Valor Econômico
Será que o sonho de Friedrich Hayek, que
preconizava o fim da moeda fiduciária de curso legal, será realizado pelos
criptoativos?
Donald Trump lançou um projeto para aumentar
a demanda por criptomoedas. O Genius Act de Trump é um incentivo ao setor
privado a emitir stablecoins, como instrumento de garantir o dólar como moeda
de reserva internacional. Manter a soberania do dólar e enfraquecer as demais
moedas.
O correto é chamar de criptoativos, e não de
criptomoedas. Não têm aceitação geral; não são unidades de conta em nenhum
balanço no mundo. São ativos financeiros, uns lastreados em algoritmos e outros
em outras moedas, de preferência o dólar americano.
Os dados são imprecisos, mas estima-se que hoje existam entre 9.000 e 20 mil criptoativos diferentes. Esse número cresce a cada dia. Essa ansiedade diária de criação crescente e constante, a possibilidade de vingarem no mercado e se transmutarem realmente em moeda. Nessa feira cibernética de algoritmos e tokens tem de tudo, desde stablecoins até memes.
Será que o sonho de Friedrich Hayek, que
preconizava o fim da moeda fiduciária de curso legal, será realizado pela
concorrência voraz no mercado de criptoativos? Será o sonho austríaco
finalmente realizado com a criação e regulamentação do stablecoin?
Na visão libertária do economista austríaco,
os indivíduos racionais vão decidir qual é a melhor moeda de acordo com suas
expectativas. Será o fim do Estado nacional e de sua soberania monetária?
Friedrich Hayek, no livro “Denationalisation
of Money”, defendeu a concorrência entre bancos privados com o propósito de
atribuir aos indivíduos racionais a escolha da moeda.
“Será que alguém crê, realmente, que nos
países industriais do Ocidente, após a experiência do último meio século,
alguém possa confiar mais no valor do dinheiro patrocinado pelo governo do que
confiaria em dinheiro emitido por uma entidade privada, sabendo-se que suas
atividades dependem totalmente de que emita um dinheiro bom?”
Segundo o economista austríaco, o descontrole
monetário, ou seja, a má gestão da moeda, é a causa das flutuações e crises
monetário-financeiras. O capitalismo seria um sistema estável, sem a
intervenção danosa da política monetária dos bancos centrais, deixando aos
indivíduos a escolha da melhor moeda.
Discordamos dessa falácia individualista. A
moeda e a confiança nela são fenômenos coletivos, sociais. Tenho confiança na
moeda porque sei que o outro está disposto a aceitá-la como forma geral de
existência do valor das mercadorias particulares, dos contratos e da riqueza. O
metabolismo da troca, da produção, dos pagamentos depende do grau de certeza na
preservação da forma geral do valor, que deve comandar cada ato particular e
contingente. A reprodução da sociedade fundada no enriquecimento privado
depende da capacidade do Estado de manter a integridade da convenção social que
serve de norma aos atos dos produtores independentes.
O avanço tecnológico permitiu a criação de
moedas digitais de bancos centrais (CBDC). Uma CBDC é um passivo do banco
central. Assim como as cédulas físicas, é de curso legal e não pode ser
recusado como meio de pagamento.
Uma stablecoin atrelada ao dólar americano e
lastreada por ativos denominados em dólares pode, em teoria, ser facilmente
usada em países ao redor do mundo: um aplicativo no celular é suficiente.
Na regulamentação aprovada pelo Congresso
americano, o lastro para manter a paridade deve ser constituído por títulos
públicos americanos ancorados no dólar. Se as stablecoins forem predominantemente
lastreadas por dívida dos EUA, seu uso global pode gerar demanda adicional por
títulos americanos. A legislação americana não permite que o Federal Reserve
desenvolva sua (CBDC) para concorrer no mercado.
O economista francês Eric Monnet reconheceu que
“a conversibilidade das stablecoins em outros ativos é necessária, mas não
suficiente para torná-las estáveis. Ela não garante liquidez e estabilidade
quando a liquidez do mercado seca”.
Em 2023, a falência do Silicon Valley Bank
(SVB) levou a USD Coin, a segunda maior stablecoin global, a perder a paridade
com o dólar. A Circle, sua emissora, mantinha US$ 3,3 bilhões no SVB. O colapso
deste banco provocou uma corrida por resgates.
A situação só foi contida porque o governo
americano garantiu todos os depósitos do banco. Esse caso ressalta um ponto de
extrema importância: as emissoras das stablecoins mantêm seus depósitos nos
bancos. A instabilidade pode ser de mão dupla: entre o risco de iliquidez no
setor bancário e a crise de confiança no dólar americano ou em seus títulos, o
que força o resgate e a convertibilidade, podendo causar um problema de
solvência bancária.
“Stablecoins estão expostos ao risco de
liquidez e duration. Mesmo quando garantidos por ativos aparentemente seguros e
líquidos, há um descompasso entre a liquidez desses ativos e o vencimento deles
e dos de sua responsabilidade. Os usuários podem não conseguir resgatar suas
participações durante períodos de estresse, e as stablecoins nem sempre podem
ser aceitas à paridade” (Eric Monnet).
Corre-se o risco de transação de stablecoin
em dólar em qualquer lugar do mundo, basta um aplicativo e celular. Como diz
Eric Monnet: “Stablecoins podem circular dentro de um país mesmo que denominadas
em moedas estrangeiras, criando riscos para a soberania monetária e à autonomia
da política monetária, para usuários sujeitos a flutuações de câmbio e para a
gestão do sistema monetário internacional.”
Encerramos relembrando as peripécias de Hayek
em Cambridge nos anos trinta do século passado: Richard Kahn, companheiro de
Keynes, registra que as ideias apresentadas por Hayek no início dos anos trinta
foram recebidas em absoluto silêncio pela audiência de Cambridge. Para quebrar
o gelo, Kahn indagou: “A sua visão é que se eu amanhã sair e comprar um casaco
novo, isso elevará o desemprego?”. “Sim”, respondeu Hayek, virando para um
quadro negro repleto de triângulos, “mas demandaria um exercício matemático
muito longo explicar por quê”.
Os triângulos prosseguem obscurecendo a
compreensão das stablecoins.

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