sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

Dificuldade em explicar Trump é sinal de época de mudanças. Por Marcos Augusto Gonçalves

Folha de S. Paulo

Imprevisibilidade do autocrata americano se confunde com crise de conceitos criados para explicar outros tempos

Para cientista político Christian Lynch, não é hora de ficar preso em caixinha analítica e dizer que tudo está igual

Não é a economia, não é a política, não é a ordem internacional. É tudo. O mundo não é mais aquele. É cada vez menos segura a confiança no funcionamento das instituições, nos sistemas de freios e contrapesos, na capacidade da democracia liberal e do establishment de responder à erosão em curso e as coisas voltarem ao antigo normal.

Mesmo que Donald Trump seja futuramente derrotado nas urnas, veremos os Estados Unidos restabelecerem a credibilidade e a previsibilidade? Ou estamos nos aproximando de um ponto de não retorno para a ordem republicana anterior?

Talvez seja bom ouvir as palavras do premiê canadense, Mark Carney, e de líderes europeus, que falaram em ruptura e novo mundo, em Davos. Ou de analistas americanos certos de que as avarias causadas por Trump não serão apagadas, deixarão marcas permanentes. Aquele cenário ocidental do pós-guerra, da hegemonia americana, das prerrogativas liberais, da globalização econômica, dos organismos multilaterais, está exaurido.

A ascensão da China, a consolidação da Rússia, o enfraquecimento da Europa, a imposição de Israel, o fim da ONU, da OMC e de outras tantas instituições multilaterais refletem a cena cujo protagonista é o exterminador vindo da América. É a superação do mundo tal como o conhecemos a partir da segunda metade do século 20 e, particularmente, do período pós-soviético.

O fato de que a grande erupção —ou disrupção— tenha como epicentro o país exemplo da democracia moderna, por meio de uma liderança autoritária, plutocrática e racista, causa desorientação. Mais ainda quando o líder em questão usa e tira proveito das incertezas e encena ao paroxismo sua imprevisibilidade. Como notou a colunista Lúcia Guimarães, ao demonstrar inconformismo com os que insistem a tudo normalizar, a situação atual é desafiadora. Pede mais do que a repetição de conceitos e receitas de outras épocas, analistas a esgrimir com categorias cuja vigência esfarela-se às nossas vistas.

Como observa para esta coluna o cientista político Christian Lynch, o fato é que estamos no escuro. "Os instrumentos que tínhamos da época passada não funcionam mais, navegamos em águas desconhecidas", diz. "A única maneira que temos de tentar compreender o que está acontecendo é através da imaginação e do recurso à história, e não ficar preso a uma caixinha analítica indefinidamente para dizer que tudo está igual", afirma.

O comentário não deixa de valer também para as discussões sobre a política brasileira, a partir das revoltas da década de 2010 e do surgimento da extrema direita bolsonarista –com as consequências que perduram. Vemos uma série de mudanças nas relações entre os Poderes, com o avanço do Legislativo sobre o Orçamento, as dificuldades do Executivo em fazer prevalecer sua pauta e um STF que salta da caixa como um boneco de mola.

Há quem também acredite, embora muitos não gostem disso, que também parte dos instrumentos de explicações sobre o funcionamento da economia e dos mercados contemporâneos também estariam com problemas nesses tempos de triunfo chinês, alta disputa tecnológica e desglobalização. Tudo dá mesmo muito pano para manga quando o passado, parafraseando Tocqueville (1805-1859), já não lança tanta luz sobre o futuro.

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