O Estado de S. Paulo
Parece haver uma relação simbiótica entre baixa eficiência da indústria e má qualidade do ensino em diferentes níveis
A expansão da indústria no mundo tem sido surpreendente. Num ambiente marcado por tensões econômicas e políticas provocadas em grande parte por um presidente norte-americano nefasto para a harmonia entre as nações, a indústria manufatureira mundial cresceu 3,9% no terceiro trimestre de 2025, na comparação com igual período de 2024. Os dados são da Organização das Nações Unidas para o Desenvolvimento Industrial (Unido). No Brasil, porém, o desempenho da indústria de transformação foi muito diferente. O Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi) constatou desaceleração do setor manufatureiro brasileiro, com redução de 0,6% no período considerado.
Há razões conjunturais para esse
desalinhamento, de que resulta perda de espaço do Brasil na indústria mundial.
Mas não é um fenômeno apenas ocasional. Embora com variações ao longo do tempo,
a perda é persistente e mostra problemas estruturais que governo, empresas
privadas, institutos de pesquisa, associações de trabalhadores e outras
organizações não têm conseguido amenizar.
Um elemento apontado pelo diretor-executivo
do Iedi, Rafael Cagnin, para explicar os diferentes desempenhos da indústria no
Brasil e no mundo é o fato de a indústria manufatureira global estar baseada em
ramos de alta e média-alta tecnologia, que respondem por 45% da produção total.
São segmentos marcados por automação, digitalização, inteligência artificial e
processos ambientalmente limpos. No Brasil, esse ramo responde por uma fatia
que não chega a 30% da indústria.
Além de não conseguir aumentar a participação
dos segmentos de tecnologia avançada, a indústria de transformação brasileira
vem perdendo peso na economia nacional. O que diferentes estudos mostram é que
a fatia da indústria manufatureira no Produto Interno Bruto (PIB) reduziu-se
pela metade nas últimas três décadas. E a produtividade vem igualmente
decaindo.
Parece haver uma relação simbiótica entre baixa eficiência da indústria e má qualidade do ensino em diferentes níveis. Pode-se atribuir parte da perda de eficiência da indústria às falhas na preparação escolar da população. Em recente documento, o Instituto Mobilidade e Desenvolvimento Social (IMDS) voltou a alertar para o fato de que, no segundo ano do ensino fundamental, um em cada dois alunos de escolas públicas no Brasil não está devidamente alfabetizado. Sobre esse fato, o presidente do IMDS, Paulo Tafner, escreveu: “Aprender a ler significa aprender a decodificar. Quando uma criança não domina essa habilidade, sua trajetória escolar fica comprometida. O País perde talentos e a economia paga a conta com produtividade baixa”.
Políticas públicas vêm sendo propostas para
romper essa relação simbiótica, sem grande êxito. Mas o problema é mais amplo.
Mesmo quando o sistema de ensino forma pessoas com boa ou ótima qualificação,
ou gera conhecimentos que poderiam transformar métodos de produção ou linhas de
produtos e serviços, são raros os casos de entendimento entre os centros
geradores desses conhecimentos e o sistema produtivo.
Talvez o caso de engenheiros – lembrado pelo
professor da Escola Politécnica da USP e presidente da Fundação Vanzolini, João
Amato Neto, em artigo para o portal do Estadão – seja uma exceção. Houve uma
época, durante a decadência da indústria, em que se falava em “apagão de
engenheiros”, pois anualmente se formavam apenas cerca de 30 mil engenheiros. Nos
últimos 20 anos, o número cresceu, até a formação de mais de 120 mil
engenheiros por ano. É um caso típico de demanda do setor produtivo por
profissionais preparados pelas universidades, e de resposta adequada que estas
souberam dar.
Embora tenha gerado emprego para tantos
formandos, essa talvez seja uma demanda localizada. Com a experiência de
cientista, professor e gestor público, o físico José Goldemberg vê uma
distância muito grande entre a produção de conhecimentos nas instituições de
pesquisa e ensino e a utilização desses conhecimentos para a produção de bens e
para o bem-estar da sociedade. Goldemberg dirigiu o Instituto de Física da USP,
foi reitor da USP, presidiu a Fundação de Amparo à Pesquisa no Estado de São
Paulo (Fapesp) e ocupou cargos de secretário de Estado e de ministro. Ele vê
com ceticismo a evolução da indústria. “Faz pouquíssima pesquisa, usa
equipamentos importados para produzir bens de baixa qualidade e não consegue
competir”, avaliou em conversa com o autor. “A universidade pode ajudar a
indústria, mas não há interesse correspondente na indústria”, diz. Os
cientistas, completou Goldemberg, vivem se queixando de que fazem pesquisas que
a sociedade não utiliza. Isso ocorre, diz ele, porque o sistema produtivo não
se interessa pelo que fazem os institutos de pesquisa.
De nenhum dos lados tem havido ações com
resultados notáveis para a redução desse distanciamento, que resulta em baixo
crescimento e perda de relevância da indústria.

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