quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

'Bugonia' e a nova ordem mundial. Por Vera Magalhães

O Globo

Lógica do delírio que pauta a ação do filme de Yorgos Lanthimos parece ditar a ação das superpotências e a reação possível dos países forçados a negociar com elas

Em “Bugonia”, a obra de Yorgos Lanthimos que concorre ao Oscar de melhor filme neste ano, o mundo é visto a partir da lente da paranoia: forças invisíveis, supostamente racionais, passam a organizar a realidade a partir do medo, da suspeita e da convicção de que o outro é uma ameaça existencial.

A lógica do delírio é tal que tanto os personagens quanto o espectador passam a lidar com a possibilidade de que ele seja real. É difícil não reconhecer algo familiar aí, principalmente diante das cenas de ensaio de guerra civil no cenário congelado dos Estados Unidos em que a ICE age sem o mínimo controle.

A política global recente tem avançado perigosamente nessa direção. As grandes potências voltaram a operar como personagens de um thriller distópico. Estados que se veem cercados por inimigos, líderes que tratam o mundo como um tabuleiro de soma zero, alianças que valem apenas enquanto servem a interesses imediatos.

O multilateralismo como construção de um espaço de mediação de conflitos em que não só as potências nucleares, mas todos os blocos, em alguma medida, têm voz virou a verdadeira utopia, enquanto o catastrofismo antes restrito a Hollywood toma as ruas e os fóruns econômicos e diplomáticos.

Em “Bugonia”, a escalada (sem spoiler quanto ao desfecho) se dá porque ninguém confia em ninguém. A suspeita substitui o diálogo; a força, a política. No mundo real, a substituição do Direito Internacional por decisões unilaterais, o enfraquecimento deliberado de organismos multilaterais e a adoção, de forma indiscriminada, da retórica belicista criam um ambiente igualmente instável.

Não é preciso acreditar em conspirações alienígenas, como o protagonista brilhantemente vivido por Jesse Plemons, para perceber o risco. Basta observar como guerras regionais passam a ter impacto sistêmico, sanções ditadas de forma truculenta se tornam armas permanentes e até a discussão sobre o uso de arsenal nuclear volta ao centro do debate com assustadora naturalidade.

O problema não é apenas moral; é estrutural. Quando superpotências agem como se regras fossem descartáveis, ensinam que o mundo é um lugar onde vale mais quem pode mais. Nesse ambiente, países médios e democracias periféricas se tornam especialmente vulneráveis. É aqui que entra o Brasil.

Num mundo cada vez mais parecido com o universo de Bugonia, no dia seguinte ao fim de semana mais sangrento promovido por seu governo, Donald Trump passa a mão no telefone e fica 50 minutos de papo amistoso com Lula. Como a personagem de Emma Stone, o presidente brasileiro tem de aparentar calma e racionalizar para contornar os absurdos praticados pelo interlocutor de forma que a discordância profunda na maneira de enxergar a política e o xadrez global não transpareça e, dessa forma, afete os interesses brasileiros.

Há uma linha tênue entre esse pragmatismo, desejável, e a alienação conivente com as investidas de Trump no plano doméstico e nas diatribes cada vez mais aleatórias em política externa. O silêncio absoluto diante de absurdos pode até render ganhos imediatos, mas cobra um preço estratégico futuro.

É esse o cálculo que Lula parece fazer quando planeja aceitar o convite para um novo encontro com Trump, mas evita se comprometer com a adesão a seu Conselho de Paz, iniciativa que não convenceu praticamente nenhuma grande democracia, dadas as regras como sempre arbitrárias por ele estabelecidas.

O Brasil não é nem será uma superpotência militar. Sua força histórica sempre esteve noutro lugar: na diplomacia, na aposta em regras comuns, na defesa da autodeterminação dos povos, da paz e da proteção dos mais fracos contra os impulsos dos mais fortes.

Se “Bugonia” é um alerta sobre o que acontece quando o medo governa e o diálogo entra em colapso, a política externa brasileira precisa buscar o contrário: insistir na cooperação quando ela parece fora de moda, defender instituições quando elas são atacadas e lembrar que o mundo não precisa escolher entre ingenuidade e barbárie. Num cenário distópico, resistir ao delírio dos poderosos pode ser o último gesto racional.

 

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