Por Mariana Muniz / O Globo
Magistrado afirma que eventuais questionamentos sobre a investigação da instituição financeira, sob a relatoria do ministro Dias Toffoli, podem ser analisados pela Segunda Turma da Corte
Presidente do Supremo Tribunal Federal (STF),
o ministro Edson
Fachin afirma em entrevista ao GLOBO que não irá ficar de “braços
cruzados” na hipótese de ter que avaliar questionamentos sobre o caso do Banco
Master, cuja investigação está sob a relatoria do ministro Dias Toffoli, alvo
de pedidos
de suspeição feitos por parlamentares. Apesar de evitar fazer qualquer
antecipação sobre seu posicionamento, o magistrado afirma que pode agir — “doa
a quem doer”.
O ministro Dias Toffoli vem
sendo questionado sobre as condições de continuar como relator da investigação
do Banco Master no STF. Dois irmãos do magistrado já foram sócios de um resort
no Paraná e venderam a participação para um fundo que é ligado ao cunhado de
Daniel Vorcaro, dono da instituição financeira. Diante disso, o senhor entende
que Toffoli deve permanecer à frente do caso?
Como presidente do tribunal, não posso antecipar juízo sobre circunstâncias que eventualmente serão apreciadas pelo colegiado. Parte do que foi mencionado envolve atos não jurisdicionais. Mas uma coisa é certa: quando for necessário atuar, eu não vou cruzar os braços. Doa a quem doer.
O que achou das reações negativas
à nota em defesa de Toffoli e do STF divulgada na semana passada?
Uma nota institucional da presidência do
Tribunal tem, antes de tudo, o dever de defender a institucionalidade. Nesse
caso específico, defendeu-se a regularidade da atuação jurisdicional durante o
recesso, uma vez que o ministro relator foi designado por sorteio aleatório e
optou por continuar trabalhando. Além disso, procurei enfatizar a autonomia
técnica das instituições de controle — Banco Central, Polícia Federal e
Ministério Público. Cabe à Polícia Federal investigar com transparência; ao
Ministério Público, exercer plenamente suas atribuições.Nada está imune à
crítica, nem o Supremo, nem qualquer um de seus ministros. As interpretações da
nota são legítimas, sejam elas quais forem.
Na nota, o senhor afirmou que
é legítimo que eventuais vícios ou irregularidades devem ser analisados pelo
colegiado do STF. Haverá uma definição de outros ministros da Corte sobre a
permanência do caso Master no Supremo ou o retorno à primeira instância da
Justiça?
A regra é que eventuais arguições de
irregularidade sejam apreciadas pelo colegiado competente, nos termos do
regimento interno. Se houver recurso ou irresignação por parte de interessados,
essa matéria será submetida ao órgão colegiado correspondente, e o relator
apresentará suas razões. O colegiado, então, decidirá. Pela regra, será a
Segunda Turma, colegiado do qual o ministro Toffoli faz parte.
O senhor tem defendido a
necessidade de um código de conduta para ministros e até interrompeu as férias
para conversar com os demais integrantes da Corte. Por que esse tema enfrenta
tanta resistência na Corte?
Entendo que o Supremo, nesses 37 anos,
alcançou um amadurecimento institucional que permite a adoção de um código de
conduta. Foram décadas intensas: enfrentamos impeachments, grandes escândalos
de corrupção, ações penais de grande repercussão, como a Ação Penal 470
(processo do mensalão), a (Operação) Lava-Jato e, mais recentemente, o
julgamento de pessoas envolvidas na tentativa de golpe de Estado. Nesse
período, o Supremo assumiu um papel cada vez mais visível. Antes da
Constituição de 1988, poucas pessoas sabiam quem eram os ministros da Corte.
Hoje, isso é evidente, inclusive na vida cotidiana. A exposição pela TV Justiça
também contribuiu para isso. Outras Cortes passaram por processo semelhante. O
código de conduta fortalece a instituição porque reforça a legitimidade da
caminhada e aumenta a confiança da população. Ele fixa parâmetros objetivos de
comportamento. Dou um exemplo simples: a transparência sobre palestras
ministradas por ministros — onde foram realizadas, quem convidou, quem
patrocinou e se houve pagamento. Essa resposta precisa ser institucional e
estrutural. Não pode ser casuística nem direcionada a situações específicas. O
código deve ser duradouro.
Mas qual é o obstáculo para
tirar essa ideia do papel?
A principal resistência que percebo não é ao
conteúdo do código, mas ao momento. Há quem defenda que se espere passar o
período eleitoral para evitar contaminações políticas. Respeito essa posição,
mas não concordo. No Brasil, temos eleições praticamente a cada dois anos, e o
debate público, com críticas e controvérsias, faz parte da democracia. A
democracia é um canteiro de obras ruidoso.
É possível que o código seja
aprovado até 2027?
Se depender da minha iniciativa, espero
estabelecer um cronograma o mais breve possível, a partir de um consenso entre
os ministros. Isso não significa fazer algo apressado. O próprio debate sobre o
código deve ser um instrumento de mudança cultural. Isso é importante porque o
Supremo deve dar o exemplo para os cerca de 18 mil juízes do país.
Como têm sido essas conversas
com ministros?
O diálogo tem sido bom e muito positivo.
Tenho exposto as razões que nos levam a defender a adoção de um código de conduta
e, ao mesmo tempo, recebido sugestões, ideias e também algumas contraposições,
todas muito relevantes. O debate tem sido sadio, e estou confiante de que
daremos um passo adiante. Com o ministro Dias Toffoli, conversei por telefone.
No curso de uma ligação sobre outros assuntos, tratamos também do código de
conduta. Assim como ocorreu com os demais ministros, foi uma conversa cordial,
com a apresentação de sugestões que considero positivas.
Como vê a proposta de código
de conduta que a OAB-SP encaminhou ao STF?
Eu ainda não li detalhadamente, mas tenho
certeza de que ela contém boas ideias. Trata-se de uma comissão respeitável,
com ministros aposentados, professores e ex-integrantes do Ministério da
Justiça. Vejo como salutar a iniciativa. Há um debate legítimo sobre se o
Supremo pode adotar regras internas mais restritivas do que as previstas na Lei
Orgânica da Magistratura Nacional. A minha posição é afirmativa, desde que haja
critérios objetivos e que o objetivo seja a proteção do interesse público.
Por que o Judiciário tem sido
alvo de ataques?
O Judiciário não é eleito, o que faz com que sua legitimidade não venha do voto, mas do ingresso por concurso ou por indicação constitucional, seguido de sabatina. Essa é a chamada “legitimidade de entrada”. A outra dimensão é a “legitimidade da caminhada”, construída diariamente por decisões fundamentadas, jurisprudência estável e conduta compatível com a função. O Judiciário costuma ser alvo de ataques por três razões principais. A primeira é seu papel de controle sobre os demais Poderes, o que incomoda governantes com pretensões autoritárias. A segunda é o fato de ser um Poder sem armas ou força material própria, o que o torna mais vulnerável a tentativas de deslegitimação. A terceira está ligada ao papel assumido no pós-guerra de proteger direitos fundamentais e minorias, o que desperta reações de setores contrários a essa atuação.

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