiscriminada, da retórica
belicista criam um ambiente igualmente instável.
Não é preciso acreditar em conspirações
alienígenas, como o protagonista brilhantemente vivido por Jesse Plemons, para
perceber o risco. Basta observar como guerras regionais passam a ter impacto
sistêmico, sanções ditadas de forma truculenta se tornam armas permanentes e
até a discussão sobre o uso de arsenal nuclear volta ao centro do debate com
assustadora naturalidade.
O problema não é apenas moral; é estrutural.
Quando superpotências agem como se regras fossem descartáveis, ensinam que o
mundo é um lugar onde vale mais quem pode mais. Nesse ambiente, países médios e
democracias periféricas se tornam especialmente vulneráveis. É aqui que entra o
Brasil.
Num mundo cada vez mais parecido com o
universo de Bugonia, no dia seguinte ao fim de semana mais sangrento promovido
por seu governo, Donald Trump passa a mão no telefone e fica 50 minutos de papo
amistoso com Lula. Como a personagem de Emma Stone, o presidente brasileiro tem
de aparentar calma e racionalizar para contornar os absurdos praticados pelo
interlocutor de forma que a discordância profunda na maneira de enxergar a
política e o xadrez global não transpareça e, dessa forma, afete os interesses
brasileiros.
Há uma linha tênue entre esse pragmatismo,
desejável, e a alienação conivente com as investidas de Trump no plano
doméstico e nas diatribes cada vez mais aleatórias em política externa. O
silêncio absoluto diante de absurdos pode até render ganhos imediatos, mas
cobra um preço estratégico futuro.
É esse o cálculo que Lula parece fazer quando
planeja aceitar o convite para um novo encontro com Trump, mas evita se
comprometer com a adesão a seu Conselho de Paz, iniciativa que não convenceu
praticamente nenhuma grande democracia, dadas as regras como sempre arbitrárias
por ele estabelecidas.
O Brasil não é nem será uma superpotência
militar. Sua força histórica sempre esteve noutro lugar: na diplomacia, na
aposta em regras comuns, na defesa da autodeterminação dos povos, da paz e da
proteção dos mais fracos contra os impulsos dos mais fortes.
Se “Bugonia” é um alerta sobre o que acontece
quando o medo governa e o diálogo entra em colapso, a política externa
brasileira precisa buscar o contrário: insistir na cooperação quando ela parece
fora de moda, defender instituições quando elas são atacadas e lembrar que o
mundo não precisa escolher entre ingenuidade e barbárie. Num cenário distópico,
resistir ao delírio dos poderosos pode ser o último gesto racional.

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