O Estado de S. Paulo
O Brasil tem pouco a dizer e por isso mesmo é
pouco ouvido em duas crises atuais que envolvem o País, Venezuela e Irã. A voz
sem eco de uma potência média com escassa capacidade de projeção do poder é um
fenômeno acentuado por escolhas de um passado não tão distante.
No caso da Venezuela foram escolhas ideológicas de Lula e sua assessoria internacional. Cuba e o “socialismo do século 21” chavista exerceram sobre o núcleo duro da política externa de Lula um fascínio traduzido em apoio político e econômico – que Maduro, curiosamente, retribuiu com pontapés.
A perda de liderança brasileira no seu
entorno imediato veio sobretudo do antiamericanismo infantil e do clássico erro
grosseiro de política externa, que é apegar-se a “amigos” ideológicos. É o
preço de se ignorar fundamentos das relações entre países, e a conta mais alta
chama-se irrelevância relativa.
O caso do Irã tem a ver com o mesmo tipo de
aposta ideológica, que é apoiar qualquer regime simplesmente pelo fato de ele
ser “anti-imperialista”. Condição hoje atendida vagamente pela sigla Brics, no
qual a letra “i” é tanto de India quanto Indonésia e o Irã. Ou seja, países com
pouco denominador em comum a não ser uma relação especial com a China, a
principal potência dirigente do grupo.
O Brasil não tem muito o que dizer e por isso
é pouco ouvido nas crises do Irã e da Venezuela
Especialmente no complexo conflito do Oriente
Médio, no qual o Irã figurou até há pouco tempo como a pedra ancorando o “arco
da resistência”, o Brasil exerceu um tipo de indignação seletiva que o levou a
silêncios constrangedores diante do que o regime dos aiatolás fez para
massacrar protestos populares. Em parte esse tipo de conduta foi mascarado por
“necessidades de política comercial” – o Brasil tem exportação relevante de
commodities agrícolas para o Irã.
Em certa medida trocou-se qualquer estratégia
consistente de horizonte amplo pela política externa altiva e ativa de mostrar
a língua para os “estadunidenses”. E falar grosso em grêmios como a Unasul ou a
Celac, organizações que carecem de dentes.
Lula e sua assessoria internacional jamais
tiveram um projeto “de país”, em termos de inserção internacional. Alimentaram
sempre o que parecia adequado para um determinado nicho no espectro ideológico.
Com a reintrodução da lei da selva, “cortesia” de Donald Trump, da noite para o
dia viram-se diante do fato mais básico das relações internacionais: potências
não têm amigos, só interesses. E geopolítica manda na economia.
Fomos chutados de um berço esplêndido
diretamente para dentro de um pesadelo.

Nenhum comentário:
Postar um comentário
Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.