Folha de S. Paulo
Imprevisibilidade do autocrata americano se confunde com crise de conceitos criados para explicar outros tempos
Para cientista político Christian Lynch, não
é hora de ficar preso em caixinha analítica e dizer que tudo está igual
Não é a economia, não é a política, não é a
ordem internacional. É tudo. O mundo não é mais aquele. É cada vez menos segura
a confiança no funcionamento das instituições, nos sistemas de freios e
contrapesos, na capacidade da democracia liberal e do establishment de
responder à erosão em curso e as coisas voltarem ao antigo normal.
Mesmo que Donald Trump seja futuramente derrotado nas urnas, veremos os Estados Unidos restabelecerem a credibilidade e a previsibilidade? Ou estamos nos aproximando de um ponto de não retorno para a ordem republicana anterior?
Talvez seja bom ouvir as palavras do premiê
canadense, Mark
Carney, e de líderes europeus, que falaram em ruptura e novo
mundo, em Davos. Ou de analistas americanos certos de que as avarias causadas
por Trump não serão apagadas, deixarão marcas permanentes. Aquele cenário
ocidental do pós-guerra, da hegemonia americana, das prerrogativas liberais, da
globalização econômica, dos organismos multilaterais, está exaurido.
A ascensão da China, a consolidação da
Rússia, o enfraquecimento da Europa, a imposição de Israel, o fim da ONU, da
OMC e de outras tantas instituições multilaterais refletem a cena cujo
protagonista é o exterminador vindo da América. É a superação do mundo tal como
o conhecemos a partir da segunda metade do século 20 e, particularmente, do
período pós-soviético.
O fato de que a grande erupção —ou
disrupção— tenha como
epicentro o país exemplo da democracia moderna, por meio de uma
liderança autoritária, plutocrática e racista, causa desorientação. Mais ainda
quando o líder em questão usa e tira proveito das incertezas e encena ao
paroxismo sua imprevisibilidade. Como notou a colunista
Lúcia Guimarães, ao demonstrar inconformismo com os que insistem a
tudo normalizar, a situação atual é desafiadora. Pede mais do que a repetição
de conceitos e receitas de outras épocas, analistas a esgrimir com categorias
cuja vigência esfarela-se às nossas vistas.
Como observa para esta coluna o cientista
político Christian
Lynch, o fato é que estamos no escuro. "Os instrumentos que
tínhamos da época passada não funcionam mais, navegamos em águas
desconhecidas", diz. "A única maneira que temos de tentar compreender
o que está acontecendo é através da imaginação e do recurso à história, e não
ficar preso a uma caixinha analítica indefinidamente para dizer que tudo está
igual", afirma.
O comentário não deixa de valer também para
as discussões sobre a política brasileira, a partir das revoltas da década de
2010 e do surgimento da extrema direita bolsonarista –com as consequências que
perduram. Vemos uma série de mudanças nas relações entre os Poderes, com o
avanço do Legislativo sobre o Orçamento, as dificuldades do Executivo em fazer
prevalecer sua pauta e um STF que salta da caixa como um boneco de mola.
Há quem também acredite, embora muitos não gostem disso, que também parte dos instrumentos de explicações sobre o funcionamento da economia e dos mercados contemporâneos também estariam com problemas nesses tempos de triunfo chinês, alta disputa tecnológica e desglobalização. Tudo dá mesmo muito pano para manga quando o passado, parafraseando Tocqueville (1805-1859), já não lança tanta luz sobre o futuro.

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